Raul na China
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Hora de mudanças no Japão

A oposição japonesa conquistou ontem quase dois terços da Câmara dos Deputados, na maior reviravolta eleitoral do país desde a Segunda Guerra Mundial.
O centrista Partido Democrata do Japão (PDJ) ocupará 308 assentos do Parlamento (de um total de 480), quase triplicando os 112 deputados que tinha na atual composição. Seu líder, Yukio Hatoyama, 62, se tornará premiê em duas semanas.
O conservador Partido Liberal Democrata (PLD), que governou o país por 54 dos últimos 55 anos (a exceção foi um breve período em 1994), perdeu, por sua vez, quase dois terços das cadeiras que tinha no Parlamento, recuando de 303 para 119.
Em sua campanha, ele lançou um manifesto prometendo reforçar o Estado de bem-estar social no Japão e acusando o neoliberalismo dos anos do ex-premiê Junichiro Koizumi (2001-2006) pela atual crise que o país vive.
Os democratas também apresentaram diversos candidatos jovens, em contraste com os sexagenários e septuagenários que dominam a política do PLD. Em vários cartazes, aparecia escrito "change" (mudança), em inglês mesmo, uma alusão ao marketing da campanha de Barack Obama nos EUA.
Apesar do discurso reformista, o engenheiro Hatoyama, com pós-graduação em Stanford, é do establisment político nipônico. Seu avô foi primeiro-ministro entre 1954 e 1956 e seu pai foi chanceler, ambos pelo PLD. Seu irmão foi até há pouco ministro no gabinete do premiê Taro Aso, derrotado na eleição de ontem.
O PDJ foi criado em 1998, unindo dissidentes do PLD, socialistas e comunistas.
Para ler mais, http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft3108200901.htm

Escrito por Raul Juste Lores às 07h22

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O Bush japonês

"Jovens com pouco dinheiro não deveriam se casar", discursou o primeiro-ministro japonês, Taro Aso, no último domingo, em plena campanha para reeleição.
"Parece-me difícil que alguém sem salário possa ser visto como objeto de respeito pelo parceiro", emendou ele.
Aso fazia campanha em Tóquio para estudantes universitários, quando foi questionado se a baixa taxa de natalidade do país e a queda no número de casamentos tinham relação com os poucos recursos da população mais jovem.
A resposta já foi parar na longa lista de gafes do primeiro-ministro, apelidado de "Bush japonês" pela imprensa local.
No único país desenvolvido em que acontecem mais mortes que nascimentos e que sofre com o envelhecimento acelerado, as declarações apenas ajudaram a reforçar a impopularidade de Aso.
A taxa de popularidade do premiê era de 80% quando ele chegou ao poder, em setembro de 2008, mas desabou para 15% em julho passado -quando, mesmo entre seus correligionários do Partido Liberal Democrático, havia quem defendesse sua renúncia, para tentar reduzir o desgaste da imagem da sigla com vistas à eleição.
"Um país ideal é aquele onde judeus ricos queiram viver", disse ele em uma entrevista.
Em uma reunião de associações de pais e mestres, Aso discursou: "Concordo com um diretor que disse que quem precisa ser educado são as mães, não as crianças".
"O Japão está fazendo [no Oriente Médio] o que os americanos não conseguem. Talvez não seja bom ser loiro de olhos azuis. Felizmente, nós, japoneses, somos amarelos", é outro dos controversos "asoísmos".
Ao comentar o violento período em que Taiwan foi colônia japonesa, ele disse que a ilha deveria agradecer a ocupação, pois "levantamos o nível da educação por lá, e agora eles são desenvolvidos".

Tropeçando no kanji
Outra característica que o aproxima do ex-presidente americano são os tropeços em seu próprio idioma. Aso já errou diversas vezes a pronúncia do kanji, os ideogramas de origem chinesa usados no Japão. Um mesmo ideograma pode ser lido em até nove maneiras diferentes, ao contrário do chinês, que tem o fonema fixo.
Lendo, Aso já misturou várias palavras. Encontros "frequentes" com as autoridades chinesas viraram "encontros enfadonhos".
Ao dizer que apoiava o pedido de desculpas pela guerra, "apoiar" soou como "feder".
A pronúncia correta do kanji é um dos maiores sacrifícios da vida escolar dos japoneses. Treina-se os caracteres com a ajuda de silabários fonéticos.
Graças à popularidade dos enganos do premiê, a indústria editorial japonesa vive uma febre do kanji, com vários livros ensinando a pronúncia correta dos 1.945 kanji oficiais.
"Você acha que sabe ler, mas não sabe", um manual de kanji, vendeu 800 mil exemplares nos últimos cinco meses. Nas livrarias de Tóquio, é chamado de "o livro do primeiro-ministro".

(A incrível foto da AP registra Taro Aso em encontro com lutadores de sumô da Bulgária, depois de contribuir para a associação dos moços. Este blogueiro está mo Japão para cobrir as eleições)

Escrito por Raul Juste Lores às 12h21

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Vexame brasileiro em Xangai

(acima, imagens do futuro pavihão do Brasil na Feira Universal de Xangai, 2010)

O Brasil vai se apresentar na maior feira universal de todos os tempos, Xangai 2010, adequando um pavilhão "vagabundo" e "pequeno", segundo o próprio arquiteto por trás do projeto, Fernando Brandão.
A representação nacional em Xangai terá uma bola de futebol e um Cristo Redentor como elementos mais visíveis e será instalada em um espaço alugado, construído por chineses.
Para arquitetos ouvidos pela Folha, o Brasil está desperdiçando uma oportunidade de promover o país e sua arquitetura na nova potência mundial.
A Expo Xangai 2010 é o maior evento organizado pela China desde a Olimpíada. Terá pavilhões de 191 países e um orçamento de US$ 4 bilhões.
Ao contrário de países como Reino Unido e Espanha, o Brasil não fez um concurso público para a escolha do pavilhão, o que, na opinião de arquitetos ouvidos pela reportagem, pareceu uma "ação entre amigos". Até os responsáveis pelo projeto admitem que tudo foi feito às pressas, que houve só 15 dias para a elaboração de ideias e que não dá para comparar a antigas representações do Brasil.
No passado, pavilhões brasileiros em feiras universais foram marcos arquitetônicos, como em Nova York, em 1939, com projeto de Oscar Niemeyer e Lucio Costa, ou em Osaka, em 1970, com Paulo Mendes da Rocha. Desde 1992, o Brasil ocupa espaços alugados.
O governo brasileiro pediu a uma associação de arquitetos, a Asbea, que se encarregasse do pavilhão. A Asbea diz que organizou concurso entre seus sócios, mas só dez deles elaboraram ideias para o pavilhão e só três chegaram a apresentar um projeto final para o espaço.
"Nem fiquei sabendo", diz Ruy Ohtake, sócio da Asbea. "Poderia haver um concurso mais transparente, entre jovens arquitetos brasileiros."
O autor do pavilhão vencedor, Fernando Brandão, que está na diretoria da Asbea desde maio, acusa a falta de tempo para a qualidade do projeto.
"É tudo na última hora, no jeitinho, somos um dos últimos países a apresentar projeto na Expo Xangai", diz Brandão. "Esse pavilhão não pode ser comparado aos históricos pavilhões brasileiros, que foram construídos do zero. Esse é um galpão alugado, bem vagabundo, todo pronto, a gente só fez a instalação do conteúdo."
No governo, a explicação para a modéstia na representação é logística e financeira. "A primeira ideia foi a de construir um pavilhão, mas o fato de que os pavilhões vão ficar para os chineses envolveu a Casa Civil e o Ministério do Desenvolvimento", diz Ricardo Schafer, comissário do projeto na Apex, agência de promoção do Ministério do Desenvolvimento responsável pela Expo. "Preferimos alugar um pavilhão a construir, pelo custo-benefício."
A adequação e manutenção do pavilhão brasileiro custará R$ 23 milhões, que chegará a R$ 70 milhões com outros gastos do projeto. Pouco menos do que os cerca de R$ 79 milhões do pavilhão do Canadá, um dos maiores na Expo, concebido pelo Cirque du Soleil.
"Em Xangai faremos uma adaptação do pavilhão, uma arquitetura de interiores, com a aplicação de uma fachada", diz o presidente da Asbea, Ronaldo Rezende. "Decidimos fazer um concurso com os escritórios que estavam cadastrados no projeto de exportação da Apex, dentro do nosso quadro social."

Desperdício
Para vários arquitetos, o pavilhão desperdiça o momento em que a China atrai a atenção do mundo. "O concurso deveria ser público ou no mínimo com escritórios de notória competência, não só associados da Asbea", critica o arquiteto Milton Braga, do escritório MMBB. "A tradição brasileira é apresentar pavilhões de ótima arquitetura, é um tema caro ao meio."
"Um país como o Brasil não pode se dar o direto de desprezar momentos como esse. Tínhamos a obrigação de organizar um concurso nacional para levar à China o melhor da arquitetura brasileira contemporânea", diz a arquiteta Fernanda Barbara, do escritório UNA.
Paulo Mendes da Rocha, que chegou a ser consultado pelo governo no ano passado para apresentar um projeto -e que depois soube do concurso da Asbea-, diz que a discussão em torno do pavilhão parece "mais comercial do que cultural".
O tema da exposição é "Cidade Melhor, Vida Melhor", com 150 experiências inovadoras em habitação, trânsito, meio ambiente, novas energias e espaço público de todo o mundo, escolhidas pelos chineses.
Xangai aproveita a feira universal para virar uma cidade melhor. Mais de 120 km de novas linhas de metrô serão inauguradas até 1º de maio de 2010, quando a Expo é aberta. A feira ficará em cartaz por seis meses num terreno de 5,5 km2, ou 3,5 vezes o parque Ibirapuera.

(a reportagem acima foi realizada a quatro mãos com o bravo repórter Silas Martí, da Ilustrada)

Abaixo, pavilhões de outros países:

Chile, por Sabbagh Arquitectos

Espanha, pela arquiteta Benedetta Tagliabue, do escritório Miralles/Tagliabue

Suíça, por Buchner, Brundler arquitetos

 

Escrito por Raul Juste Lores às 06h56

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A TV a cabo pirata

Quer ver todos os episódios de "Lost" de graça e sem interrupções? Ou de "Prison Break" e "Heroes"? O Youku (www.youku.com) faz o serviço. O site chinês, cópia do YouTube, virou o pesadelo de qualquer TV paga ao colocar na rede filmes e seriados na íntegra.
Até séries que não fazem sucesso na China, como "True Blood" e "Mad Men", estão lá.
Essa videolocadora grátis do século 21 só é possível graças à inexistência de leis de propriedade intelectual na China (as poucas que existem também não são lá muito fiscalizadas pelo governo).
Os usuários põem no ar os episódios -tanto gravados da própria TV americana como copiados de DVDs piratas encontrados em qualquer lojinha na China- enquanto grupos de jovens chineses se encarregam de legendá-los. Para quem domina o inglês, é um programão.
Apesar da poluição visual típica dos sites chineses, é só digitar o nome da série no espaço de busca, em inglês mesmo, sem necessidade de usar ideogramas. Usuários nos EUA, Europa e até no Brasil já descobriram o conteúdo livre.
Criado em 2006, o Youku se tornou um dos dez sites mais acessados da China, seguindo o mesmo modelo do americano YouTube (a empresa nega a cópia do nome, alegando que os ideogramas chineses que compõe "Youku" significam "bom" e "legal"). Rapidamente, começou a fazer o que o original é impedido por lei.

Autocensura
A ascensão do Youku tem relação direta com o bloqueio do YouTube na China. O site americano foi proibido na China no ano passado, quando foram postados vídeos em que monges tibetanos são surrados pela polícia chinesa em Lhasa.
O governo chinês bloqueava o YouTube sempre que vídeos com violência policial ou denúncias de desrespeito aos direitos humanos entravam no ar. No final do ano passado, bloqueou-o permanentemente.
Já o Youku, como todos os grandes sites chineses, tem sua autocensura. Mais de cem pessoas se encarregam de checar e deletar vídeos que contenham temas sensíveis ao governo.
Na gíria chinesa, o Youku é um site "harmonizado". O lema do Partido Comunista é criar uma "sociedade harmoniosa" e a censura à internet representa essa harmonia à força.
Outro comportamento diferente do Youku é quanto ao conteúdo local. O site não utiliza a programação da TV estatal chinesa sem autorização.
"Assinamos acordos com as TVs do governo e pagamos pelos direitos", explica o gerente de relações internacionais do Youku, Steven Lin.

Pirataria envergonhada
Quando a Folha pergunta sobre o sucesso dos seriados americanos colocados na íntegra no site, o gerente de relações internacionais diz que "só uma minoria assiste a eles".
"Por que as empresas chinesas pagam por anúncios de dez segundos antes de cada episódio americano, o que não acontece com as novelas chinesas?", pergunto.
O relações públicas perde a diplomacia. "Se for para escrever sobre Youku e pirataria, a entrevista está encerrada", responde, aos gritos. "Dou entrevistas à CNN e à Fox sobre internet livre. Se for para nos acusar de pirataria, não." No mesmo dia, 2,5 milhões de chineses assistiram, de graça, a episódios da terceira temporada de "Prison Break".

RESTRIÇÕES CHINESAS SÃO PUNIDAS

Na semana passada, a Organização Mundial do Comércio puniu a China por ser protecionista em relação à circulação de bens culturais, como filmes e livros. A lei só permite a estreia de 20 filmes estrangeiros por ano e dificulta a importação desses produtos, o que abre terreno para a pirataria made in China.

Escrito por Raul Juste Lores às 05h49

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Beleza arquitetônica levita em Madri

 

 

Este centro cultural em Madrid é uma antiga central elétrica de 1899, reinventado pela dupla de arquitetos suíços Jacques Herzog e Pierre de Meuron (que farão o Teatro da Dança em SP, autores do Estádio Olímpico de Pequim e da Tate Modern em Londres).

Eles arrancaram a base do prédio, que parece levitar, e criaram uma nova cobertura, que permite a entrada de luz por poros perfurados na parede de metal. Uma velha estação de gás foi demolida para criar essa praça diante do edifício, sob um incrível jardim vertical que escala um prédio vizinho, desenhado pelo artista botânico francês Patrick Blanc.

Fica em frente ao Museu do Prado, para mim a maior pinacoteca do mundo. Bela vizinhança, que desfrutei no mês passado, de férias. É bom compartilhar beleza com os leitores do blog, nesta licença da China.

A obra toda custou 60 milhões de euros (R$ 157 milhões). Sim, é caro, mas é menos do que custaram os túneis eficientíssimos da Faria Lima e metade do que custará a planejada nova ponte no Rio Pinheiros. Marta e Kassab acham que sabem como solucionar o trânsito _ e para isso sempre há dinheiro.

Mas será que a legislação brasileira permitiria tais estripulias arquitetônicas, de espaço, com o "patrimônio"? Para se pensar.

 

Escrito por Raul Juste Lores às 05h50

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Internet prejudicada

O tufão que atingiu Taiwan na semana passada e um maremoto ao redor daquela ilha são responsáveis pela internet chinesa estar ainda mais lenta do que o normal. Segundo o governo, um cabo transoceânico foi afetado, o reparo demora (desde semana passada), etc., etc. Está impossível colocar fotos, vídeos ou textos mais longos aqui, nos poucos minutos que a internet funciona. Espero voltar ao normal logo. Como vivíamos antes, sem internet?

Escrito por Raul Juste Lores às 14h21

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Praia em Pequim

O vídeo abaixo da Efe mostra a praia artificial criada no parque de Chaoyang, aqui perto de casa. As temperaturas em Pequim têm ultrapassado os 37ºC nos últimos dias, mas parece ainda mais quente. Como cantava a Kátia, não está sendo fácil. 

Escrito por Raul Juste Lores às 22h51

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São Paulo limpa, mas ainda feia

Escrevi a coluna abaixo, publicada hoje na página2 do caderno Dinheiro, da Folha, quando passava férias em São Paulo. Como adoro a cidade, mas seus progressos andam a velocidade de bonde, quis dar palpite na continuação do Cidade Limpa. A seguir.

RAUL JUSTE LORES

Não basta apenas uma cidade limpa

Com a permissão de publicidade, empresas poderiam recuperar fachadas de edifícios emblemáticos

A PREFEITURA de São Paulo está desperdiçando uma oportunidade para aprofundar os efeitos de seu bem-sucedido "Cidade Limpa". Ao anunciar a permissão de publicidade em mais de 9.000 pontos de ônibus e relógios, o governo vende muito barato um espaço raro e cobiçado após a proibição dos outdoors. Barcelona, que retirou milhares de outdoors nos anos 80, conseguiu restaurar mais de 600 fachadas de prédios históricos com uma política mais esperta.
Lá a ideia é simples: quem patrocina um restauro ganha o direito de estampar o seu logotipo na lona de proteção da obra por um ano. Uma comissão seleciona os edifícios a serem recuperados -de igrejas centenárias a obras de Gaudí, de prédios dos anos 30 e 40 a construções renascentistas. O primeiro beneficiado foi um hospital da "belle époque" e sua restauração foi patrocinada pela Chandon. Além de colocar sua marca na obra, a empresa francesa ainda mereceu cerimônia de agradecimento em frente ao prédio histórico com a presença do prefeito barcelonês.
São Paulo poderia adaptar a ideia. Com a permissão de publicidade, grandes empresas poderiam recuperar as fachadas de edifícios emblemáticos, como Copan, Martinelli, Sampaio Moreira, Eiffel, Esther, Triângulo, Anchieta e Trussardi, que imploram por um "lifting".
Sem ter muitos espaços onde anunciar, esse visível e positivo merchandising ainda associa a marca das empresas à recuperação de ícones paulistanos. Trinta prédios importantes do Centro que fossem recuperados simultaneamente poderiam causar uma transformação que dezenas de projetos de revitalização na área ainda não conseguiram. Ao longo dos anos, Barcelona aperfeiçoou sua política. Como nem todos os edifícios históricos ou arquitetonicamente relevantes estão em lugares muito visíveis, a prefeitura catalã fez uma troca. Hoje se permitem lonas publicitárias durante a construção de alguns prédios novos em locais de grande movimento -mas os recursos apadrinham o restauro de prédios históricos em outros cantos. A publicidade em condomínios em construção no Morumbi ou na marginal Pinheiros poderia financiar a recuperação da Vila Itororó, de casarões do Bixiga, da Barra Funda, dos Campos Elíseos.

Ainda feia
Nada contra pontos de ônibus, relógios e demais mobiliário urbano. Mas seria bem mais benéfico que o retorno da publicidade ao espaço público de São Paulo continuasse casado com a reabilitação da paisagem. Retirar os outdoors de forma corajosa e sem concessões demonstrou ao paulistano que algumas iniciativas que não demandam bilhões de reais podem ter efeito imediato na percepção que temos da cidade. Mas, com a saída dos luminosos e dos outdoors, São Paulo deixou à mostra fachadas carcomidas, um emaranhado de fios e de velhos aparelhos de ar-condicionado em primeiro plano, a arquitetura canhestra de décadas de ausência de debate arquitetônico e de cuidados com a pele da cidade. São Paulo ficou mais limpa, mas isso não bastou para lhe dar beleza. Sua feiura afugenta não apenas turistas, mas potenciais investidores. Em tempos nos quais o mercado imobiliário continua a despejar monstrengos arquitetônicos por toda a cidade, com o beneplácito do poder público, e quando as poucas árvores das marginais vão ao chão para criar mais pistas para carros, seria bom ver que o governo municipal não se satisfaz apenas com uma cidade limpa.

Barcelona e Pequim deram um jeito no visual desarrumado para suas respectivas Olimpíadas e não param de faturar com mais turistas, congressos e gente talentosa que quer morar em uma cidade caprichada. O que São Paulo fará para melhorar até a Copa de 2014?

*******

Para saber mais sobre a campanha "Barcelona, posa'te guapa" (a Cidade Limpa deles), clique em

http://www.bcn.cat/paisatgeurba/

veja os links atuações e campanhas.

Para ver como artistas recuperaram paredes cegas em vários edifícios de Barcelona, clique em

http://www.cite-creation.com/realisations.php

Escrito por Raul Juste Lores às 11h30

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Humor chinês no Letterman

Joe Wong é provavelmente o primeiro humorista nascido na China a fazer sucesso na TV americana. Sua participação no programa do David Letterman brinca com sua situação de imigrante. Ele também esteve na Ellen. É bem melhor do que se vê de humor na estatal chinesa CCTV.

Escrito por Raul Juste Lores às 00h00

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Carros made in China

(As fotos mostram os carros piratas _ as cópias chinesas do Mini Cooper, do Rolls Royce Phantom e o Riich)

A Ford quer vender a Volvo para a montadora chinesa Geely e a GM quer passar a marca Saturno para a SAIC e a Saab para a Chery.

A Renault assinou parceria com a Great Wall para produzir carros na Venezuela e a Chery deve abrir uma fábrica no Brasil até 2011. Os primeiros carros da Chery começam a ser vendidos este mês no país.

Nunca ouviu falar de Geely, Chery, nem da Great Wall? As desconhecidas marcas chinesas se tornaram a salvação de muitas montadoras em crise por ter suficiente dinheiro em caixa e potencial de crescimento únicos no mundo.

A Chrysler quer vender a Jeep para Geely e Warren Buffet, o homem mais rico do mundo, virou sócio da montadora BYD.

Em 2009, deverão ser vendidos 11 milhões de veículos na China, contra 9 milhões nos Estados Unidos.

Apenas em junho, o crescimento foi de 36% (no segmento de carros de passageiros, foi de 48% a mais que em junho de 2008).

E não deve parar de crescer _ as projeções do mercado falam em 18 milhões em 2015 e 32 milhões por ano em 2025.

O potencial é enorme. Pequim e Xangai juntas, totalizando 32 milhões de habitantes, têm 4,5 milhões de carros, menos que os 6 milhões de São Paulo. Há 9 veículos por 1000 habitantes, enquanto a média mundial é de 38 por 1000.

A China passou da bicicleta para o carro a partir de 2000, quando a venda de carros de passeio foram estimuladas pelo governo. De 2000 a 2007, o crescimento foi de 20% ao ano.

Há 150 montadoras no país, mas só 20 delas têm 95% do mercado. O governo chinês considera a indústria estratégica e quer, no futuro próximo, ter pelo menos 10 grandes marcas com competitividade global.

Boa parte delas é estatal e tem privilégios na obtenção de empréstimos dos grandes bancos também estatais chineses. Toda montadora estrangeira é obrigada a se associar a uma local para se instalar no país.

Essas joint ventures muitas vezes acabam com acusações de espionagem e roubo de tecnologia e design pelas empresas chinesas. GM e Chery chegaram aos tribunais, mas a Justiça chinesa não aceitou a causa da GM.

A luta pela sobrevivência será grande. A China não tem uma Detroit, mas diversos pólos industriais espalhados com o objetivo de desenvolvimento regional e diminuir as migrações internas. Os principais pólos são na região metropolitana das cidades de Xangai, Shenzhen, Changchun e Chongqing.

Para estar à altura de suas ambições globais e competir com Detroit, Seul e Tóquio, a indústria automobilística chinesa ainda terá que crescer em inovação (boa parte de seus modelos são cópias de sucessos internacionais, pirataria de quatro rodas), em segurança (o atual padrão faz que carros chineses não possam ser exportados para Europa ou EUA) e tecnologia.

Pequenos e elétricos

A indústria automobilística foi das mais beneficiadas pelo pacote de estímulo lançado no ano passado pelo governo chinês e dá pistas de que tipo de carro será estimulado.

Até 2011, há um orçamento de quase US$ 10 bilhões para que o governo chinês, da nação às prefeituras, renove sua frota. A prioridade é para as marcas nacionais e carros que usem energias alternativas _ com exceção do Audi A6 ou do Buick, os preferidos dos manda-chuvas do partido, que desfilam com eles por todos os lados, sem temer multas.

O impostos de compra foi reduzido de 10 a 5% para carros abaixo de 1,6 litro; há US$ 700 milhões em subsídios para agricultores comprarem tratores e minivans; US$ 220 milhões para pesquisa tecnológica em energias alternativas.

O governo planeja que em 2011 mais de 500 mil unidades de carros elétricos, plug-in, híbridos e outros de novas energias sejam vendidos, ou 5% de todos os veículos de passageiros.

Tanto os carros menores, quanto o apoio às novas energias têm o mesmo objetivo: diminuir a crescente dependência chinesa da importação de petróleo.

Apesar de ser o quinto maior produtor do mundo, a China passará de importar 5 milhões de litros de petróleo para 11 milhões em 2015, segundo cálculo da Agência de Energia Internacional.

Carros pirateados

A montadora chinesa Lifan acaba de lançar um modelo que tem o desenho do Mini Cooper, as cores do Mini Cooper e quase o mesmo logotipo, mas custa metade que o original.
A pirataria automobilística é quase tão comum quanto a de DVDs, roupas e bolsas na China. E a Justiça chinesa sempre encontra um detalhe para dizer que não houve plágio e para confirmar que propriedade intelectual não existe no país.
A Geely criou um modelo baseado no Rolls-Royce Phantom, e a Chery criou uma submarca de luxo chamada RIICH (rico em inglês, mas com dois "i"), com um logotipo igualzinho ao da Bentley.
Em 2004, a GM entrou com um processo contra sua então sócia, a Chery, por plagiar modelos da sul-coreana Daewoo, que pertencia à empresa americana. A Justiça chinesa não viu plágio, e a GM acabou retirando a acusação para manter as boas relações com o governo do país.
Para diversos consultores ouvidos pela Folha, a ausência de propriedade intelectual, inovação e padrões de segurança é o grande obstáculo para as ambições globais da indústria automobilística do país.
"Para os consumidores de maior poder aquisitivo na China, comprar carro de marca do país ainda está fora de cogitação", disse à Folha Tian Yongqiu, diretor da consultoria China Automotive Review.
No mercado doméstico chinês, as seis marcas mais vendidas são estrangeiras (Volks, Hyundai, GM, Toyota, Honda e Nissan).
Apenas um terço das vendas são de marcas locais, como Chery, Geely e BYD.
Fotos que não param de circular pelos sites chineses mostram carros das montadoras locais sendo esmagados como uma latinha de refrigerante por dois ônibus. Vídeos com testes dos carros locais mostram performances abaixo da crítica em colisões.

América Latina
Por conta das maiores emissões de gases e padrões de segurança mais relaxados, as marcas chinesas não conseguem exportar um único modelo para EUA ou Europa.
Mas a China já exportou 200 mil veículos em 2008. Carros chineses já são líderes em mercados como Ucrânia, Síria, Rússia e no Sudeste Asiático e estão em crescimento na América Latina.

Escrito por Raul Juste Lores às 01h01

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PERFIL

Raul Juste Lores Raul Juste Lores, 33, correspondente da Folha em Pequim. Foi correspondente em Buenos Aires e editor de Internacional da Revista Veja e apresentador e editor-chefe do Jornal da Cultura, na TV Cultura.

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