Raul na China
raulnachina
 

Postais de Teerã (agora no Twitter)

 

O Museu de Arte Contemporânea de Teerã, do qual escrevi no meu último texto em Teerã:

 

acima a feminista Asieh Amini, com o marido; a entrevista dela você pode ler aqui: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft1406200904.htm

O aiatolá Seyyed-Abbas Alamolhoda, que entrevistei no Centro Científico-Religioso de Chizar (abaixo)

 

A pedidos, coloco algumas fotos que tirei em Teerã, durante as eleições, os protestos e minha despedida forçada. São amadoras, claro, mas é só para dar o clima na cidade. Agora, as ruas de Teerã andam quase vazias de protestos _ há o triplo de policiais e paramilitares do que os bravos manifestantes que ainda ousam sair à rua. Tenho uma amiga que ficou detida por algumas horas _ franzina, 23 anos _, só porque tinha uma pulseira verde, a cor da oposição. Os manifestantes pretendem soltar um milhão de balões nos céus de Teerã, em homenagem a Neda, a jovem assassinada pelos milicianos basijis. Mas sinto que será difícil democratizar o país se a oposição só consegue se manifestar nos céus.

Agora estou no twitter. Quem quiser me "seguir" por lá, é só me adicionar: rauljustelores.

Escrito por Raul Juste Lores às 02h19

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Irã em quadrinhos

Como filme bom tem geralmente distribuição limitada, vale sugerir enfaticamente "Persepolis", a autobiografia em quadrinhos da desenhista iraniana Marjane Satrapi. O filme passou rapidamente pelo Brasil nos cinemas, mas deve ter em dvd, na internet ou em algum outro lugar, torço. "Persepolis" consegue condensar a história recente do Irã desde a véspera da queda do Xá até os anos 90, com a supressão das liberdades pelos aiatolás. É o filme da hora, apesar de ter uns dois anos.

Escrito por Raul Juste Lores às 15h01

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Em defesa da Islândia

 Falou-se muito da "falencia" da Islândia por conta da quebradeira de seus bancos. Por conta do stress que passei no Irã, do cenário pouco otimista por lá, do cansaço, estou bem escapista nesta semana e quero compartilhar esse estado de espírito.

Esses vídeos são dedicados a quem também quer um respiro no meio de tantas notícias ruins e para quem ainda aprecia as coisas belas. Os dois clipes são do grupo islandês Sigur Ros, o primeiro em um parque perto de Reykjavik, a capital da Islândia. Queria estar falido assim. 

(apesar do youtube continuar bloqueado na China, a gente sempre dá um jeito... dica do amigo Estraviz)

Escrito por Raul Juste Lores às 02h27

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Despedida forçada do Irã

Uma triste atualização para o texto abaixo. Há pelo menos quatro mortos na manifestação de hoje, sábado, contra o resultado das eleições e a violenta repressão no Irã. O aiatolá Khamenei ordenou ontem que todo mundo voltasse para casa (estranho... a recontagem de votos não levaria 10 dias? Não dá para esperar o próprio teatro criado pelo regime?). Mas o povo continua na rua.

RAUL JUSTE LORES
ENVIADO ESPECIAL A TEERÃ

A Primavera de Teerã está nas ruas, mas não posso usar nem celular nem internet em minhas últimas oito horas na cidade. Está tudo bloqueado.
Pensei que fosse problema no hotel, então fui à casa de um amigo em outro bairro. E depois à de outro. Ambos desconectados.
Em teoria, não posso nem circular. O governo cancelou a credencial dos jornalistas estrangeiros, e sou aconselhado a deixar o país o quanto antes.
O trânsito é mínimo. Por medo de mais distúrbios e das milícias pró-Ahmadinejad que circulam armadas em motos pela cidade, várias lojas e empresas fecharam às 16h.
Há viaturas da polícia diante do hotel, um dos poucos cinco estrelas da cidade, todos abertos antes da revolução de 1979. Como cartões de crédito internacionais não são aceitos no Irã, preciso pagar tudo em dólar.
O moço que carrega minha mala sussurra: "Isto é o início de um golpe de Estado, tem militar por todo lado, querem vocês jornalistas fora daqui".
Na recepção, outro funcionário emenda: "Quando não tiver mais ninguém de fora para ver, o que será de nós?".
Antes de partir, aproveito para visitar o Museu de Arte Contemporânea de Teerã, que fica ao lado do meu hotel.
Sou o único visitante. É talvez uma das melhores coleções de arte do Oriente Médio, com obras de Picasso, Van Gogh, Gauguin, Magritte e vários artistas influentes nos anos 70, como LeWitt e Warhol.
As 400 obras foram escolhidas pela então imperatriz Farah Diba. Ela foi deposta em 1979 junto com seu marido, o xá Reza Pahlevi e vive no exílio em Paris.
De 1979 até hoje, o museu só adquiriu mais cinco obras de estrangeiros. Na gestão Ahmadinejad, o orçamento foi reduzido -ele transformou várias galerias de arte em locais de oração.
No acervo, há dois quadros pintados por Mir Hossein Mousavi, o atual líder da oposição. Mas eles não estão em exibição.
Como o Irã não é a Arábia Saudita, há bienais de arte, de cartuns, de escultura. As funcionárias, todas cobertas de xador preto, obrigatório no funcionalismo público, explicam que, em dias normais, o museu recebe até 2.000 pessoas.
Mas contam que diversos quadros com nudez, obras de Francis Bacon a David Hockney, encontram-se esquecidos em um depósito, censurados pelo regime.
"É uma pena, afinal arte não deveria estar escondida", dizem as jovens, meio encabuladas.
Em 1979, quando os aiatolás chegaram ao poder, o Irã tinha 36 milhões de habitantes, e 53% da população vivia na zona rural. Hoje são 66 milhões, 70% vivem em cidades.
Muita coisa mudou. Amigos ligam ao telefone do hotel para se despedir. Contam que continuarão a me enviar vídeos e fotos das manifestações e da repressão "para que a Primavera de Teerã não seja esquecida".
Chego a Dubai. Leio que o governo iraniano reduziu a banda larga para impedir que essas imagens circulem no exterior. O povo continua na rua. O que será deles?

Fotos que tirei dos protestos de sábado, domingo e segunda

Escrito por Raul Juste Lores às 16h46

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Batalha de aiatolás

A batalha entre o aiatolá ultraconservador e líder supremo do Irã, Ali Khamenei, e o reformista aiatolá Akbar Hashemi Rafsanjani é que deve decidir o futuro da República Islâmica, segundo vários analistas ouvidos pela Folha.
Rafsanjani se encontra em Qom, o chamado "Vaticano dos xiitas", tentando medir se tem votos suficientes entre 86 clérigos da Assembleia dos Especialistas para literalmente derrubar Khamenei, algo que esse conselho tem direito a fazer.
Nas últimas três décadas, aiatolás conservadores e reformistas disputaram o poder, mas com limites: respeitar o líder supremo e manter a República Islâmica.
Com a vitória de Mahmoud Ahmadinejad, apoiada e, para muitos, arranjada por Khamenei, os reformistas sentiram a rasteira e já orquestram um contragolpe. Essa disputa de bastidores pode definir se o regime se fechará ainda mais ou se poderá fazer alguma abertura, interna e externa.
A recontagem dos votos anunciada ontem não deve mudar muita coisa - seria uma estratégia para se ganhar tempo até cansar a oposição; e os opositores ainda não têm como enfrentar militares, paramilitares e milícias altamente organizadas e com bons negócios no governo.
A crescente militarização do Irã tem a ver com a geração representada por Ahmadinejad, posterior a dos aiatolás, e que viveu a guerra contra o Iraque.
Ele é o primeiro presidente do país que não pertence ao clero em mais de 20 anos. Em sua biografia, ele foi militante dos Vigilantes da Revolução e da Guarda Revolucionária.
Ao contrário dos antecessores Rafsanjani e Mohammad Khatami, Ahmadinejad oferece lealdade total a Khamenei.
Para observadores, se a dupla Khamenei-Ahmadinejad vencer a disputa, o país pode caminhar para uma ditadura mais tradicional, com mais retórica e atos contra o Ocidente, fortalecimento do programa nuclear e repressão nos costumes domésticos, como já demonstrado no primeiro mandato de Ahmadinejad.
Se Rafsanjani, Khatami e Mousavi se impuserem, a mudança é menos previsível. Apesar do discurso reformista, de aproximação do Ocidente e liberalização dos costumes, os três também pertencem à elite do sistema teocrático.
Para ser candidato à Presidência do país, é necessária a aprovação do Conselho de Guardiães. Neste ano, de 470 inscritos, só 4 foram aprovados. Mousavi foi um deles.
O pintor e arquiteto representava a ala dos intelectuais de esquerda que se uniram aos aiatolás e a sindicatos para derrubar o regime autoritário e corrupto do xá Reza Pahlevi em 1979. Pouco depois, uma onda de expurgos fez com que civis fossem colocados de lado, presos ou exilados. Mousavi virou primeiro-ministro.
Em seu governo, entre 1981 e 1988, apoiou e implementou medidas como a proibição das calças jeans e das gravatas aos homens e a obrigação de véus e chadores às mulheres.
Desde 1989, saiu da vida pública e é uma incógnita quanto suas ideias mudaram nesse tempo, ainda que na campanha, ao deixar sua mulher virar protagonista, tenha mandado mensagem de mudança à mulheres e aos jovens urbanos.
O que se ouve nas ruas de Teerã é que a disputa entre essa elite do sistema está pondo em risco o próprio regime dos aiatolás. Ontem os gritos de "morte ao ditador", que iranianos comuns berram em suas janelas à noite desde o início dos protestos, se transformaram em "morte ao aiatolá".

Escrito por Raul Juste Lores às 16h36

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Gritos na noite de Teerã

Às 22h, ruas, avenidas e praças estão vazias, Teerã parece sob toque de recolher. Mas o silêncio é interrompido por gente nas janelas de diversos bairros da cidade, gritando "Deus é grande".
"Allah o Akbar", no original, é usado como "Deus nos proteja" e foi um dos gritos de guerra na revolução que derrubou o xá do Irã em 1979.
A manifestação de dentro de casa aconteceu horas depois da marcha silenciosa da oposição.
"Deus é grande" e "Morte ao ditador" eram muito usados no início da Revolução", disse à Folha a professora de matemática Vida Ladan, 52, durante a passeata. "Esta é a primeira vez em 30 anos que as massas protestam nas ruas e usam os mesmos slogans. Pode ser que não dê em nada, mas é meu dever de patriota."
O evento não lembrou o clima festivo da campanha. O clima era de tensão no ar, apesar da presença policial ser bastante discreta. Durante todo o dia, circularam boatos de que a polícia abriria fogo.
"Achava que iria apanhar de novo", diz o universitário Farhad, 25, mostrando o braço enfaixado, depois de apanhar de milicianos na noite de sábado. "Mas isso é o que o governo quer, que tenhamos medo e fiquemos em casa."

Contrastes
A manifestação dos partidários do opositor Mir Hossein Mousavi escancarou as diferenças entre os dois grupos enfrentados na política iraniana.
O protesto da oposição não foi autorizado pelo Ministério do Interior, e o improviso foi geral. O candidato apareceu em cima de uma camionete branca e usou um modesto alto-falante. Seu rápido discurso foi ouvido por pouquíssimas pessoas.
As mulheres eram quase metade dos presentes, na maioria jovens. Todas de véu, usavam maquiagem e deixavam parte do cabelo aparecer.
Na comemoração pela vitória de Ahmadinejad, no domingo à noite, o presidente falou de um grande palco, com bom sistema de som e avenidas fechadas e monitoradas pela polícia.
Dezenas de ônibus estacionados perto da praça haviam trazido manifestantes, que recebiam comida da organização.
Pelo menos três quartos eram homens. As poucas mulheres usavam o chador preto, cobrindo-se dos pés à cabeça.
"Enquanto, no Ocidente, vota ladrão, vota gay, vota gente suja, aqui vota gente limpa, honrada", disse Ahmadinejad, no discurso de quase uma hora.
Mas, na passeata da oposição, também havia religiosos conservadores. Vestida de longo chador negro, a dona de casa Fatimi, 47, mãe de quatro filhos, desmente à Folha que as massas populares estejam totalmente com Ahmadinejad.
"Pago o dobro pela carne este ano que há dois anos, pago quase o triplo pelo tomate, nós continuamos pobres", reclamou. "Religião não tem a ver com política."
A escolha do local da manifestação também mostrou as diferentes ambições de demarcar território. Ahmadinejad fez sua comemoração na praça Liderança, reduto da classe média local. Já Mousavi escolheu como parada final de sua marcha silenciosa a praça Liberdade, a maior da cidade, onde normalmente Ahmadinejad fazia seus grandes comícios.

Escrito por Raul Juste Lores às 16h32

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Oposição reage e aiatolá cede

AP

Paramilitares iranianos mataram ontem uma pessoa e deixaram vários feridos graves ao final da maior manifestação até aqui da oposição contra o resultado da eleição presidencial de sexta-feira.
O candidato oposicionista Mir Hossein Mousavi pediu durante o protesto que seja feita uma nova eleição, em vez da recontagem simples dos votos. A oposição diz que a reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad, com 62,7% dos votos, foi fraudulenta.
A violência aconteceu ao final de uma marcha até então calma e silenciosa que lotou os cinco quilômetros que ligam as praças da Revolução e da Liberdade, em Teerã -no que foi considerada a maior manifestação contra o governo em 30 anos do regime dos aiatolás, reunindo centenas de milhares de pessoas.
Horas antes, o aiatolá Ali Khamenei, líder supremo político e religioso do país, voltou atrás e ordenou uma investigação para apurar as denúncias de fraude. No sábado, Khamenei disse que a eleição foi limpa e pediu que todos apoiassem o presidente reeleito.
Os reformistas aliados a Mousavi veem com desconfiança o fato de o governo ter divulgado a vitória de Ahmadinejad apenas duas horas depois do fechamento das urnas -um processo que costuma levar de dois a três dias no país.
A partir da vitória, houve um blecaute informativo. Mensagens de texto por celulares foram bloqueadas, assim como diversos sites da internet. Universidades e escolas foram fechadas.
Khamenei pediu que Mousavi usasse apenas "vias legais" para protestar contra o resultado. A manifestação de ontem foi proibida pelo Ministério do Interior, mas a presença policial foi discreta, e os incidentes só ocorreram no final da noite.
Pelo menos 200 oposicionistas foram presos na noite de sábado, mas alguns deles, como o irmão do ex-presidente Mohammad Khatami, foram soltos ontem.

AP

Violência na universidade
Na noite anterior, 200 milicianos islâmicos invadiram a Universidade de Teerã, onde 2.000 estudantes se manifestavam e agrediram os estudantes. Houve invasão no dormitório do campus, à 1h30 da manhã, quando universitários foram agredidos a porretes pelos milicianos.
Na manhã de ontem, a mulher de Mousavi, Zahra Rahnavard, que participou ativamente da campanha do marido, esteve na mesma universidade.
Foi a primeira aparição dela desde sexta-feira. Em um discurso para centenas de estudantes, ela pediu que os estudantes "continuassem nas ruas, protestando pacificamente, silenciosamente, pelas mudanças".
No domingo, Mousavi pediu formalmente a anulação do pleito ao Conselho de Guardiães, principal instância jurídica do país.
O aiatolá Khamenei assegurou ao opositor que o conselho examinará "cuidadosamente" a queixa sobre fraude.
Metade do Conselho de Guardiães, integrado por seis clérigos e seis civis, é, no entanto, nomeada diretamente por Khamenei, o que provoca o ceticismo da oposição. Mousavi se declarou ontem pouco esperançoso de que a investigação resulte em anulação da eleição.
O chefe do Conselho de Guardiães, o aiatolá Ahmad Jannati, declarou que logo haverá um pronunciamento sobre o pedido de Mousavi.
"Espero que, primeiro, Deus, depois o nosso líder supremo [o aiatolá Khamenei], e depois o povo fiquem satisfeitos", disse Jannati na TV estatal.
O governo iraniano advertiu ontem a todos os jornalistas enviados pela imprensa internacional para cobrir as eleições que não serão renovados os vistos. Até domingo, havia 650 jornalistas estrangeiros em Teerã, mas acredita-se que quase a totalidade deles tenha que deixar o país no próximo fim de semana.

Escrito por Raul Juste Lores às 11h56

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Dúvidas sobre a vitória de Ahmadinejad

As suspeitas sobre a vitória de Ahmadinejad

Apenas duas horas após o fechamento das urnas, a agência estatal de notícias divulgou a vitória de Ahmadinejad, antes mesmo do Conselho Eleitoral. São 40 milhões de votos em cédulas de papel escritas a mão. Normalmente, o processo leva de 2 a 3 dias.

Blecaute informativo, com bloqueio de internet, mensagens de celular e telefonia em boa parte do país. Governo proíbe reuniões públicas e manda fechar universidades e escolas até segunda ordem.

Ahmadinejad foi eleito no segundo turno em 2005 com 14 milhões de votos. O comparecimento então foi de apenas 52%, com o boicote de boa parte da classe média pró-reformista.

Nesta eleição, com 84% de comparecimento e entusiasmo de seus opositores, Ahmadinejad teve 24,5 milhões de votos.

A crise econômica dura mais de um ano, com inflação de 23,6% e desemprego de 20%. O crescimento do PIB caiu mais da metade de 2007 a 2009, o que normalmente afeta o governo atual.

Poucas horas após a divulgação do resultado, líderes reformistas são presos e governo avisa que não renovará o visto de jornalistas estrangeiros.

Escrito por Raul Juste Lores às 05h16

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Blecaute informativo, mais repressão

Manifestaciones en Teherán

Disturbios en Irán


Centenas de protestos aconteceram ontem no Irã, após o Conselho Eleitoral divulgar a vitória do presidente Mahmoud Ahmadinejad, com 62,7% dos votos.
Ele derrotou o reformista moderado Mir Hossein Mousavi, que teve 33,7% dos votos. O opositor disse que houve "irregularidades em massa" e pediu a anulação das eleições.
Os comitês dos candidatos reformistas, Mousavi e Mehdi Karubi, amanheceram cercados por paramilitares. Em sua página na internet, Mousavi pediu calma aos partidários para evitar ainda mais violência.
Ahmadinejad disse, em comunicado televisivo, que o resultado "é uma grande vitória" e acusou a imprensa internacional estar "totalmente mobilizada contra o nosso povo".
O presidente, no cargo desde 2005, tem previsto para a manhã deste domingo um comício na praça Azadi ("liberdade") .
Nas últimas semanas, a grave crise econômica, racha inédito na liderança islâmica e bem-sucedida campanha entre jovens e mulheres tinham tirado o favoritismo de Ahmadinejad.
Várias medidas de segurança foram implementadas. Estão proibidos comícios e reuniões públicas até segunda ordem.
As universidades iranianas foram fechadas por ordem ministerial e provas marcadas no fim de semana, em temporada de exame, foram adiadas.
O serviço de mensagens enviadas por celulares foi suspenso anteontem e funcionou precariamente ao longo do sábado, assim como a telefonia celular.
Várias cidades ficaram sem internet. Sites da campanha de Mousavi, inclusive seu boletim de notícias, estavam bloqueados na manhã de ontem.
A TV estatal não para de exibir mensagens pedindo "calma e aceitação dos resultados", e são exibidas imagens de líderes reformistas pedindo "calma" -ainda que esses depoimentos tenham sido gravados na semana passada, em outro contexto.
O Ministério da Cultura anunciou ontem que não renovará os vistos de jornalistas estrangeiros no país, que são concedidos por períodos de até uma semana. Acredita-se que já na quarta-feira não haverá imprensa estrangeira em Teerã.

Repressão
Marchas espontâneas, reunindo de 50 a 10 mil pessoas, aconteceram pela capital ao longo do dia, cantando "Roubo, roubo, roubo" ou "Ditador, bye, bye, ditador, bye, bye". A maioria terminou com manifestantes ensanguentados ou detidos.
Militares, paramilitares e a temida milícia dos basijis, os "vigilantes da revolução", estavam espalhados pela cidade.
A avenida Fatemi, onde fica o Ministério do Interior, que divulgou os resultados, foi fechada por diversos quarteirões, tanto para carros como para pedestres. Estes apanhavam de cassetetes da polícia se tentassem atravessar a rua.
O repórter da Folha foi agredido a cassetetes por um policial, enquanto se protegia em uma marquise da multidão que corria -e se derrubava- fugindo da repressão na avenida Fatemi. Diversos fotógrafos ficaram sangrando -eram os maiores alvos da polícia. Houve protestos também em outras partes do país.

Incógnita
A grande interrogação é como se comportarão as dezenas de milhares de jovens que tomaram as ruas de Teerã nas últimas três semanas, fazendo festiva campanha para Mousavi -o clima de democracia e liberdade que marcou a campanha se dissipou rapidamente.
Na quarta-feira, o chefe político da Guarda Revolucionária disse que qualquer "revolução de veludo" seria reprimida exemplarmente -em referência à revolta popular e estudantil que derrubou o comunismo na antiga Tchecoslováquia.
Mousavi cancelou duas entrevistas coletivas e ainda continuava em reuniões fechadas no Ministério do Interior.
Seu comitê divulgou mensagem em que ele diz que não se "renderá a esta perigosa charada". "Os pilares da República Islâmica estão em risco por algumas autoridades que querem estabelecer uma tirania", disse.

Fotos: AFP

Escrito por Raul Juste Lores às 13h10

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Vitória, suspeita, repressão imediata

 

Acabo de ver um dos muitos protestos em Teerã contra o resultado um tanto suspeito das eleições. A polícia está batendo em todo mundo, até em quem está na calçada só assistindo. Universidades e escolas estão fechadas, são proibidas manifestações, parte da internet e do sistema de mensagens por celular está fora do ar. Ninguém pode discutir o resultado. E o Irã voltou a ser o de sempre.



O presidente do Irã, o ultraconservador Mahmoud Ahmadinejad, foi reeleito ontem no primeiro turno para mais quatro anos no cargo, segundo cifras oficiais de apuração.
Ahmadinejad teve 62,6% dos votos, o reformista Mir Hossein Mousavi, 32,7% dos votos.

Os dois candidatos declararam vitória ontem à noite, após a campanha mais acirrada na história do país. Na madrugada, assessores de Mousavi já afirmavam que o resultado era uma "fraude".
Horas antes do fechamento das urnas, Mousavi afirmou: "Baseado em contas preliminares, sou o vencedor". Seus assessores diziam que ele obtivera 65% dos votos. Mousavi ainda não havia se pronunciado após a confirmação da vitória de Ahmadinejad.
Tão logo a eleição acabou, a agência oficial de notícias iraniana, Irna, também declarou uma "ampla vitória" do atual presidente.

Com quatro candidatos na disputa, a corrida ficou polarizada entre Ahmadinejad e Mousavi, que entre 1980 e 1988 foi primeiro-ministro do país, cargo que não existe mais, e desde então estava afastado da política. Os dois outros postulantes obtinham, somados, menos de 3% dos votos, até o fechamento desta edição.
Ahmadinejad é mais popular entre camponeses, aposentados, funcionários públicos e militares, depois de manter programas assistenciais no interior, aumentar salários do funcionalismo e provocar os EUA e Israel com um controverso programa nuclear.
Mousavi era o preferido de mulheres, universitários, jovens urbanos, minorias étnicas e na classe média, prometendo menos restrições na vida cotidiana e melhores relações com o Ocidente.
Desde a criação da República Islâmica do Irã, em 1979, todos os presidentes conseguiram se reeleger para um segundo mandato. A reeleição de Ahmadinejad, no entanto, era incerta dados os efeitos devastadores da crise econômica sobre o país, com alta da inflação e do desemprego e queda no preço do petróleo, que move a economia iraniana.
Vários governos ocidentais, inclusive os EUA, torciam por uma vitória de Mousavi, que tem uma retórica mais conciliatória, embora a política externa do Irã e o futuro de seu programa nuclear sejam realmente decididos pelo aiatolá Ali Khamenei, líder supremo.

Campanha inédita
Embora o voto no Irã seja facultativo, a afluência de eleitores foi tão grande que o fechamento das urnas foi adiado em quatro horas -passou das 18h para as 22h locais.
Em 2005, depois de oito anos do reformista Mohammad Khatami no poder e frustração pela lentidão nas mudanças, muitos reformistas boicotaram a eleição, o que facilitou a vitória de Ahmadinejad, então azarão na disputa contra o ex-presidente Akbar Hashemi Rafsanjani (1989-1997).
Desta vez, a campanha teve comícios gigantes, debates pela TV, dança na rua, carreatas e festa, algo inédito no país.
Mousavi votou ontem de mãos dadas com a mulher, no que virou a assinatura de sua campanha - o casal unido, onde sua mulher, Zahra Rahnavard, participou ativamente da campanha, até em discursos.
Ahmadinejad votou a poucos quilômetros de distância do principal rival, fazendo o tradicional gesto de humildade persa, com os dedos fechados batendo na testa e abaixando levemente a cabeça, o que significa "sou seu servidor".

Longas filas
A campanha festiva que dominou Teerã nas últimas semanas desapareceu no dia da eleição, quando qualquer tipo de propaganda é proibido.
Não existem zonas eleitorais, então o eleitor decide em que lugar de sua cidade vota, seja numa escola, mesquita ou prédio público.
As filas para votar na imponente mesquita de Ershad superavam dois quarteirões.
Como nos principais locais de votação, lá havia filas separadas para homens e mulheres. Os eleitores preenchem as células de votação em várias cabines vizinhas, onde a privacidade é nula. Analfabetos levam parentes às cabines para que preencham para eles a cédula.
Em uma pequena cédula, o eleitor escreve o nome e o código do seu candidato - não há fotos ou o nome impressos. Ao terminar, ele se dirige à mesa de votação, onde apresenta a cédula de identidade e tem o dedo pintado para marcar sua impressão digital, de maneira que um mesmo eleitor não possa votar duas vezes.

Foto: Reuters

Escrito por Raul Juste Lores às 14h10

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Campanha no Irã tem clima de balada

Três da madrugada em Teerã, já quinta-feira, e pequenas multidões dançam ao som de hip hop e música tradicional persa no meio de avenidas, em estacionamentos, praças e parques. Ninguém parecer querer ir dormir.
Na capital onde não há discotecas ou bares, em cumprimento às leis dos aiatolás, a campanha presidencial oposicionista virou uma barulhenta festa.
Milhares de pessoas se juntam em carreatas, apitaços e buzinaços espontâneos que atravessam a madrugada. Em sua maioria, são jovens com a cara pintada de verde, com camisetas verdes, bonés verdes e até bandanas verdes.
Até alguns carros estão pintados de verde -a cor da campanha de Mir Hossein Mousavi, 67, reformista moderado que promete melhorar as relações do Irã com o Ocidente, além de dar mais direitos para as mulheres e relaxar a repressão aos costumes entre os jovens. O slogan de Mousavi é "o governo da esperança".
Na capital, a campanha de Ahmadinejad, que adotou a bandeira do Irã como símbolo e os dizeres "nós fizemos, nós podemos", empalidece perto do barulho da oposição.
Pôsteres espalhados pela cidade trazem a foto de Mousavi com os dizeres "terceira via" e até alguns cartazes em inglês, "a new greeting for the world" (uma nova saudação para o mundo).
Analistas veteranos dizem que a atual eleição é a primeira em "estilo americano" ou ocidental -fervor nas ruas, forte distribuição de material publicitário, de adesivos a bonés e camisetas, batalhas na internet e debates televisados.
Há até um jingle espontâneo, cantado por gente que promove buzinaços no eterno congestionamento da capital. "Ahmadi, bye, bye, Ahmadi, bye, bye", cantam, em ritmo de marchinha de carnaval.
A internet também serviu a Mousavi. Seus seguidores lotam o Youtube com vídeos em que desmentem declarações e discursos de Ahmadinejad, além de montagens e sátiras.
No site de relacionamentos Facebook, a grande maioria dos 200 mil membros no Irã usa um aplicativo para esverdear sua foto principal.

Cabos eleitorais
O que Mousavi não tem de Barack Obama são o carisma e a oratória. Ahmadinejad provoca mais fervor em seus comícios. Para compensar sua fala em voz baixa e seu discreto apelo, Mousavi tem usado dois fortes cabos eleitorais: o ex-presidente Mohammad Khatami, que governou o país de 1997 a 2005, e foi considerado um liberalizador nos costumes; e principalmente sua mulher, Zahra Rahnavard, 61.
Zahra é a primeira mulher a ganhar destaque na política iraniana em 30 anos de Revolução Islâmica e faz discursos nos comícios do marido. Foi a primeira reitora de uma universidade no Irã -perdeu o cargo quando Ahmadinejad chegou ao poder.
Em seus discursos, ela fala de igualdade de direitos para as mulheres iranianas. De alguma maneira, virou símbolo da campanha. Na noite da capital, às vésperas da eleição, centenas de garotas dançam para celebrar Mousavi, com lenços verdes na cabeça que teimam em deixar mais e mais cabelo à mostra, e flertam com outros rapazes que evidentemente não seus maridos.
Em outros tempos, elas poderiam ser presas, mas a polícia, que está presente, não intervém.

Foto: Getty

Escrito por Raul Juste Lores às 14h19

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Educação patriótica na China

As escolas públicas chinesas estão organizando até outubro, aniversário de 60 anos da Revolução Comunista, a campanha "Eu amo a minha Pátria".
Os alunos têm aulas sobre patriotismo e o Partido Comunista. Fazem redações sobre o Hino chinês e a "Internacional Socialista" e participam de concursos de poemas e canções sobre heróis nacionais.
Na Escola Pública Número 54, de Pequim, os melhores alunos participam da organização de parte dos eventos. O melhor de cada classe no Ensino Médio recebe um broche da Liga da Juventude Comunista da China, de uso obrigatório. No ensino básico, a distinção é um lenço vermelho no pescoço.
Outro privilégio é hastear a bandeira nacional na cerimônia que acontece toda segunda de manhã, às vezes presenciada por soldados da Praça Celestial.
"Uma vez por ano, levamos os melhores alunos para ver o hasteamento na praça da Paz Celestial", diz o secretário da Juventude Comunista na escola, Gao Jia, 28. Cada escola tem um secretário da Juventude Comunista, que ajuda a selecionar os melhores alunos e a recrutá-los para o partido.
Conversei com os quatro melhores alunos da escola. Zhu Yuchen, Han Xingchen, Xu Yang e Liu Wenjing. Todos de 17 anos, querem ingressar no Partido Comunista.
A seleção não depende só das notas. "Avaliamos desde as habilidades físicas até o comportamento em sala de aula, se o aluno obedece os professores", conta Gao. Os selecionados são convidados para a Liga da Juventude Comunista, antessala da entrada no Partido.

Treinamento militar
Os melhores entre os selecionados podem participar de uma semana de treinamento militar. Aprendem a marchar, fazem escaladas e são surpreendidos com uma corrida noturna, uma evacuação com apitos nos dormitórios. "São provas duras, que exigem disciplina", diz o aluno Han, único escolhido para o treinamento.
Os quatro estudam, em média, 12 horas por dia. Das 7h40 às 17h, em sala de aula, com uma hora para o almoço. Mais quatro horas de lição de casa, inclusive aos sábados.
Só Han já teve namorada. Os outros três juram que não sofrem pressão contrária. "Só os professores mais velhos dizem que só devemos namorar após concluir os estudos", diz Zhu.
O que acham da aula de patriotismo? "É bem relaxada. Não precisamos estudar ou decorar fórmulas complicadas. É só ficar recitando slogans em voz alta, "Nós amamos a Pátria, nós amamos o socialismo'", conta Xu. "Contanto que amemos o sistema, está tudo bem."

Foto: Xinhua

Escrito por Raul Juste Lores às 03h30

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

A memória do massacre dos estudantes

Ele foi responsável por evitar um banho de sangue ainda maior em 4 de junho de 1989. Um dos dois líderes que negociaram a retirada dos manifestantes da praça da Paz Celestial, o professor Zhou Duo, 62, continua a pagar por sua participação nos protestos.
Zhou ficou preso por um ano e nunca mais trabalhou -foi aposentado compulsoriamente da Universidade de Pequim, onde lecionava sociologia.
Tentou várias vezes uma reintegração ao cargo e vê as portas se fecharem quando seu passado militante é descoberto.
Ele tentou fazer uma greve de fome em um parque da cidade hoje, para exigir do governo investigação de responsabilidade de quem mandou os tanques para a praça -e, segundo ele, para exigir sua liberdade de expressão. Mas ficou em prisão domiciliar desde sábado, poucos dias depois de falar comigo _ e foi retirado de Pequim pela polícia. Talvez só volte na semana que vem.

DESPOLITIZADOS

Já tivemos autoritarismo nas dinastias imperiais, totalitarismo na era de Mao, e voltamos ao autoritarismo. O país mudou muito nos últimos 30 anos, é mais livre. Se você não mexe com o governo, você é livre. Ninguém controla você se não criticar o governo. O governo quer que os cidadãos foquem mais em seus próprios interesses, em suas carreiras e fiquem longe da política. A estratégia funcionou. A repressão de 4 de junho deu uma mensagem poderosa de quanto é perigoso se meter com política aqui. Muita gente foi presa. A propaganda, a educação e a mídia fizeram o resto. Como alternativa, há muitas maneiras de se ficar rico neste país. E os governos e empresas ocidentais também cooperaram para o esquecimento.

JANTAR COM A POLÍCIA
A polícia me visita com frequência, mas posso viajar ao exterior e pela China. Na semana passada, fui convidado a jantar por agentes de segurança do meu bairro. Os policiais pediram gentilmente que eu não desse entrevistas a jornalistas estrangeiros dentro do meu apartamento, por isso estou conversando com você neste café. "Você deve estar muito ocupado ultimamente", brincou um dos policiais.

TANQUES
Éramos cerca de 5.000 pessoas na praça na noite de 3 de junho. Uma semana antes, o número foi encolhendo quando as pessoas começaram a notar que os militares invadiriam o centro de Pequim. O massacre não aconteceu na praça, eu estava lá. Os tanques e os militares foram matando nos bloqueios nas entradas da cidade e nas avenidas rumo à praça da Paz Celestial. Começamos a ouvir tiros às 2h da manhã.

SEM NEGOCIAÇÃO
Às 3h da manhã, nós éramos quatro professores e tínhamos que convencer os estudantes a deixar a praça. Liu Xiaobo [autor de um manifesto pró-democracia em dezembro, preso desde então] e eu fomos falar com Chai Ling, a líder dos estudantes. Ela se negou a nos ouvir e disse que não entregaríamos a praça de graça. Havia civis armados, ameaçando atirar quem quisesse abandonar a praça, "os traidores".
Queríamos pedir pelos alto-falantes para os estudantes se retirarem, recolher e entregar as armas e depois negociar com os militares. Todas as luzes da praça se apagaram às 4h.

INSTANTES FINAIS
Não conseguimos nada disso, então pedi que Hou Dejian me acompanhasse a negociar com os militares. Ele era um cantor famoso, não teriam coragem de atirar nele. Pedimos carona a militares que tinham uma van. Eram três da manhã, escuridão total, nunca senti tanto medo na minha vida. Não sei se voltaria com vida. Parecia que caminhava rumo ao inferno.
Os militares disseram que só precisariam negociar com os superiores. Não havia mais como parar os tanques. Deram meia hora para que nos retirássemos.
Deixei a praça com outros amigos às 6h da manhã, vários grupos estavam saindo pelo sudeste da praça. Havia corpos e sangue na avenida. Pelos meus cálculos, morreram mil pessoas. Da praça, fui para a minha casa. Fui preso no caminho.

NÃO SÓ DEMOCRACIA
Estudantes queriam liberdade, democracia, reforma universitária. Os mais jovens pediam mais fundos para as universidades, os mais velhos reclamavam de inflação, de desemprego e de corrupção, que era apenas uma pequena fração da que acontece hoje.
Não era governo versus estudantes. Havia professores, médicos, funcionários públicos, idosos. E o governo estava dividido. O secretário-geral, Zhao Ziyang, queria mais reformas, e a velha guarda queria acabar com o protesto. O grupo mais radical dos estudantes, liderado por Chai Ling, também não queria conversa.

DERROTA MODERADA
Os dois grupos moderados perderam força, e a linha dura dos dois lados prevaleceu. E veio a tragédia. Estudo agora por que, na história da China, os moderados sempre perdem.
Na cultura política chinesa, consenso e negociação são vistos como covardia, fraqueza.

Foto: Ben Marcom/Folha Imagem

Escrito por Raul Juste Lores às 05h09

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

20 anos do massacre na Praça da Paz

Esta é a  primeira de uma série de reportagens que fiz sobre os 20 anos do massacre de estudantes e manifestantes na Praça da Paz Celestial (Tiananmen), em 4 de junho de 1989, no maior movimento por democracia da história chinesa. Uma das imagens mais poderosas do final do século 20 é daquele anônimo estudante chinês que tenta impedir o avanço de um coluna de tanques na Avenida da Paz Eterna (Chang'An).

A internet se tornou um dos raros espaços de protesto em massa na China _ já que os que acontecem à luz do dia são pequenos e reprimidos rapidamente. É nela que estão surgindo pequenas Tiananmen virtuais. Talvez por isso Twitter, Youtube, Hotmail, Flickr, Blogger e Blogspot estão bloqueados hoje na China.

Jovens, que não aprenderam na escola o que houve há 20 anos na praça da Paz Celestial, reavivam contestação ao governo

Ícones do movimento, ainda modesto, são garçonete que matou político que tentava estuprá-la e rapaz que se vingou de torturadores 

O site Youtube está bloqueado na China, e imagens do estudante que tentou impedir sozinho a chegada de tanques à praça da Paz Celestial são desconhecidas pela maioria no país.
O massacre que reprimiu os protestos por democracia, em Pequim, deixando 241 mortos, segundo cifras oficiais, ou até 7.000, de acordo com algumas estimativas independentes, faz 20 anos nessa quinta-feira e se tornou o maior tabu nacional.
A China é outra: a renda per capita cresceu dez vezes e a luta por democracia desapareceu dos grandes debates nacionais.
Mas, às vésperas do aniversário da tragédia, multiplicam-se os casos de rebeldia de jovens contra os abusos do poder.
Uma geração que nunca aprendeu na escola o que aconteceu naquela praça começa a organizar "passeatas virtuais" na internet, apesar da censura. É ação de uma minoria, que destoa da despolitização da juventude chinesa após 1989.

Heroína instantânea
A garçonete Deng Yujiao, 21, virou heroína instantânea para milhares de jovens depois de matar, há duas semanas, um figurão do Partido Comunista que tentava estuprá-la em um karaokê na Província de Hubei, centro-leste da China.
A moça foi presa na hora -a polícia disse que havia remédios antidepressivos em sua bolsa, que o crime havia sido premeditado, e autoridades cassaram a licença dos advogados que queriam defendê-la.
A novidade é a reação à atitude da polícia e da Justiça chinesas. Estudantes da Universidade das Mulheres, de Pequim, fizeram uma performance em homenagem a Deng (foto acima). Nos cartazes está escrito: "Qualquer uma pode ser Deng".
O vídeo da performance na internet recebeu 100 mil comentários a favor de Deng até anteontem. A pressão tomou proporção tal que, na véspera, Deng já havia sido solta.
No início do mês, um rapaz de 25 anos foi morto enquanto cruzava uma faixa de pedestres, atropelado por estudantes que disputavam um racha.
Os criminosos são filhos de ricas famílias de Hangzhou, com bons contatos no Partido Comunista. A polícia disse que os carros iam a "apenas 70km/ h", e o Departamento de Propaganda local determinou que a mídia ignorasse o assunto.
Grandes vigílias exigindo justiça foram organizadas e centenas de blogs se encarregaram de espalhar o encobrimento.
Em 2008, Yang Jia, 28, matou seis policiais com um punhal -ele alegou que havia sido preso e torturado por não ter a licença de sua bicicleta. Antes, tentou entrar com um processo contra os policiais, arquivado imediatamente.
Yang condenado à morte -o escritório dos advogados que tentaram defendê-lo foi fechado pela Justiça, e a mãe de Yang, testemunha da tortura, ficou detida por seis meses. Só foi libertada depois que seu filho foi executado. Manifestações no tribunal e milhares de comentários em blogs defenderam a ação violenta de Yang contra o abuso policial.

Mais cínicos
"É perigoso que uma sociedade inteira seja obcecada por política, mas é patético quando toda a sociedade é alienada", disse à Folha o advogado Pu Zhiqiang, 44.
Pu foi um dos líderes da greve de fome que os estudantes organizaram em maio de 1989 na praça da Paz Celestial, que angariou apoio ao movimento pró-democracia e ajudou a desencadear a reação do governo que acabaria no massacre. "Ficamos cínicos, mas a demanda por mais justiça é animadora."
A elite universitária deixou de ser foco de agitação pró-democracia 20 anos depois.
O diretor do Centro de Estudos Chineses e Globais da Universidade de Pequim, Pan Wei, diz que a democracia com eleições e múltiplos partidos "só traria caos e agitação à China".
"Não temos grandes tensões entre ricos e pobres, patrões e proletários, zona urbana e rural. Mas uma campanha eleitoral precisa de agitação, levanta tensões adormecidas. Nosso sistema é melhor", afirma.
Mesmo com a ação dos novos rebeldes, algumas coisas não mudam. Na última semana, 12 advogados reconhecidos por defender os direitos humanos tiveram suas licenças cassadas.

Foto: Manifestação de apoio a Deng Yujiao

Escrito por Raul Juste Lores às 11h35

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

As razões da Coreia do Norte

Um dos maiores especialistas em Coreia do Norte, o cientista político sul-coreano Paik Hak-soon, 54, falou com o blog. Ele estuda há 20 anos o vizinho comunista do Norte e já visitou várias vezes o país mais fechado do mundo, com a autorização dos dois lados. Suas opiniões fogem de muitos clichês que você já leu sobre o país de Kim Jong-il. Aqui ele explica como "pensa" o isolado regime.

CARTADA NUCLEAR
A Coreia do Norte só é lembrada ou respeitada quando diz que tem o programa nuclear em andamento. A campanha que mostra a Coreia do Norte como vilã, como os "garotos maus", não ajuda o diálogo.
Na mesa, duas opções são fundamentais: cooperação ou punição. As duas têm que estar à mão. O problema é que a cooperação nunca esteve na mesa. Para que Kim Jong-il cederia?
O plano A seria o diálogo, mas na verdade só havia o plano B, de derrubar o regime, como foi no Iraque.

FRUTO DE BUSH
O projeto nuclear norte-coreano é parte de uma estratégia de sobrevivência externa. Houve duas declarações compartilhadas com a Coreia do Sul, de coexistência pacífica. O problema é que a política americana dos últimos oito anos foi sequestrada pelos neoconservadores de George W. Bush. Então, a Coreia do Norte sentiu que ao mesmo tempo em que se buscava o diálogo, os americanos queriam derrubar o regime de qualquer maneira.
A agenda secreta americana de derrubar Kim Jong-il nos anos Bush não interessa a ninguém. A China não quer ver o aumento da influência americana na Península Coreana, que aconteceria com o fim do regime do Norte e nem quer pensar em milhões de famintos cruzando a sua fronteira caso o regime comunista colapse.

"PROSTITUTA"
Você não pode chamar alguém com quem quer negociar de "eixo do mal". Imagine que você brigou com sua mulher, que quer reatar ou até mesmo se divorciar, mas em termos amistosos. Mas aí, no começo da conversa, você a chama de "prostituta". Os EUA fizeram isso com a Coreia do Norte, então queimaram toda possibilidade de diálogo.
Bush acabou fortalecendo os radicais de Pyongyang com essa estratégia, é um demônio criado pelos seus próprios erros. Se você caracteriza o adversário como demônio, só sobra o plano B.

RIQUEZA VIZINHA
A população urbana da Coreia do Norte já sabe que o Sul é muito mais rico. Há enorme circulação de DVDs e CDs piratas com música, novelas e filmes sul-coreanos.
Os norte-coreanos veem as imagens de arranha-céus e luxo em Seul, não dá para esconder. E não há polícia suficiente para ir de casa em casa, perseguir quem vê DVDs proibidos.
A fronteira da Coreia do Norte com a China é enorme, é por ali que devem entrar muitas coisas, o poder da propina é enorme. Não deixa de ser um "soft power" da Coreia do Sul, pois falamos o mesmo idioma.

REFORMAS
Em 2002, alguns princípios da economia de mercado foram introduzidos, e esse é um caminho sem volta. Em vários mercados de Pyongyang, foram permitidas a venda e a compra privada. O sistema de distribuição de comida foi abolido então, mas voltaram com ele porque muita gente não conseguia mais comprar comida.
Noventa por cento dos produtos que se veem nos supermercados são chineses

POLÍTICA INTACTA
A Coreia do Norte autorizou a criação de um complexo industrial em seu território, onde várias empresas do Sul se instalaram e contratam mão de obra do vizinho. A economia pode mudar, mas o sistema político seguirá intacto, Kim mira nos exemplos da China e do Vietnã.
Só que o ritmo das reformas é bem mais vagaroso porque, ao contrário desses dois países, ele ainda enfrenta um inimigo poderoso, os Estados Unidos.

O PAPEL DE OBAMA
Kim disse ao enviado da Coreia do Sul em 2000 que [o democrata] Al Gore deveria ter vencido [as eleições contra Bush]. E, desta vez, torceu por Barack Obama. Para ele, é o melhor para dialogar, pois a guerra não terminou ainda.
Cautelosamente, Obama vai desmanchando os anos Bush, conversando com a Rússia, enviando sinais para Irã, Cuba, e anunciando que quer desnuclearizar o mundo.
Bush pedia para a Coreia do Sul não falar com "nosso inimigo". Obama terá que pedir: "Precisamos falar com eles".
A Obama não interessa uma Coreia do Norte nuclearizada, que poderia provocar mais uma corrida armamentista na região. Seria até uma desculpa para o Japão se armar.

BLOQUEIO
Quando a Coreia do Norte era mais livre, não tinha tanta atenção do mundo, ela podia exportar mísseis. Hoje é quase impossível, pois satélites de vigilância sabem tudo o que acontece ali. Paquistão e Síria eram clientes, e ela comprava material e tecnologia da China e da Rússia.
Mas claramente boa parte da tecnologia era própria, pois a China também não gostaria de transformar o vizinho em uma potência militar. Parte do orgulho nacional e da propaganda do país aproveitam essa questão: "Quantos países podem colocar um satélite em órbita? Nós podemos".


Escrito por Raul Juste Lores às 00h55

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

Raul Juste Lores Raul Juste Lores, 33, correspondente da Folha em Pequim. Foi correspondente em Buenos Aires e editor de Internacional da Revista Veja e apresentador e editor-chefe do Jornal da Cultura, na TV Cultura.

BUSCA NO BLOG


ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha Online. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha Online.