Raul na China
raulnachina
 

Mil novos cinemas por ano na China

E não é que o mercado está torcendo o braço da propaganda? O governo chinês mandou retirar Avatar de mais de mil cinemas para abrir espaço para Confúcio, superprodução estatal de educação moral e cívica. Nem adiantou James Cameron vir aqui fazer média. Mas as autoridades chinesas não esperavam que 1. a gritaria pró-Avatar em casa fosse tão grande; 2. que o xaroposo filme nacional deixaria cinemas vazios (até a crítica local brinca que o filme é vagaroso porque "Confúcio estava velhinho"). Há cenas de artes marciais e gente voando, a la Tigre e o Dragão, o que irritou os mais nacionalistas e os confucionistas. Resultado: Avatar está voltando a várias salas onde estava Confúcio... Entre os dois populismos, o americano está na frente (já é a maior bilheteria da história da China).

O mercado também vence no outro lado, Hollywood. Os chineses deixaram de ser os vilões e viraram mocinhos em "2012". Cada vez há menos astro hollywoodiano falando de Tibete e Dalai Lama. O mercado chinês é o que mais cresce no mundo e o de maior potencial. Há 5801 salas de cinema na China (no Brasil, 2200) e deve pular para 10 mil em 2010. É um mercado fechadíssimo: apenas 20 filmes estrangeiros têm permissão de estrear por ano. O resto chega pelos dvds piratas _ a importação legal é quase impossível, o que cria uma reserva de mercado para os pirateadores.

Dos 20 filmes estrangeiros que podem estrear no país, normalmente 19 ou 20 são de Hollywood. Na batalha pelo mercado, o regime comunista não dá muita bola para o cinema europeu, nem para o cinema independente. Pela censura de sexo, nudez, violência ou mensagens políticas, o que sobra é filme-pipoca. O Partido Comunista gosta mesmo é da Disney. Até Gong Li, musa do cinema local, disse que a censura estava criando uma geração infantilizada. No último festival de cinema brasileiro aqui, acontecido há três anos, filmes como "Céu de Suely" e "O ano em que meus pais saíram de férias" foram censurados e não puderam ser exibidos.

Para ler mais sobre o mercado do cinema aqui, clique : http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1712200915.htm

sobre a onda de filmes patrióticos, http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1712200916.htm

Escrito por Raul Juste Lores às 08h54

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

China cresce 8,7% porque governo quer

Antes de falarmos do crescimento do PIB chinês em 2009 (8,7%), uma pequena comparação:

Em 1991, o PIB da China era de China US$ 450 bilhões, o do Brasil, US$ 400 bilhões e o da Argentina, US$ 300 bilhões. Com os números de 2009, o da China é de US$ 4,91 trilhões, o do Brasil, US$ 1,7 trilhão e o da Argentina US$ 350 bilhões.

A China cresceu 8,7% em 2009 porque o governo quis assim. Se o Partido Comunista consegue produzir chuvas e nevascas artificiais para mudar o clima em Pequim, o crescimento econômico em meio à recessão global não parece tão sobrenatural.

Ser uma ditadura coesa com decisões rápidas e incontestáveis ajuda. Ter um mercado potencial de 1,35 bilhão de habitantes, que lhe permite impor regras e retirar o que quiser de investidores e de governos estrangeiros (que não admitiriam imposições semelhantes de nenhum outro país) é uma vantagem única. Além da mão de obra disciplinada, profundamente trabalhadora e louca para deixar a miséria dos últimos mil anos.

A China está construindo 1000 km de metrô em 15 cidades e aprovou novos 2500 km em outras 22 (São Paulo e Rio juntas têm 110 km). Obras tiveram o prazo de entrega encurtado de quatro para dois anos apenas para obrigar empreiteiras a contratarem mais gente e gastar mais.

O governo nacional baixou os impostos dos automóveis para alegria da nova classe média que só andava de bicicleta e obrigou centenas de prefeituras e governos provinciais a renovarem suas frotas. 12,3 milhões de carros foram vendidos, ultrapassando os EUA como maior mercado automotivo do mundo.

Bancos estatais tiveram que emprestar o equivalente a 90% do PIB brasileiro a empresas estatais e governos provinciais que dificilmente quitarão suas dívidas, assunto empurrado para depois. Dinheiro não falta. Com sua moeda artificialmente colada ao desvalorizado dólar e mão de obra barata, o superávit comercial do país varia entre US$ 200 bi e 300 bi ao ano. Os investimentos estrangeiros diretos no país variam entre US$ 50 e 100 bilhões anualmente nas últimas duas décadas.

O país possui US$ 2,4 trilhões em reservas internacionais, mais que os PIBs de Brasil, Argentina e Chile juntos.

Por isso a overdose de estimulantes econômicos. No mês passado, foi inaugurada a linha de trem de alta velocidade entre as metrópoles de Wuhan e Guangzhou, de 960 km de extensão, praticamente a distância entre São Paulo e Brasília. A viagem é feita em três horas (antes durava dez) e as passagens custam entre 490 e 780 yuans (R$ 122,5 e R$ 195). Nas três primeiras semanas de operação, a ocupação foi de 30%. Os chineses ainda só conseguem pagar as passagens baratas da viagem longa. A obra custou o equivalente a R$ 29 bilhões.

Para ler o restante do meu comentário de hoje na Folha, clique aqui: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi2201201031.htm

Mais informações sobre a economia chinesa, http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi2201201029.htm

Escrito por Raul Juste Lores às 10h11

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

O descobrimento do Brasil

A relação da China com o Brasil vai decolar?, me perguntou Hu Shuli, para muitos a maior jornalista da China. Ela me convidou para escrever um artigo sobre as relações dos dois países para a nova revista que acaba de lançar, a Caixin. Durante 11 anos, Hu Shuli foi editora da Caijing, uma das raras publicações independentes e críticas toleradas pela censura chinesa e a Caixin promete continuar o desafio.

O texto que escrevi mostra o outro lado do texto de 1º de dezembro neste blog sobre a modesta presença brasileira na China. Apesar do que se fala, a presença e a atenção chinesas com o Brasil também são mínimas. O comércio cresceu muito, é verdade, como com qualquer outro mercado do mundo com a China, mas se você tirar da conta matérias primas como soja e ferro pouco sobra.

O governo chinês é obcecado com os Estados Unidos, de estudar o seu sucesso a copiar suas tradições, mas ainda não dá muita bola aos países emergentes (G2 aqui é bem mais sexy que os BRICs). Lula visitou a China três vezes e deve fazer uma quarta visita em maio para a Exposição Universal de Xangai; o presidente chinês, Hu Jintao, esteve só uma vez no Brasil em 2004, o premiê Wen Jiabao nem isso.

Comparada com a atenção e o capital colocados na relação com a África, a América Latina ainda parece distante das prioridades chinesas.

Os investimentos chineses no Brasil são mínimos. A siderúrgica de US$ 4 bi que a Baosteel construiria no Espírito Santo foi cancelada em 2008 e ninguém viu os tais US$ 70 bilhões de investimentos chineses que o presidente Hu prometeu em sua visita a Brasília em 2004. A China importa carne bovina e suína dos EUA, mas ainda barra a do Brasil e as negociações comerciais se arrastam.

A cooperação diplomática ainda é pequena e o fato da China não apoiar o desejo brasileiro por uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU não ajuda. Fora isso, tem o crescente número de investigações antidumping brasileiras contra produtos chineses (que a China acusa de protecionistas) e a distância geográfica natural. A imagem da China no Brasil não é das melhores.

Goste-se ou não da China, essa é uma aliança fundamental para o Brasil no século 21. Vários ministros brasileiros têm vindo para cá, assim como empresários, mas ainda falta bastante para a relação decolar. Despertar o interesse dos chineses sobre o Brasil e sugerir novas avenidas de cooperação são o objetivo do meu artigo na primeira edição da Caixin, que você pode ler aqui: http://english.caing.com/2010-01-10/100106987.html

(Foto: Xinhua)

Escrito por Raul Juste Lores às 05h58

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Google pede para sair da China

A Google Inc. ameaça abandonar o mercado chinês, depois de acusar um ataque a contas de gmail de ativistas pró-direitos humanos no país. Em comunicado, a empresa diz que não vai mais censurar as pesquisas em seu mecanismo de buscas, como exige o governo chinês _ o que pode render a sua expulsão da China.

Desde 2006, quando o site Google.cn foi criado, pesquisas sobre termos como "dalai lama", "massacre na Praça da Paz Celestial" e "Falun Gong" são bloqueadas. Até pesquisas sobre as biografias dos líderes do Partido Comunista podem vir em branco.

O desafio público da Google às autoridades chinesas ainda é mais chocante porque não há empresa ocidental que não se "ajuste" às regras chinesas para ter algum acesso ao mercado de maior potencial do mundo (em qualquer área). Empresas estrangeiras são enganadas pelos seus sócios chineses, são alvos de pirataria e afins, mas sempre mantém o silêncio e seguem as regras do jogo. Algumas têm sucesso e fazem bilhões. A Google cansou.

Provavelmente negociou a portas fechadas com o governo chinês, sem resultado. Decidiu pelo barulho. Há uma razão evidente: os negócios da Google representam uma parcela pequena do rendimento da gigante americana. E aí voltamos ao tema da censura. O governo chinês estimula sites locais que copiam os americanos para dominar o mercado. Há uma cópia do Youtube (o Youku), que coloca no ar seriados e filmes americanos sem pagar os direitos, assim como versões piratas de eBay, Facebook, Amazon e por aí vai.

Não se trata apenas de protecionismo. As autoridades de Pequim sabem que as empresas locais vão colaborar com mais fervor na autocensura. O Google sofreu diversos bloqueios, retiradas do ar, advertências públicas _ e foi perdendo mercado para o Baidu.com, a cópia local do Google, que tem excelentes relações com o Partido Comunista. O Baidu tem 62% do mercado, o Google, 29%. Nos cálculos da empresa californiana, parece que não vale mais a pena disputar esse mercado. Estou à espera dos próximos rounds.

Escrevi longamente sobre a insular e isolada internet chinesa no mês passado, você pode ler aqui: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft2012200901.htm

e http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft2012200903.htm

(a foto é do blogueiro Youthfilm e mostra flores colocadas hoje na entrada do escritório da Google em Pequim; o bilhete é assinado pelo "homem puro da Google")

Escrito por Raul Juste Lores às 06h18

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

O maior porto do mundo

 A China quis criar o maior porto do mundo _ e ele cumpriu o objetivo em 2009. O porto de Xangai estava abarrotado, não tinha como crescer na cidade e a profundidade do estuário do rio Huangpu não permitia navios maiores e mais modernos. Em 2002, o governo decidiu que precisava de uma ampliação. Escolheram duas ilhotas a 32km de Xangai para construir o anexo do porto. Em 2003, construíram a maior ponte do mundo em mar aberto para ligar o continente às ilhas (ficou pronta em 2005). De lá pra cá, tudo foi rápido: uniram as duas ilhas com 100 milhões de toneladas de areia, terraplenaram e criaram um porto gigante, Yangshan. A queda nas exportações de Cingapura no ano passado ajudaram o de Xangai a se tornar o maior do mundo. Seu movimento é 10 vezes maior que o de Santos, o maior do Brasil.

Para os consultores holandeses e americanos contratados pelos chineses para a tal façanha, a ideia é que o porto ficasse pronto em 2020. Em 2007, parte dele já começou a ser utilizado e, quando visitei o porto no ano passado e fiz as fotos acima, ele já estava com 80% da capacidade em uso. Seus detratores dizem que a obra é megalomaníaca, que não havia necessidade dessa ponte bilionária, que o meio ambiente foi devastado (claro) e que só é possível fazer obras assim com operários disciplinados ganhando muito pouco e trabalhando de domingo a domingo.

Detalhe: os prédios acima, que contém administração, escritórios e o restaurante (o com interior vermelho) foram todos feitos após concursos de arquitetura, por escritórios estrangeiros e locais. Note o tamanho do caminhão perto dos containers e gruas para sentir o tamanho da obra. Para ler a reportagem que escrevi quando ele ainda era o segundo do mundo, clique em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi2308200915.htm

 

Escrito por Raul Juste Lores às 05h55

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

O capitalismo "predatório" da China

Paul Krugman, Prêmio Nobel da Economia em 2008, escreveu um contundente artigo no New York Times criticando o câmbio artificial do yuan, a moeda chinesa. Ele diz que é justo que os demais países criem barreiras comerciais para se defender do "mercantilismo predatório" da política econômica chinesa. Um trecho de seu argumento:

"Ao contrário do dólar, do euro, cujos valores flutuam livremente, a moeda da China é fixada em 6,8 yuans por dólar. Com essa taxa de câmbio, a indústria manufatureira chinesa tem uma grande vantagem de custo em relação a seus rivais, o que leva a enormes superávits.

Em circunstâncias normais, a entrada de dólares resultante desses superávits faria a moeda chinesa se valorizar, a menos que isso fosse compensado pelo movimento de investidores privados no sentido contrário. E os investidores privados estão tentando entrar na China, não sair. Porém, o governo da China restringe o ingresso de capitais, mesmo que compre dólares e os mantenha no Exterior, aumentando um estoque de reservas em moeda estrangeira que já supera US$ 2 trilhões.

Os chineses se recusam a admitir o problema. Muitos países estão adotando (modestas) medidas protecionistas, justamente porque a China se recusa a deixar sua moeda subir. E mais medidas desse tipo são totalmente apropriadas"

Krugman vai além: diz que os EUA não devem temer uma retaliação chinesa pois se os chineses começarem a vender seus dólares, o prejuízo seria maior para os chineses -- e uma queda no valor do dólar deixaria os EUA mais competitivos. Essa discussão só deve aumentar em 2010.

Para ler o artículo na íntegra, clique em http://www.nytimes.com/2010/01/01/opinion/01krugman.html?scp=1&sq=paul%20krugman%20chinese%20new%20year&st=cse

(a foto acima, da Xinhua, mostra um prédio de 13 andares que desabou quase inteirinho em Xangai no ano passado)

Escrito por Raul Juste Lores às 06h35

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

Raul Juste Lores Raul Juste Lores, 33, correspondente da Folha em Pequim. Foi correspondente em Buenos Aires e editor de Internacional da Revista Veja e apresentador e editor-chefe do Jornal da Cultura, na TV Cultura.

BUSCA NO BLOG


ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha Online. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha Online.