Raul na China
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Intelectual chinês diz que G2 é "fato"

Um mundo em que G8 e o novo G20 serão aposentados pela discussão bilateral entre as duas superpotências que importam - EUA e China, o "G2".

Esse é o "fato" previsto pelo cientista político chinês Yan Xuetong, diretor do Instituto de Estudos Internacionais da Universidade Tsinghua. Ele me deu uma entrevista na semana passada, publicada ontem na Folha. Destaco aqui três opiniões do influente professor chinês:

G2 É FATO
Há um mal-estar sobre o G2 como se fosse uma política dos dois países, mas não é. É um fato. Hoje é cedo para falar de G2, mas em 15 anos ou no máximo 20 teremos uma "situação G2", quando a China terá efetivamente diminuído a distância que tem entre si e os EUA em termos de poder abrangente.
Há duas possibilidades no presente, a multipolarização e a bipolarização. É muito provável que a primeira seja substituída pela segunda.
Mas, por enquanto, economicamente, militarmente e em "soft power", a China não pode competir com os EUA. Só que a crise financeira global do ano passado diminuiu essa diferença e aumentou dramaticamente o status da China.

BARRADA NO CLUBE
Será muito difícil que a China seja aceita como membro do clube dos países desenvolvidos porque seu sistema político não é aceito pelo clube do Ocidente. Se a Rússia fracassou em ser aceita, duvido que a China consiga. Então a China poderia estabelecer uma parceria mais positiva com países em desenvolvimento, como Índia, Brasil, Rússia, África do Sul.
Ao contrário do clube das potências ocidentais, os emergentes não ligam tanto para a diferença nos sistemas políticos. O que os une é o estágio econômico. Os europeus achavam que estavam no centro do mundo e que deveriam servir de modelo para os outros, dividindo entre civilizados ou não. É um complexo de superioridade baseado não só em coisas materiais.


VANTAGENS DA CHINA
A crise financeira teve um grande impacto na nossa política externa. A crise levantou o status da China na arena internacional, nos deixou mais confiantes e fez com que o mundo veja que nosso modelo tem vantagens. É da natureza humana achar que todo sucesso é baseado em algum modelo correto. Agora, muitos se perguntam o que vale aprender sobre a China.
A China vai colocar mais e mais fé no dinheiro, achando que o resto do mundo mudará suas atitudes em relação ao país por conta do dinheiro. Não há sociedade ou juventude que adore mais o dinheiro que os chineses.

Para ler a entrevista na íntegra, clique em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft2812200911.htm
No vídeo acima, há uma outra entrevista do professor Yan para uma revista asiática.

Escrito por Raul Juste Lores às 09h13

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Castigo de Natal

 

 

E a China esperou a manhã de Natal para condenar a 11 anos de prisão o professor de Literatura Liu Xiaobo, de 54 anos, que aparece no vídeo acima. Motivo: "incitação a subversão". Ele foi preso em dezembro do ano passado por ser coautor da "Carta 08", um manifesto que pede eleições diretas, liberdade religiosa e de expressão na China. Como a internet aqui é censurada, uma parte ínfima dos internautas leu o tal manifesto.

Governos europeus e o americano condenaram o veredicto, e escritores como Umberto Eco e Salman Rushdie pediram sua libertação. Tem gente que acha que a China está forte e segura, por isso não dá bola às pressões externas. Acho o contrário: um regime tem que ser muito frágil para condenar alguém a 11 anos de prisão por um texto crítico; e escolher o Natal para anunciar o julgamento, quando o resto do mundo está ocupado com ceias, festas e afins, não é bem uma demonstração de desafio ou força. No ano passado, outro dissidente, Hu Jia, foi condenado às vésperas do Natal.

Para ler mais, clique em

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft2612200909.htm

Escrito por Raul Juste Lores às 14h40

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Quero ser Veneza

A duas horas e meia de carro de Xangai, Hangzhou já foi uma Veneza chinesa, que deslumbrou Marco Polo. Muitos séculos depois, o Grande Canal, que cruzava a cidade, estava abandonado. Como em quase toda a China, construções históricas foram destruídas sem piedade, substituídas por arquitetura stalinista ou os shoppings cheios de neon onipresentes. Apenas o belo Lago do Oeste, artificial e cercado de verde, lembrava o passado glorioso da cidade, hoje uma metrópole feiosa de 6 milhões de habitantes.

Mas Hangzhou quis ressuscitar a beleza do Grande Canal, que já não é mais usado para escoar a produção agrícola, como há mil anos. A água tem sido despoluída nos últimos quatro anos e o governo local decidiu contratar um dos maiores iluminadores do mundo para levantar o lugar. O francês Roger Narboni, que iluminou a Catedral de Notre Dame, fez um grande trabalho. Passarelas dos dois lados, novos restaurantes e programação noturna estão transformando o lugar. Jantei até em um barco-restaurante no canal, enquanto o atardecer cedia espaço para as luzes LED. Não é Veneza, mas dá invejinha a quem se acostumou com Tamanduateí, Tietê, Pinheiros...

Para ler mais sobre o novo Grande Canal: http://www1.folha.uol.com.br/folha/turismo/noticias/ult338u614564.shtml

No twitter, @rauljustelores

Escrito por Raul Juste Lores às 06h05

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Você confia no Made in China?

O comercial acima passa sem parar na CNN Ásia, Europa e Estados Unidos. É a primeira campanha global do governo chinês para defender os produtos Made in China e dizer que ele beneficia todo o mundo. É verdade que da Apple a Armani, as grandes marcas internacionais produzem aqui. Por outro lado, corte de custos, falta de ética e inexperiência fazem produtos chineses ter uma péssima reputação mundo afora. A campanha foi adiada por vários meses _ a agência americana que fez os anúncios foi contratada em setembro de 2008, quando estourou o escândalo do leite contaminado aqui, que provocou pedra nos rins dde 300 mil bebês chineses. A censura e falta de contrapeso ao poder do Partido Comunista protege empresários picaretas bem relacionados.

O outro motivo da campanha, dizem, é tentar defender a China de futuras barreiras e sanções comerciais (várias já começaram, dos EUA ao Brasil). A moeda chinesa está subvalorizada artificialmente e vários países dizem que a concorrência com a China é desleal. Além da moeda, as inacreditáveis leis trabalhistas e ambientais por aqui dão vantagens extras aos produtores locais, dizem os mais críticos. Será que essa propaganda basta?

Escrito por Raul Juste Lores às 12h22

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Algas contra o aquecimento global

Nos últimos anos, a China virou o grande vilão do aquecimento global. Fábricas de todo mundo vieram para cá, as autoridades permissivas ignoraram qualquer impacto ambiental em troca de mais investimento e rios, lagos e o ar do país se tornaram os mais poluídos do mundo. A situação ainda é sombria em boa parte do país, mas há uma outra China tentando liderar e faturar com o negócio das energias renováveis.

Visitei a fábrica da ENN, acima, distribuidora de gás da vizinha província de Hebei que investe pesado no desenvolvimento da energia solar e eólica, e já produz o carvão gaseificado que eles chamam de "carvão limpo". A última novidade deles é desenvolver uma técnica que usa algas marinhas para absorver o dióxido de carbono. Se funcionar, pode ser implantado na vizinhança das milhares de termoelétricas da China (75% da energia chinesa vem do altamente poluente carvão). As algas também seriam transformadas em biocombustível e ração animal.

Para saber mais sobre a fábrica, clique aqui: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe0512200902.htm

Como a China quer liderar o negócio renovável: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe0512200901.htm

Fotos: Divulgação

Escrito por Raul Juste Lores às 11h06

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A modesta presença brasileira na China

"Não é o Brasil que exporta para a China, é a China que compra ferro e soja da gente". Escuto essa frase desde que cheguei aqui de empresários brasileiros. Difícil discordar. Não só não temos marcas conhecidas por aqui, mas a promoção brasileira no futuro maior mercado do mundo ainda é de país pequeno. Temos 39 empresas, a maioria com modestos escritórios de representação, uma embaixada reduzida, poucos brasileiros estudando mandarim (e a ausência de um bom programa de bolsas que reverta isso), zero centro de estudos da China no Brasil e nenhuma ofensiva de charme cultural ou esportiva que reduza isso. Por enquanto, 95% de nossas exportações à China são matérias primas. E mesmo assim a China já é o maior comprador do Brasil em 2009, à frente de EUA e Argentina.

Escrevi sobre o assunto na Folha: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi2811200902.htm

O México tem 300 bolsistas aqui estudando mandarim.  Não há nenhum centro de estudos sobre a China nas universidades brasileiras, e apenas a USP tem um curso de mandarim. Na Austrália, há 40 centros de estudos sobre a China nas universidades locais. Nos EUA, são mais de cem.
A Espanha promoveu um "Ano da Espanha na China", que levou diversas exposições, degustações de vinho e gastronomia, espetáculos de flamenco na Ópera de Pequim, sempre prestigiados por membros da família real ou do governo. Neste ano, foi o país convidado da Feira do Livro de Pequim.
O Reino Unido tem quatro centros do British Council instalados na China. Um grupo de empresas de luxo da França criou um site todo em mandarim para promover marcas francesas no país.

Como outros países se promovem aqui: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi2811200903.htm

A irresistível foto mostra a promoção da Louis Vuitton em Xangai. Na China, too much is not enough. (Foto: France Presse)

Escrito por Raul Juste Lores às 00h10

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PERFIL

Raul Juste Lores Raul Juste Lores, 33, correspondente da Folha em Pequim. Foi correspondente em Buenos Aires e editor de Internacional da Revista Veja e apresentador e editor-chefe do Jornal da Cultura, na TV Cultura.

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