Raul na China
raulnachina
 

Ópera de Pequim pop?

Para quem não viu na Ilustrada de ontem, está aqui a reportagem que fiz sobre o esforço do governo chinês em voltar a popularizar a Ópera de Pequim (e o sucesso do filme Mei Lanfang, que ajuda). O trailer do filme está acima e uma ópera de verdade abaixo. As crianças merecem ou não?


O Festival de Berlim vai assistir no mês que vem a uma nova tentativa de deixar a Ópera de Pequim mais pop.
Chen Kaige, diretor de "Adeus, Minha Concubina", vai apresentar "Encantador para Sempre", sua biografia de Mei Lanfang, o maior ator do gênero em todos os tempos, famoso pelos falsetos e só por interpretar papéis femininos da forma mais lânguida possível (mulheres não podiam representar até os anos 50). O filme estará na mostra competitiva do festival alemão, concorrendo a um Urso de Ouro, que será entregue ao vencedor em fevereiro.
Depois de ser combatida por décadas pelo regime comunista, como arte burguesa e contrarrevolucionária, a Ópera de Pequim foi reabilitada pelo próprio Partido Comunista. Hoje, o governo pretende recuperar o sucesso dessa arte minoritária que já foi considerada a grande expressão chinesa.
A rede estatal de televisão CCTV criou um canal para a ópera, e um luxuoso espaço foi inaugurado em Pequim no final do ano passado, o teatro Mei Lanfang, com 1.035 lugares. A Prefeitura de Pequim também decidiu colocar a ópera no currículo das escolas públicas de ensino médio.
Segunda produção chinesa mais vista no país em 2008, ainda em cartaz, o sucesso de "Encantador para Sempre" mostra que há muita curiosidade por Mei, que na China é reverenciado quase como os argentinos tratam Carlos Gardel.
Mei (1894-1961) foi a primeira (e única) estrela internacional da Ópera de Pequim, apresentando-se no Japão, nos Estados Unidos e na Rússia nos anos 30, e recebendo elogios de fãs como Charles Chaplin e Bertold Brecht.
No filme, Mei é interpretado pelo cantor pop Leon Lai, de Hong Kong, e Zhang Ziyi, atriz de "O Tigre e o Dragão" e "2046", vive uma de suas três mulheres.
Sua ambígua sexualidade fica em segundo plano. No filme, o patriota Mei é que ganha mais espaço. Ele se nega a interpretar para os japoneses durante a ocupação do país pelo Japão, no final dos anos 30, e até deixa a barba crescer. De arte burguesa, a Ópera de Pequim virou demonstração de patriotismo e nacionalismo.
"A Ópera de Pequim é a mais completa forma de arte existente no mundo", proclama a atriz Sun Ping, estrela da ópera e diretora do Centro de Estudos Dramáticos Nacionais, da Universidade do Povo da China, na capital chinesa. "Ela une canto, dança, artes marciais, teatro e poesia, é a essência da cultura", diz à Folha.
Sun é integrante do Conselho Consultivo do Congresso chinês e, como membro do Partido Comunista, defende os esforços para deixar a Ópera mais acessível aos jovens.
"Sou de uma geração que conheceu apenas as peças aprovadas pelo governo, em que muitos atores foram perseguidos. Hoje estamos recuperando as tradições chinesas", ela conta.
Nos anos 60 e 70, no auge da Revolução Cultural, apenas oito peças aprovadas pela mulher do ditador Mao Tsé-tung podiam ser representadas.

Gato sob tortura
A preparação dos atores é um processo de até oito anos de estudo. No segundo ano, professores eliminam os alunos que, segundo eles, não têm características físicas ou boa voz. Várias faculdades criaram centros de estudos especiais.
Cerca de 120 escolas municipais pequinesas, com alunos de 11 a 14 anos de idade, têm aulas de canto e performance da Ópera de Pequim.
A política é polêmica. Em blogs e fóruns na internet, jovens chineses têm dito que o que eles querem mesmo ouvir é rap e hip-hop, não ópera por obrigação. Detratores comparam os trinados dos cantores ao som de um gato sob tortura.
"Acho que a Ópera de Pequim não é excludente. Os jovens podem ouvir de tudo, mas é importante que eles pelo menos aprendam e tenham conhecimento da riqueza cultural de seu país", diz Sun Ping.

 

Escrito por Raul Juste Lores às 17h29

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

A mulher de duas cabeças

Continuando meu giro pelas quermesses do Ano Novo Chinês em Pequim, dei de cara com este circo em um parque público.

As atrações são a mulher que beija uma cobra, o homem que rompe correntes de ferro no peito, outro que coloca uma minhoca no nariz e a tira pela boca. Paguei 10 yuans (R$ 3,33) para ver o circo, em nome do multiculturalismo.

e eis a mulher de duas cabeças, fotografada pela minha amiga Isolda Morillo, da AP:

Felizmente não dá para ver quase nada e a segunda cabeça talvez seja uma boneca ou qualquer outra coisa. De qualquer maneira, pobre jovem.

Como ultimamente até notas de 100 yuans retiradas em caixas eletrônicos podem ser falsas, a enganação me pareceu parte do espírito do tempo. O circo está instalado em um parque na região central da capital chinesa. Voltamos ao parque para ver os dinossauros que se mexem e urram, bem mais inofensivos.

Escrito por Raul Juste Lores às 03h30

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Postais do Ano Novo Chinês 2

Ano do Boi no horóscopo chinês, tem bois e vacas por toda a parte

mais cenas no Parque Ditan

Escrito por Raul Juste Lores às 08h39

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Postais do Ano Novo Chinês

Sempre pensei que o recorde de gente esprimida por metro quadrado fosse o do metrô de Pequim às seis da tarde, quando mal consigo colocar os pés no chão. O novo recorde no meu Datafolha pessoal é o do parque Ditan, hoje à tarde, no feriadão do Ano Novo Chinês. A cidade está vazia _ mais da metade da população viajou _, mas quem ficou parece querer aproveitar as quermesses nos parques das cidades. Eu dei minha contribuição à superpopulação do Ditan.

parque Ditan hoje de manhã, e olha que é preciso comprar ingresso (a entrada nos parques varia, neste custa 10 yuans, cerca de R$ 3,3). raro momento em que consegui tirar foto sem ser levado pela maré.

barraquinhas de fogos de artifício por todas as partes. os fogos não fazem show aqui _ a ideia é que façam muito barulho para espantar os maus espíritos. há explosões diárias da manhã à noite. já me acostumei.

a rua movimentada do meu bairro hoje vazia...

para fugir do frio (-7ºC), todo figurino é válido.

as fotos são minhas, já deu para notar... alguém conhece um bom curso de fotografia aí?

 

 

Escrito por Raul Juste Lores às 08h23

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Retorno à enxada

O Ano Novo Chinês é celebrado em poucas horas, em 26 de janeiro, pelo Calendário Lunar. Esta reportagem que publiquei na Folha fala dos milhões de retirantes chineses que foram passar as festas no interior com a família, mas que não sabem se voltarão. Os empregos na construção civil e nas fábricas voltadas à exportação estão desaparecendo como fogos de artifício. A vida deles é duríssima nas cidades grandes, mas, pelo que eles dizem, o campo chinês ainda é pior.

Para turistas estrangeiros e emergentes chineses, o exército de retirantes é quase invisível. Diferentemente do Brasil, não é muito comum ver os migrantes se instalando em favelas e assentamentos irregulares ao redor das grandes cidades.
A maioria dorme em beliches em dormitórios gigantes ao lado do emprego, seja uma construção ou uma fábrica. Faxineiras e seguranças de prédios comerciais costumam morar em dormitórios instalados no subsolo dos próprios prédios.
Por isso, poucos podem trazer a família. Levam uma vida solitária. Onde eles parecem maioria absoluta é na superlativa estação ferroviária Pequim Oeste. Ao redor da estação está a China que o Partido Comunista mais esconde: conjuntos habitacionais decrépitos, crianças sujas pedindo dinheiro e diversos ambulantes.
Na Pequim Oeste, enquanto esperam os trens ao campo, perguntam-se se restam oportunidades nas grandes cidades. "Meus quatro filhos e eu deixamos o campo há muito tempo", diz o pedreiro Li, 58 (foto abaixo). Como a maioria dos migrantes ouvidos pela Folha, ele se nega a dar o nome completo e fica nervoso diante do fotógrafo. Na China, conversar com jornalistas estrangeiros ainda pode resultar em encrenca com o governo.
Ele ganha 60 yuans por dia (R$ 20), trabalhando dez horas de jornada, sem descanso nem no final de semana. "Na lavoura, levo duas semanas para fazer o mesmo dinheiro", conta. Mesmo sem achar trabalho recentemente, diz que vai voltar.

Ano do Boi
Os retirantes aproveitam a semana de feriados pelo Ano Novo Chinês, conhecida como "Festival da Primavera", apesar das temperaturas polares, para visitar familiares. O Ano Novo é determinado pelo calendário lunar. No horóscopo chinês, é o Ano do Boi, e há boizinhos e vaquinhas vermelhos e dourados na decoração da cidade.
Sem trabalho e para evitar a superlotação de trens, milhares viajaram antecipadamente.
"Vou duas semanas antes porque está difícil achar trabalho", diz o pedreiro Lin, 53. Ele trabalha há seis anos, ganhando 80 yuans por dia (R$ 26), e reclama que o salário não melhorou nesse tempo.
No país, como as terras pertencem ao Estado, todo camponês tem direito a seu pedacinho de terra. Isso dificulta o crescimento de um agronegócio moderno, mas mantém milhões com o básico para sobreviver.
Nesta semana, o governo anunciou um pacote de 9 bilhões de yuans (R$ 3 bilhões) para dar dinheiro às famílias mais pobres do país, como presente pelo Ano Novo Chinês.
Cerca de 74 milhões de chineses, que vivem com menos de R$ 2 por dia, receberão 100 yuans (R$ 33) se moram na zona rural e 150 yuans (R$ 50) se nas cidades.

Fotos: Ben Marcom/Folha Imagem

Escrito por Raul Juste Lores às 09h24

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

China em recessão?

 


A economia da China cresceu 9% em 2008, a pior taxa em sete anos. No último trimestre, o crescimento foi de 6,8% em relação a 2007.
A terceira maior economia do mundo, a única entre as grandes que deve crescer em 2009, está sob uma desaceleração bem maior que a prevista pelo governo. A estimativa oficial era que em 2008 o PIB crescesse 9,7%, e, em 2009, 8%.


Economistas têm dito que a China só deve crescer entre 5% e 6% neste ano. A média de crescimento do PIB nos últimos 30 anos foi de 9,8%.
Como a China é responsável por 20% do crescimento mundial, a desaceleração afeta diversas economias do mundo, como a brasileira. A China é o segundo principal parceiro comercial do Brasil e importou no ano passado US$ 16,4 bilhões em produtos brasileiros.
Também há temores de que a China "inunde" o mercado brasileiro com os produtos que ficaram sem compradores pela recessão de EUA e Europa.

Recessão para Roubini
Para o economista Nouriel Roubini, que ficou célebre ao ser o primeiro a prever a crise financeira e imobiliária nos Estados Unidos, a China já está em recessão.
"A China está em uma recessão, independentemente do que os altamente manipulados números oficiais digam", escreveu o professor da Universidade de Nova York em sua página na internet.
"Quando o crescimento está se reduzindo de forma tão agressiva, a maneira chinesa de se medir o PIB pode despistar."
Diferentemente de Estados Unidos e União Europeia, as estatísticas chinesas do PIB comparam o trimestre com o mesmo período do ano passado, e não com o trimestre imediatamente anterior.
A comparação ano a ano não registra a desaceleração no final de 2008 porque o crescimento foi maior em trimestres anteriores, diz o economista.
A queda no consumo de energia e a crise na indústria manufatureira sugerem que a economia está em recessão, afirma Roubini.
Em outubro e novembro, o consumo de energia elétrica caiu 3% e 7%, respectivamente, em relação a 2007. Indústrias de alto consumo energético, como siderúrgicas e de cimento, estiveram trabalhando em capacidade mínima, por conta da crise imobiliária e pela queda das exportações -que encolheram 2,8% em dezembro.
O Índice de Preços ao Consumidor (IPC) aumentou apenas 1,2% em dezembro em relação ao mesmo mês de 2007, depois de subir 2,4% em novembro. Em fevereiro, havia subido 8,7%. A média anual do IPC foi de alta de 5,9%.

Governo otimista
Ainda que o crescimento de 6,8% no último trimestre possa parecer vigoroso na maior parte do mundo, o governo chinês costuma dizer que precisa de um crescimento do PIB de 8% ao ano para conseguir gerar empregos para os 10 milhões de chineses que migram anualmente do campo para as grandes cidades atrás de ocupação.

Para ler mais, clique aqui: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi2301200920.htm

Foto: Xinhua (o primeiro-ministro Wen Jiabao visita montadora)

Escrito por Raul Juste Lores às 09h07

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Saudades de Bush

Jornais chineses de hoje:

O "Beijing Evening News", popular tablóide, diz que "o conservadorismo, a sinceridade e estilo pé no chão de Bush só o fizeram ganhar pontos" entre os chineses. Já a blogueira e jornalista Rose Luqiu, da Phoenix TV, disse que o "carinho" de Bush pela China fez que a relação entre os dois países "renascesse". Antes, Global News e o Diário do Povo tinham falado da "simpatia do povo chinês pelo presidente Bush". No geral, o ex-presidente deixará saudades, de acordo com a imprensa chinesa.

 

Escrito por Raul Juste Lores às 15h53

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Irmão de Obama é anônimo na China

Na China, onde nenhum sinal de obamania deu as caras, um irmão de Barack Obama conseguiu manter o anonimato. Mark Ndesandjo, 33, mora há sete anos no sul do país e é filho de Ruth, terceira esposa do pai de Obama. Nasceu no Quênia e foi criado nos EUA, onde estudou nas universidades Brown e Stanford. Usa o sobrenome do padrasto.
Ndesandjo vive em Shenzhen, a metrópole chinesa vizinha a Hong Kong que simbolizou a abertura econômica do país há 30 anos. Na China, onde a posse de Obama não foi transmitida na íntegra por nenhum dos 12 canais da rede estatal CCTV, ele é um desconhecido.
Na última sexta-feira, ele tocou piano em um evento filantrópico em comemoração ao Ano Novo Chinês da Câmara Americana de Comércio em Shenzhen. Ele dá aulas de piano em um orfanato local.
Não se sabe bem sua profissão - já foi apresentado como consultor de empresas chinesas que exportam para os EUA e como consultor estratégico de marketing pela Câmara Americana. Em tempos de crise, preferiu não abrir suscetibilidades com negócios. Apesar de vegetariano, o meio-irmão de Obama também é sócio de uma rede de churrascarias na cidade, a "Cabin BBQ".
Ndesandjo tocou no evento o primeiro Noturno, de Chopin, uma canção chinesa e jazz. Vestia uma camisa de seda marrom típica chinesa, com os botões formados por nós.
Apenas em julho passado ele contou a seu sócio chinês que era irmão de Obama. Nunca deu uma entrevista sobre o tema e se negou a falar com jornalistas presentes ao evento da semana passada.
Pouco se sabe sobre a relação entre os irmãos, apesar de amigos terem confessado a jornais locais que Ndesandjo viajaria para Washington no fim de semana para ver a posse.
Em sua biografia "A origem dos meus sonhos", Obama se refere ao irmão no dia em que a família visitou o Quênia. Enquanto o hoje presidente ficou deslumbrado, o irmão mais novo disse que era "apenas mais um país africano miserável".
Questionado por Obama, ele retruca, "sim, perdi minhas raízes". Ele tem a cabeça raspada, um fino bigode e um brinco dourado na orelha esquerda. É casado com uma jovem chinesa, fala mandarim e confidenciou a amigos que acaba de terminar um livro, cujo título é "De Nairóbi a Shenzhen".

Foto: Shenzhen News

Escrito por Raul Juste Lores às 15h34

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Na China, sem Obama

As cerimônias pela posse de Obama começaram às 23h de Pequim, com todo aquele ritual que antecedeu o esperado juramento e o discurso. Nenhum dos 12 canais da rede estatal CCTV cobriu o evento ao vivo. O canal de notícias mostrou um trechinho e só. O discurso aconteceu por volta da meia-noite e meia daqui, e os canais chineses mostravam programas de televendas, reprises de telenovelas, um velho musical e um programa que falava de exército. Canais a cabo estrangeiros são privilégio da minoria mais abastada e de estrangeiros em Pequim e Xangai. A obamamania não chegou aqui.

 

Escrito por Raul Juste Lores às 15h59

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Provocação contra o dalai-lama

 

O governo chinês decidiu criar uma data comemorativa para celebrar a libertação de "servos e escravos" do Tibete no próximo 28 de março.

Nesse dia, em 1959, o regime comunista de Mao Tsé-tung oficialmente acabava com o regime "aristocrático do Tibete", nas palavras do governo, após ter derrotado uma tentativa de golpe liderada pelo dalai-lama, então com 23 anos de idade.

Em 1950, forças comunistas invadiram a Província e tomaram o poder, que era exercido de forma teocrática pelo dalai-lama, líder político e religioso. Autonomia e domínio pela China se revezaram por séculos na região de população budista nas alturas do Himalaia.

A criação da data reforça os temores de confrontos e mais repressão na Província separatista. A dissidência tibetana, dos budistas que vêem o dalai-lama como líder religioso e político, comemora todo 14 de março a tentativa fracassada de golpe contra o regime chinês em 1959. Neste ano, comemora-se o cinquentenário da rebelião.

Nas últimas semanas, o governo chinês tem aumentado a repressão contra a dissidência. Intelectuais que assinaram no mês passado um manifesto pela democratização e respeito aos direitos humanos, chamado de Carta de Direitos 8, nome inspirado por um movimento similar na antiga Tchecoslováquia (a Carta 77), foram presos.

Um blog que servia de espaço para opositores foi bloqueado e jornalistas que publicam reportagens críticas têm sido removidos de cargos de chefia em publicações chinesas.

Ataques ao dalai

O Comitê do Congresso do Povo do governo do Tibete aprovou no domingo a data comemorativa, mas a decisão só foi noticiada ontem. Os 382 deputados aprovaram a proposta por "unanimidade", como é comum no Legislativo chinês.

"Isso significou o fim da servidão e a abolição do sistema social hierárquico caracterizado pela teocracia, com o dalai-lama como líder", explicou a agência estatal Xinhua em texto divulgado ontem, que afirma que 90% da população tibetana em 1959, de 1,1 milhão, era formada por escravos e servos.

"Essa data deveria ter sido estabelecida antes", disse à Xinhua um dos deputados, o empresário Gaisang, 62 (muitos tibetanos só possuem um nome próprio, sem sobrenome).

"Precisamos de lembrar essa data para confortar os mais velhos e lembrar os mais novos", disse. Gaisang também disse que servos eram vendidos e comprados como animais. "Se você desobedecesse seus patrões, você recebia pelo menos 50 chicotadas".

Nos últimos anos, os ataques ao dalai-lama se intensificaram na imprensa chinesa. A China cancelou uma cúpula sino-européia em dezembro alguns dias antes do presidente da França, Nicolas Sarkozy, encontra-se com vários prêmios Nobel da Paz, entre eles o dalai-lama.

Nos anos 60 e 70, centenas de mosteiros foram destruídos e o budismo foi perseguido na região.

Em março do ano passado, a repressão policial contra protestos de monges terminou em distúrbios onde morreram pelo menos 20 pessoas e que deixaram mais de mil presos. Jornalistas estrangeiros só podem visitar o Tibete nas raríssimas ocasiões em que o governo chinês permite. Mesmo turistas estrangeiros só podem visitar a Província separatista em grupos, escoltados por guias turísticos do governo e não podem se ausentar dos hotéis sem acompanhamento. Vários mosteiros budistas se encontram fechados desde os protestos de março.

Foto: AP

Escrito por Raul Juste Lores às 07h04

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

O comércio da China em queda

As exportações e importações da China caíram pelo segundo mês consecutivo em dezembro, na maior queda desde 1999. As importações caíram 21,3% em relação a dezembro de 2007 e as exportações caíram 2,8%, pelos valores em dólares.

Até outubro, o governo chinês garantia que o país estava imune da crise financeira global. O baque nas exportações chinesas fica maior se a conta for feita pelo valorizado yuan, a moeda chinesa. Em yuans, a queda nas exportações foi de 9%.

Há tensão no país quanto a possibilidade de novos milhares de desempregados por conta na queda das vendas de produtos chineses pelo mundo. Cerca de 20 milhões de chineses trabalham nas fábricas de mão de obra intensiva voltadas exclusivamente à exportação. A economista Ma Xiaoping, do HSBC, estima que as exportações chinesas caiam cerca de 20% nos próximos meses em relação ao mesmo período do ano passado.

"As importações continuarão fracas a curto prazo porque a demanda para matérias primas e peças intermediárias está em baixa entre os industriais", disse à Folha a economista Jing Ulrich, diretora da China Equities do banco JP Morgan.

Apenas na Província de Guangdong, a mais populosa do país, 60 mil empresas fecharam em 2008. O governo está oferecendo restituições de impostos a exportadores para compensar a crise.

Em 2008, mais de 5.000 fábricas de brinquedos para exportação fecharam em Guangdong, de acordo com a Associação de Fabricantes de Brinquedos de Hong Kong. 2 milhões de empregos desapareceram no setor.

Parte da queda nas importações chinesas se explica pela redução de preços de matérias primas compradas pela China, mas também pela queda na demanda interna.

Os dois principais mercados da China, a União Européia e os Estados Unidos, estão em recessão. Juntos, eles ficam com mais da metade das exportações chinesas.

Em novembro, as exportações já tinham caído 2,2% e as importações, 17,9%.

Otimismo do governo

Os números negativos contrastam com a retórica do governo. O primeiro-ministro, Wen Jiabao, disse na segunda-feira que a China seria a primeira grande economia do mundo a sair da crise e que havia motivos para estar otimista.

O consumo de energia elétrica caiu nos últimos três meses, principalmente pela desaceleração da atividade industrial. Em comparação com 2007, a queda em outubro foi de 3,69%, a de novembro, 8,14%, e a de dezembro, 8,93%, segundo o Conselho de Eletricidade da China. Indústrias que consomem muita energia, como siderúrgicas e de cimento estão entre as mais afetadas pela crise no país.

O crescimento na venda de automóveis foi o menor da década, de 6,7% em relação a 2007, segundo a Câmara Automobilística da China. No ano anterior, a alta tinha sido de 21,84%.

As vendas chegaram a 9,38 milhões de unidades em 2008, o que faz o país ser o segundo maior mercado de automóveis no mundo. Até 2000, a propriedade de carros particulares era mínima no país.

Escrito por Raul Juste Lores às 16h08

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

2 mil horas de mandarim

O advogado carioca Rodrigo Moura, 35, vive em Xangai desde maio passado estudando chinês. Ele tem seis horas de aula por dia, sem contar as duas horas de lição de casa. Moura pertence ao crescente número de estudantes estrangeiros na China, 190 mil em 2008. Há dez anos, eram apenas 60 mil.

A maioria vem estudar a língua e a história da nova superpotência asiática. "Comecei a estudar em 2005 no Rio, tinha muitos clientes asiáticos em meu escritório", diz Moura. "Hoje o interesse é mais cultural, e posso tanto viver no Brasil, como procurar emprego na China".

As duas principais universidades do país, a de Pequim e a Tsinghua, ambas na capital, oferecem cursos intensivos de quatro meses, com 20 a 30 horas de aulas por semana. O curso na Beida, como é conhecida a Universidade de Pequim, custa 13.600 yuans (R$ 4.530), e o da Tsinghua custa 10.500 yuans (R$ 3.500).

Moura, que tirou um ano sabático e fica estudando pelo menos até o final de março, paga 11 mil yuans (R$ 3.630) por mês para ter direito a aulas particulares pela tarde e em grupo pela manhã. Somando hospedagem e alimentação, ele calcula gastar perto de US$ 3.000 mensais em sua temporada chinesa. "Já consigo conversar, fazer compras, viajar, mas ainda não dá para trabalhar, pode levar anos", diz.

Especialistas calculam que para se acostumar aos tons do idioma _ cada vogal tem pelo menos quatro tonalidades diferentes _ são necessárias 2.000 horas de estudo aplicado. Significa 15 horas por semana durante três anos. Para escrever e ler com fluência, podem ser necessários oito anos de estudo dedicado.

Estudantes de vários países têm encarado o desafio. O número de estudantes americanos na China cresceu 25% entre 2007 e 2008. Já é o quinto maior destino dos americanos, atrás de Reino Unido, Itália, Espanha e França. Há 12 mil americanos estudando na China _ eram apenas 1300 há dez anos. A importância comercial chinesa alavancou o interesse. "Antes os alunos vinham por mistério ou exotismo, hoje eles encaram como um mercado", diz Russell Moses, diretor de um colégio para estrangeiros em Pequim.

A veterinária paulistana Andréa Alves Teixeira, 30, já trabalhava como acupunturista e tinha interesse pela cultura chinesa, mas se convenceu a estudar por conta do namorado, que tem uma empresa de importação e exportação. "Ele tem intérpretes, mas precisava de alguém de confiança para vir com frequência a China", ela diz, em Xangai, onde vive há dois meses, depois de estudar seis meses o idioma no Brasil.

O caminho inverso também está em alta. Mais de 200 mil chineses estudam em universidades estrangeiras, principalmente nos Estados Unidos, Reino Unido e Austrália. Nos Estados Unidos, são 70 mil, o maior grupo de estrangeiros, depois dos indianos.

Escrito por Raul Juste Lores às 01h48

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

Raul Juste Lores Raul Juste Lores, 33, correspondente da Folha em Pequim. Foi correspondente em Buenos Aires e editor de Internacional da Revista Veja e apresentador e editor-chefe do Jornal da Cultura, na TV Cultura.

BUSCA NO BLOG


ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha Online. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha Online.