Raul na China
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A encruzilhada da China com a Coreia do Norte

Maior aliado da Coreia do Norte, a China também está em uma encruzilhada em como lidar com seu problemático vizinho, de acordo com vários analistas ouvidos pela Folha.
Se cortar a ajuda financeira e o fornecimento de energia e alimentos à Coreia do Norte, a China pode provocar o colapso do regime de Kim Jong-il, que depende de ajuda principalmente de China e Rússia.
O colapso provocará a fuga de milhões de famintos norte-coreanos para a fronteira menos protegida do país, com a China, segundo os analistas.
Para diplomatas chineses, o colapso permitiria o aumento da presença americana na região, inclusive com tropas dos Estados Unidos na Coreia do Norte, um efeito colateral indesejado por Pequim.
Mas, se não fizer nada, a China pode permitir uma corrida armamentista na região. A China deixaria de ser o único país do Extremo Oriente com arsenal nuclear, caso o Japão e as duas Coreias se armem.
"A China busca a estabilidade da região de qualquer maneira, pela própria defesa de seu território", disse à Folha o professor Cai Jian, vice-diretor do Instituto de Estudos sobre Coreia do Norte da Universidade Fudan, em Xangai.
"Tanto o armamento de Japão e Coreia do Norte, como a presença de tropas americanas ali, caso desaparecesse o tampão que o país exerce, não interessam à China", avalia Cai.

Mudança de política
Diplomatas chineses, que falaram à Folha sob a condição de não ter sua identidade revelada, ponderam que a atitude de Pequim em relação ao regime de Kim está mudando rapidamente.
Segundo eles, a condenação dos lançamentos de mísseis e testes nucleares tem sido cada vez mais dura, o número de tropas na fronteira tem aumentado, assim como a concessão de vistos para norte-coreanos visitarem a China tem ficado mais difícil.
Os especialistas também abordaram o momento complicado para qualquer negociação. O presidente americano, Barack Obama, não tem grandes especialistas em Coreia do Norte, nem tem um plano novo. E o Japão já vive o clima de disputa eleitoral, o que é propício para candidatos prometerem reverter a ausência de arsenal nuclear do país.

Efeito sobre o PC chinês
Na China, porém, os testes nucleares de Kim estão redesenhando a disputa entre diferentes facções do Partido Comunista, que discordam em como se lidar com o vizinho.
De acordo com outro diplomata, a Chancelaria chinesa defende a negociação internacional para conter o regime de Kim Jong-il, enquanto o Departamento Internacional do Partido Comunista prefere a relação bilateral. Acredita que a Coreia do Norte acabará cedendo, abrindo a economia ao estilo chinês, mas mantendo-se na órbita de Pequim.
Desde 2003, o governo do presidente Hu Jintao tem se alinhado mais com os diplomatas reformistas e apoiado uma negociação multilateral.
Os testes nucleares estão enfraquecendo a linha dura, mais favorável a Pyongyang.
Para o diplomata, Kim Jong-il foi longe demais desta vez. Segundo ele, não fica bem para a China não conseguir controlar um pequenino ditador em seu próprio quintal, sobretudo um que é visto como aliado.

Escrito por Raul Juste Lores às 06h03

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Estripulias da NBA na China

A China importou 34 jogadores de basquete da NBA para tentar tirar da modorra a Liga de Basquete chinesa. Na última temporada, cada time pôde até ter dois estrangeiros em quadra. O problema é que os americanos estão se saindo bem demais.
“Agora são quatro americanos jogando e encestando, e os jogadores chineses ficam assistindo, sem fazer nada”, reclama Yang Yi, 33, o mais famoso comentarista de basquete da CCTV, a gigante rede estatal chinesa que transmite as partidas.
“Alguns desses jogadores são um câncer, não jogam em equipe, não passam a bola e não estão ajudando a elevar a técnica dos jogadores chineses. Vêm, se exibem e vão embora”, disse à Folha o Galvão Bueno da TV chinesa, que narra os jogos desde 2002.


Desde 1996, times chineses começaram a importar jogadores e, a partir de 2005, também técnicos estrangeiros. “A ideia era de aprimorar a técnica dos nossos jogadores em contato com os melhores do mundo, mas o problema é que na NBA vale ser fominha, ser agressivo, enquanto os chineses querem trabalhar em equipe”, lamenta.
Dos 18 times da liga, 17 correram atrás do reforço estrangeiro. O único que não capitulou é o célebre Bayi Rockets, o time de basquete do Exército de Libertação do Povo, que só tem militares entre seus jogadores.
Depois de vencer oito campeonatos nos últimos treze anos, o 100% chinês Bayi não ficou nem entre os dez melhores classificados na última temporada, que terminou no início do mês.
Considerado por vários anos o pior time da Liga, o Shanxi ficou em 4º na temporada, graças a seus talentosos forasteiros.


Ex-jogadores da NBA, como William Parker e Bonzi Wells, costumam fazer sozinhos mais de 40 pontos por partida.
“A China tem importado jogadores classe C e D dos Estados Unidos, nenhuma estrela de verdade, mas eles chegam aqui e são muito melhores que os nossos”, admite Yang.
A temporada chinesa é um bom negócio para os americanos que estão sem contrato na NBA. Os americanos ganham entre US$ 50 mil e US$ 100 mil por mês _ a temporada dura cerca de seis meses.
Todos os gastos _ viagens, hospedagem, alimentação, benefícios para a família _ são pagos pelos clubes chineses. Os jogadores locais ganham, em média, um quinto do que recebem os americanos.
Até Yao Ming, astro chinês da NBA pelo Houston Rockets, já criticou, antes da Olimpíada, a falta de agressividade e de corpo a corpo de seus conterrâneos pela posse de bola.

O esporte das cestas é atração para multidões no país. Alguns dos jogos da NBA comentados por Yang Yi, como Lakers versus Houston Rockets, podem ter 400 milhões de espectadores.
Em média, os jogos de basquete da NBA têm o dobro dos espectadores do campeonato de futebol inglês na CCTV.
Yang conta que, ainda que vários times sejam privados, a Liga pertence ao governo e é dirigida pelo Ministério dos Esportes.
“Os times e a Liga têm responsabilidade de melhorar o basquete chinês, de formar quadros para nossa seleção, de ganharmos mundiais e medalhas”, diz. “Nesta temporada, os jogadores mais jovens mal tiveram oportunidade de brilhar.”

A polêmica é alimentada por blogs, pelo despeito dos jogadores e pelos nacionalistas comentaristas. Mas, de acordo com a audiência dos jogos, o público chinês parece ter aprovado a mudança. A audiência média pulou de 5 milhões para 15 milhões nesta temporada.
“Os americanos fazem grandes cestas, são performáticos e os torcedores gostam de ver de perto nomes que viam pela TV”, diz Yang.
“Para a audiência e os patrocinadores, vale ter os estrangeiros. Mas, a longo prazo, não sei o que o basquete chinês ganha com isso.”

Uma nova regra é discutida para a próxima temporada: cada time só poderá ter um estrangeiro em quadra por vez. Um fica 15 minutos, o outro fica os 15 minutos seguintes, para evitar o monopólio da bola.

 

Fotos: Xinhua

Escrito por Raul Juste Lores às 07h05

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O Itamaraty e a China

Trechos da entrevista que fiz com o secretário-geral do Conselho Empresarial Brasil-China, Rodrigo Maciel. Ele fala sobre a presença escassa do Brasil na China.

FOLHA - Há quem diga que o Itamaraty quer deixar claro à China o descontentamento pela falta de investimentos e pela falta de apoio à pretensão brasileira de uma vaga no Conselho de Segurança da ONU.
MACIEL -
O governo brasileiro continua totalmente míope em relação à China. Reduzir a missão, a viagem, parece birra do Itamaraty. Não é assim que se lida com os chineses.
O Itamaraty tem uma posição arrogante. A China já é a terceira maior economia do mundo, deve se tornar a segunda do mundo neste ano ou no máximo em 2010. Precisamos colocar nossa violinha no saco, pois nós precisamos mais deles do que os chineses de nós.
O empresariado é prejudicado. Por que os Estados Unidos vendem carne de porco à China e o Brasil não consegue?

FOLHA - O que precisa ser feito?
MACIEL -
Olha, quando eu visito a embaixada chinesa em Brasília ou o consulado chinês em São Paulo ou no Rio, sou recebido por vários diplomatas chineses que falam português. Não temos ninguém no Itamaraty, ou no governo brasileiro, que fale chinês. Você chega à embaixada brasileira em Pequim e é recebido por secretárias que falam espanhol ou inglês. Não tem cabimento.

FOLHA - Não é prioridade?
MACIEL -
Faltam visitas de alto nível. O governo brasileiro promove mais visitas à África do que à Ásia. O ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, nunca foi à China. Nem Miguel Jorge, da Indústria e Comércio.
Erramos feio. Achamos que o mundo está louco para investir no Brasil e ficamos sentados esperando. Essa estratégia não vai funcionar com a China porque o mundo inteiro está disputando a atenção deles.

FOLHA - O Brasil exporta soja, ferro e outras poucas matérias-primas, enquanto importa da China produtos manufaturados. Há possibilidade de diversificar as exportações?
MACIEL -
Quase impossível. O Brasil é comprado pela China, não exportamos. Nossa pauta de exportações para lá é de 75% de matérias-primas. É o exato oposto das importações da China do resto do mundo. Não é irreversível, mas não houve esforço do governo nem da iniciativa privada para mudar isso.
Fizemos um estudo no Conselho. De 600 produtos brasileiros, 147 são procurados pelo mercado chinês, como alimentos, lácteos, carnes, cosméticos, produtos de higiene, autopeças, metalurgia, máquinas. Daria para vender hoje mesmo. Esses setores combinados respondem pelo consumo de US$ 228 bilhões na China. O Brasil poderia dobrar suas exportações, mas estamos longe disso.

Escrito por Raul Juste Lores às 05h16

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China critica protecionismo brasileiro

Os empresários chineses estão "preocupados e insatisfeitos" pela quantidade de processos por dumping contra a entrada de produtos da China no Brasil, segundo o Ministério do Comércio do país. E o Brasil deveria facilitar a concessão de vistos para trabalhadores chineses, além de desburocratizar a papelada para abrir uma empresa no país para atrair mais investimentos da China.
As opiniões são de Xu Yingzhen, subdiretora-geral do Departamento de Assuntos de Américas e Oceania do Ministério do Comércio. Em uma rara entrevista, ainda que por escrito, ela sai da habitual retórica de que "tudo está ótimo" no comércio. Ela diz que o Brasil é um dos países que mais iniciam processos de dumping (venda por preço abaixo do custo para afastar concorrentes) contra a China e que as matérias-primas dominam parte das exportações brasileiras em outros mercados além da China.

FOLHA - Há uma crescente insatisfação no Brasil por conta da relação comercial em que basicamente só exportamos matérias-primas, especialmente ferro e soja, mas importamos manufaturas da China, com barreiras contra produtos industrializados. Como isso pode mudar?
XU YINGZHEN
- O mercado chinês é bastante aberto e tem seguido estritamente as políticas da OMC. A China deseja que o Brasil possa fornecer mais produtos competitivos e aumentar sua participação aqui. Sabemos que as exportações de petróleo cru e derivados de ferro aos EUA, à Holanda e à Argentina também constituem uma parcela bem grande do comércio do Brasil. A estrutura de produtos para o comércio é, em grande parte, decidida pela demanda e pela oferta dos países.

FOLHA - Do outro lado, que barreiras a China enfrenta para exportar ao Brasil? As atuais barreiras acontecem por reciprocidade?
XU
- A China tem encontrado barreiras comerciais. Tarifas e taxas de administração, restrições de importação, barreiras técnicas para comércio, medidas de correção de comércio. O Brasil começou 42 processos antidumping contra produtos chineses. Desde 2008, o Brasil iniciou investigações antidumping em nove áreas. É um dos países que mais iniciaram processos desse tipo.

FOLHA - O que aconteceu?
XU
- Durante a visita do presidente Hu Jintao ao Brasil, em 2004, os países assinaram memorando de comércio e investimentos. Nesse texto, o Brasil reconhece a China como economia de mercado. Como o Brasil não implementou esse reconhecimento, vários processos antidumping usam valores de um terceiro país, que não são baseados nos valores normais dos produtos chineses.
Companhias chinesas já manifestaram muita preocupação e expressaram insatisfação sobre esses processos do Brasil.

FOLHA - O que o Brasil precisaria fazer?
XU
- Desejamos que cumpra a promessa no documento e reconheça o status de economia de mercado à China. Torcemos para que o Brasil tome medidas mais enérgicas a fim de criar um melhor ambiente de investimentos para atrair companhias chinesas e simplificar requerimentos administrativos e os procedimento de aprovação. E que facilite os trâmites para a concessão de vistos para empregados chineses.

 

Escrito por Raul Juste Lores às 14h31

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Por dentro do secreto QG comunista

 

Zhongnanhai é talvez o lugar mais secreto da China. É o enorme complexo perto da Praça da Paz Celestial onde funciona o governo chinês. Todo amuralhado, imenso, é onde os líderes comunistas trabalham e moram. Tanto sede do governo quanto do Politburo do Partido Comunista. Mao Tsé-tung fazia bailinhos ali toda quinta-feira e sábado, onde dezenas de mocinhas chinesas queriam dançar com o líder da Revolução.

Zhongnanhai já fez parte da Cidade Proibida, o conjunto de palácios da família imperial chinesa, com seus jardins e lagos artificiais. No final do Império, a imperatriz Dowager, da dinastia Qing, morava lá. No final dos anos 70, por um breve período, foi aberto à visitação nos finais de semana, mas desde então a entrada ali é absolutamente vedada. Visualmente, ele é desconhecido para boa parte dos chineses. Não há um Palácio do Planalto ou o Alvorada, uma "Casa Branca", uma Downing Street familiar aos chineses.

Por conta da visita do presidente Lula, pude visitar o tal quartel-general. Como já tinha lido, sobraram poucas construções históricas (como o pequeno palacete "da Luz Púrpura" onde o primeiro-ministro Wen Jiabao recebeu Lula, em algumas fotos acima) e a maioria segue um estilo híbrido de maoísmo utilitário, cinzento e pesado, com alguns tetos imitando os velhos templos e pagodes chineses. A arquitetura milenar não deveria ficar sendo repetida ou desvirtuada fora de sua escala tradicional. Pelo menos, os prédios são baixos e ainda há muito verde.

Ah, os Audis pretos da foto são os carros oficiais da dirigência comunista. Há centenas deles circulando por Pequim. Pela placa e pelo modelo, seus passageiros prescindem do tradicional "você sabe com quem está falando?".

Escrito por Raul Juste Lores às 05h50

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Lula na China, parte 1

Ninguém pode reclamar da falta de cor dos salões do Grande Palácio do Povo, em Pequim, sede do Congresso chinês. Olha só os murais. Como os deputados só se reúnem ali uma vez por ano, no resto do tempo ele também serve como local para reuniões dos líderes comunistas com chefes de Estado estrangeiros. As fotos são minhas, por isso a má definição. Mas vamos ao que interessa:

Com exceção de um acordo entre Petrobras e China, já anunciado em fevereiro, e a possível liberação da entrada de carne de frango brasileira no país, aprovada no ano passado, a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não conseguiu avançar várias pendências da agenda.
O cancelamento da compra de 45 aviões modelo 190 da Embraer, anunciada em 2006 pelos chineses, mas cancelada em novembro passado, não foi revertida, apesar de Lula ter falado do assunto ao menos três vezes com os anfitriões.
As barreiras chinesas contra as carnes suína e bovina do Brasil não foram removidas -as negociações se arrastam desde 2005. O governo brasileiro queria fazer o lado chinês aprovar a liberação para tentar diversificar a pauta brasileira, hoje concentrada em soja e ferro.
Brasil e China anunciaram ontem a criação de um plano quinquenal de metas, aos moldes dos adotados pelo regime comunista chinês, para criar uma pauta comum em áreas como comércio, finanças, educação e ciência e tecnologia.
O plano será discutido e criado no segundo semestre, em reunião em Brasília, para funcionar entre 2010 e 2014. A responsabilidade pela criação será da Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Coordenação (Cosban). Criada em 2004, ela só teve duas reuniões até agora, em 2006 e em abril passado.
Lula disse em discursos ontem que estava "empenhado em diversificar o comércio bilateral" e em aumentar as "possibilidades de investimentos".
Apesar dos desencontros comerciais, o discurso político foi afinado. Diante de elogios do presidente chinês, Hu Jintao, e do primeiro-ministro, Wen Jiabao, pela nova relevância internacional do Brasil, e menção à popularidade de Lula pelo vice-presidente chinês, Xi Jinping, provável sucessor de Hu, Lula destacou várias similaridades entre os dois países.
"Brasil e China estão dando respostas a uma crise que não criamos, apresentam-se como alternativas, [são] países que souberam manter reservas, cuidar da macroeconomia e que não temem a crise. Os dois países vão escrever uma nova história da humanidade neste século e nunca mais serão esquecidos nas rodas de conversas dos ricos." E acrescentou: "China e Brasil já são mais importantes hoje do que alguns podem pensar. Estamos aprendendo a gostar de ser ricos. Temos satisfação de saber que somos grandes e importantes."
Lula voltou a sugerir a "inadiável reforma da organização que zela pela segurança no mundo, que deixaria o Conselho de Segurança da ONU mais democrático e eficaz". Membro permanente, a China não apoia a ampliação do conselho.


Escrito por Raul Juste Lores às 09h21

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O Tietê limpo e o fim do Minhocão

A TRANSFORMAÇÃO DE SEUL

Era assim:

Ficou assim:

Este é o próximo alvo:




Imagine o Tietê limpo, com árvores, ciclovias e pistas de corrida ao longo das marginais. Que o Minhocão fosse demolido e o Tamanduateí virasse um grande parque horizontal ao longo de águas cristalinas.
Pode parecer fantasia para São Paulo, mas é uma ambição realista de Seul.
Após destruir um elevado que cortava o centro histórico e recuperar o rio Cheonggye, a capital sul-coreana embarcou num ambicioso projeto que pretende tornar o Han, seu maior rio, o coração da cidade.
Mais de 70 prefeitos de metrópoles, entre eles o paulistano Gilberto Kassab, chegam hoje a Seul para participar de uma conferência sobre clima, mas a transformação da cidade será o grande caso para estudo.
Há duas semanas, Seul inaugurou o primeiro parque às margens do Han, com mirantes e uma extravagante fonte luminosa que cai de sua principal ponte. Outros três parques ficam prontos até setembro.
Até 2010, suas margens ganharão 33 obras, entre elas seis parques, mirantes, ciclovias e quadras de esportes, num investimento de US$ 530 milhões (equivalente aos 32 km do trecho oeste do Rodoanel).
O rio, que tem 1 km de largura, ainda não está completamente limpo, mas a prefeitura está reintroduzindo peixes e aves que costumavam habitar o Han até os anos 60, quando ele se tornou sinônimo de esgoto.
Nos anos 80, quando começou a despoluição, fábricas começaram a abandonar Seul e as que ficaram passaram a receber multas pesadas se continuassem a lançar dejetos no rio. Quatro estações de tratamento de esgoto foram criadas.
Na década seguinte, a prefeitura recuperou todo o sistema de saneamento de conjuntos habitacionais, que lançavam emissões clandestinas.
Nos últimos anos, prefeitura, grupos ambientalistas e até o exército têm feito limpezas periódicas do rio, retirando de bicicletas a pneus. Um sistema informático rastreia a qualidade da água para ver de onde chega a poluição.
O planejamento da prefeitura vai até 2030, quando os 40 km do rio que cruzam a capital estarão repletos de verde. A ideia é fazer túneis em trechos das marginais para alargar os parques e levar shows e esportes aquáticos para a região.
Um grande centro empresarial, com gigantescos arranha-céus, será instalado numa das margens, ocupando o espaço da atual base americana, de mudança para o sul da cidade.
Na terça, foi anunciado que o arquiteto americano Daniel Libeskind fará o plano piloto do complexo de US$ 20 bilhões, que será construído de 2013 a 2020. A valorização do terreno pagará parte das benfeitorias no Han. Multinacionais coreanas, como Samsung, Hyundai-Kia e LG, participam do projeto.

Escrito por Raul Juste Lores às 04h41

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Lula na mídia chinesa

O presidente Lula deu uma entrevista exclusiva à revista Caijing ("finanças", em chinês), publicada ontem. Ele chega na segunda-feira a Pequim para uma viagem de 48 horas. A reportagem traz o espirituoso título de "Corra, Lula, Corra" e fala das ambições globais do Brasil.


Lula disse que as exportações brasileiras para a China não podem ficar limitadas a matérias-primas e que os dois países deveriam buscar um equilíbrio comercial, sem déficits.  Lula voltou a sugerir que Brasil e China usem reais e yuans, e não dólares, no comércio bilateral. "É ridículo usar a moeda de um terceiro no comércio entre dois países tão importantes."

Presidente e comitiva chegam a Pequim na próxima segunda-feira para uma visita de 48 horas à China, que se tornou o maior parceiro comercial do Brasil em abril, com comércio bilateral de US$ 3,2 bilhões, ultrapassando os EUA. E deve ser a única grande economia do mundo a crescer mais de 6% em 2009.
A revista afirma que o petróleo é o principal negócio entre os dois países e ressalta a possibilidade de crédito pelo Banco Chinês para o Desenvolvimento. "A Petrobras precisa da China para financiar a exploração dos campos pré-sal, e a China, em troca, garantiria fornecimento de petróleo", diz o texto.
"Torço para que os dois lados assinem esse acordo o mais rápido possível, mas os negociadores chineses são muito exigentes", disse Lula à revista.
Atualmente, 80% das exportações brasileiras à China são de commodities, como soja e ferro, e derivados. Lula defendeu que os dois países busquem o equilíbrio da balança. Em 2008, o déficit brasileiro com a China foi de US$ 3,6 bilhões.
Na sugestão de prescindir do dólar no comércio bilateral, Lula diz à "Caijing" que Brasil e Argentina já possuem esse mecanismo. "Devemos fortalecer a importância das moedas chinesa e brasileira e dedicar nossos bancos centrais e ministérios das Finanças para esse fim", declara.
O presidente aproveita para vender a ideia do etanol para os leitores chineses, dizendo que os biocombustíveis são o futuro da energia. Ele também defende que, para ajudar a preservação ambiental da China, o gigante asiático abra fábricas no Brasil de energia limpa.
A "Caijing" ("Finanças", em chinês) é a revista de maior prestígio da China, com 220 mil exemplares quinzenais, e uma das poucas publicações a driblar a censura no país.

Escrito por Raul Juste Lores às 05h54

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5.335 estudantes mortos

A mãe que aparece no vídeo abaixo perdeu seu filho no terremoto de Sichuan. Ela tenta há um ano cobrar responsabilidades do governo, sem sucesso. Ao dar entrevista ao jornal britânico Financial Times, o jornalista é ameaçado e agredido por capangas do governo, que impedem a realização da entrevista: 

http://www.ft.com/cms/1644d08e-f450-11dc-aaad-0000779fd2ac.html?_i_referralObject=4887043&fromSearch=n

 

O governo chinês divulgou ontem pela primeira vez o número de estudantes que morreram no terremoto de Sichuan em 12 de maio do ano passado, quando suas salas de aula desabaram _ 5.335.

O tema é muito sensível na China porque acredita-se que muitas mortes teriam sido evitadas se as escolas tivessem sido construídas com materiais de qualidade. Muitas delas viraram pó, ainda que prédios vizinhos ficassem intactos. O governo chinês não admitiu as acusações de que houve corrupção na construção das escolas na Província. 7 mil salas de aula racharam ou desmoronaram. Pais das vítimas fizeram vários protestos no ano passado contra o governo, mas eram repetidamente assediados e ameaçados pela polícia chinesa.

"Os pais dos estudantes que morreram merecem respostas e compaixão, não ameaças e abuso", diz Sophie Richardson, diretora da Human Rights Watch para a Ásia. Jornalistas estrangeiros têm sido perseguidos e atacados se tentam entrevistar pais das vítimas. A imprensa chinesa ignora o assunto.

A cobrança de que o governo divulgue mais dados sobre as vítimas ganhou peso nos últimos dois meses, graças a uma campanha iniciada pelo artista plástico Ai Weiwei, um dos mais conhecidos do país. Em seu blog, ele começou uma campanha para recolher o nome de todas as crianças que morreram no terremoto e assim homenageá-las, "pois o governo quer esquecê-las", escreveu.

Ele, que participou do desenho do Estádio Olímpico "Ninho de Passarinho", da Olimpíada de Pequim, é um dos mais populares blogueiros da China. O artista escreveu ontem sobre a divulgação do número pelo governo. "Um ano depois, nós só temos esse número vazio de 5335 estudantes perdidos, mas não há uma lista com nomes, com detalhes. Ninguém assumiu a responsabilidade pelo que aconteceu", escreveu.

Escrito por Raul Juste Lores às 05h36

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Obrigado por fumar

Uma prefeitura chinesa precisou anular ontem um decreto que obrigava os funcionários públicos a fumarem mais para ajudar a reanimar a economia local. Por um mês, a prefeitura de Gong’an, na Província de Hubei, centro da China, determinou que todos os empregados locais, incluídos professores, fumassem 230 mil maços da marca de cigarro local até o fim do ano.

A força-tarefa visava aumentar a arrecadação de impostos e estimular a economia da cidade de 900 mil habitantes. A excentricidade era maior porque previa um gasto mínimo por repartição em cigarros, com orçamento municipal. O excesso tabagista seria pago com dinheiro público.

A lei municipal causou escândalo na internet chinesa e a prefeitura colocou em seu site um comunicado sucinto dizendo que o decreto fica sem efeito, sem dar mais detalhes.

O movimento contra o fumo ainda passa longe da China. Há 350 milhões de fumantes no país (contra 14 milhões no Brasil). Seis entre cada dez homens adultos na China fumam. A população fumante na China é maior que todos os habitantes de Brasil, México e Argentina juntos.

São raríssimos os fumódromos ou os espaços para os não-fumantes em restaurantes ou bares. Karaokês e lanchonetes vivem enfumaçados.

Talvez o principal motivo para a fortaleza do fumo no país e a ausência de políticas antitabagistas seja a importância para os cofres do governo _ o cigarro é monopólio estatal. A arrecadação com impostos sobre cigarros chegou a US$ 45 bilhões em 2008, 3,5 vezes o orçamento da Prefeitura de São Paulo ou quase cinco vezes o lucro da Vale.

Parte da indústria do cigarro está nas mãos das Forças armadas chinesas, o Exército de Libertação do Povo. Quem também ganha com o vício chinês é o Brasil, de onde sai parte da matéria-prima. 53% das importações chinesas de tabaco são do Brasil, seu maior fornecedor. As vendas brasileiras superam os US$ 250 milhões.

No ano passado, meses antes da realização da Olimpíada, a prefeitura de Pequim aprovou lei obrigando a criação de espaços a não-fumantes e proibindo o fumo em pistas de danças e em bares fechados. A lei não pegou.

Escrito por Raul Juste Lores às 05h03

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PERFIL

Raul Juste Lores Raul Juste Lores, 33, correspondente da Folha em Pequim. Foi correspondente em Buenos Aires e editor de Internacional da Revista Veja e apresentador e editor-chefe do Jornal da Cultura, na TV Cultura.

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