Raul na China
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30 anos de abertura, por Jia Zhang-Ke

 

 "Aos seis anos, nós ainda passávamos fome normalmente, a primeira TV chegou em 1978 e só conheci Bruce Lee e os filmes de kung fu nos anos 80." Jia Zhang-ke, 38, considerado o maior nome da chamada Sexta Geração de cineastas chineses, conta à Folha o que significa para ele os 30 anos de reformas econômicas. Mas alerta que "existe a China decorada, de Pequim e Xangai, e a China real de 800 milhões de camponeses que são muito pobres". Migrantes rurais, operárias têxteis e gente que foi despejada para dar lugar à construção da usina de Três Gargantas habitam seus filmes. Ele venceu o festival de Veneza de 2006 com "Em Busca da Vida", e alguns de seus 10 longas-metragens foram exibidos no Brasil, como "O Mundo", "Plataforma" e "Prazeres Desconhecidos". O último, "24 City", concorreu no último festival de Cannes. Jia produziu um filme rodado em São Paulo, "Plastic City" e esteve na Mostra de Cinema de São Paulo em 2006. Pretende voltar na próxima edição.
Considerado um dos poucos grandes cineastas chineses que ainda não foi cooptado pelo Partido Comunista, ele avalia as reformas e a crise econômica chinesa na entrevista abaixo.

FOLHA - Você tinha oito anos quando a abertura começou. Quais eram as mudanças mais nítidas?
JIA ZHANG-KE
- Houve uma evolução material inegável nesses 30 anos. Meus pais são membros do Partido Comunista, ele professor de chinês, ela vendedora de loja de departamentos. Nasci em 1970 e lembro que ainda passávamos fome e tínhamos pouco o que comer em 1976. Só em 1978, tivemos a primeira televisão, que foi dada pela "unidade de trabalho" da minha mãe, e em 1982, a primeira máquina de lavar. Até o final dos anos 70, a diversão era ver filmes de propaganda comunista e ir a museus ver peças "revolucionárias".

FOLHA - Quando você se deu conta das mudanças?
JIA
- Nos anos 80, surgiu um submundo. Chegavam fitas cassete piratas de Taiwan e Hong Kong com músicas modernas, e vimos os primeiros filmes de Bruce Lee e Jackie Chan, do kung fu de Hong Kong. Minha mãe assistia a Escrava Isaura todos os dias. Foi um grande impacto. Viajar de uma Província para outra sem precisar de autorização do chefe da sua unidade de trabalho também foi um alívio.

FOLHA - Seus filmes mostram os chineses que menos se beneficiaram da prosperidade econômica.
JIA
- Apesar do progresso material, há enorme pressão psicológica, insegurança. E não dá para deixar de mostrar os que foram deixados para trás. Há a China decorada, Pequim, Xangai, que querem parecer Nova York, mas há 800 milhões de camponeses pobres, a maioria, que vive longe da China decorada. Se você chega a Pequim de avião, vê os arranha-céus, o aeroporto, as grandes vias. Mas se chega de trem ou ônibus, vê uma cidade pobre. Como faltam críticos neste país, acho que é papel dos artistas lembrar que os pobres existem.

FOLHA - Há milhares de fábricas fechando na Província de Cantão e o desemprego cresce na China, sobretudo entre os 200 milhões de migrantes rurais. Essa crise pode mudar a relação entre povo e governo?
JIA
- É difícil prever, mas se as fabricas continuarem a fechar, não duvido que milhões voltem para o campo, onde têm terra. A China ainda é um país profundamente agrário. A vida em algumas de nossas grandes cidades é pior que no campo. Veja os operários das grandes fábricas, eles vivem do dormitório para a linha de montagem, de domingo a domingo.

FOLHA - Você acaba de rodar um curta publicitário dos dez anos de uma revista, e destaca vários fatos importantes da década. Se tivesse que fazer a mesma coisa dos últimos 30 anos, o que acrescentaria?
JIA
- Precisaria mostrar um tabu, que é o que aconteceu na Praça da Paz Celestial em 1989. Foi um grande passo para trás para aqueles que querem liberdade e democracia. Muita gente acha que os jovens chineses só querem dinheiro, mas eu digo que nem todos são assim.

FOLHA - Há interesse entre os jovens sobre esse passado recente?
JIA
- A geração que nasceu nos anos 80 não sabe nada do massacre, é nosso dever contar. Desejo que a China mude mais o sistema político, não só o econômico. Mas hoje ainda seria impossível obter permissão para falar desse assunto, mesmo em um curta-metragem.

FOLHA - "Em busca da vida" fala dos milhões de pessoas que foram despejadas para a construção da usina de Três Gargantas, outro tabu, em um país onde remoções são freqüentes. Como driblou a censura?
JIA
- Meu roteiro original, apresentado à Administração Estatal de Cinema, Rádio e Televisão, falava apenas que era uma história de amor. Foi aprovado, mas mandaram seis espiões/censores para vigiar as filmagens. Como rodamos em prédios em ruínas, muito úmidos e quentes, eles só agüentaram alguns dias. Temos que fazer cinema do jeito chinês. Cabe a nós contornar a censura.

FOLHA - Então o que se vê no cinema é o que você queria filmar?
JIA
- A única cena cortada foi quando duas estátuas, uma de Mao Tsé-tung e outra de Karl Marx, ruíram em meio às obras. Não deixaram inclui-la no filme. Trabalho dentro do sistema, tento mudá-lo de dentro.

FOLHA - Em "O Mundo", você mostra um parque de diversões repleto de réplicas de monumentos históricos ocidentais, cujos funcionários são migrantes rurais. Você ironiza a ocidentalização da China.
JIA
- A ocidentalização é sinal de status. Veja os outdoors dos condomínios fechados de Pequim, todos falam de Roma, Miami. Nunca da China. Os jovens só querem saber de música ocidental. Mas há valores universais, como direitos humanos e igualdade, em que ainda precisamos avançar muito.

FOLHA - Uma explicação muito difundida sobre a China pós-massacre da Paz Celestial é que a juventude trocou a luta pela democracia por prosperidade. Você concorda?
JIA
- Em muitos casos, os jovens estão desorientados. Antes todos tinham trabalho, hoje há uma pressão enorme, insegurança. Muita gente jovem realmente só pensa em dinheiro, sucesso e forma física. Quando, na Olimpíada, não deixaram uma menina com uma bela voz cantar ao vivo porque não era "bonita", é um bom exemplo disso.

FOLHA - A Olimpíada não mudou a China.
JIA
- Muita gente como eu tinha esperanças de que a Olimpíada fosse abrir mais o país, democratizar um pouco, mas em alguns aspectos até parece que andou para trás.

FOLHA - No exterior, o cinema chinês é conhecido por produções de época como "O Tigre e o Dragão". É tabu falar da China atual?
JIA
- Os filmes de ação, com cenas de kung fu, dão ótimas bilheterias aqui e no exterior, os produtores querem. E fazer produção de época nos tempos imperiais é mais seguro, não tem atritos com a censura.

FOLHA - Seu próximo filme tem artes marciais e é de época.
JIA
- Para mim, kung fu é nostalgia. Mas o pano de fundo é diferente, o filme se passa em 1905, época em que a China queria se tornar uma potência mundial. Meio como agora.

FOLHA - Você já sente a crise aqui?
JIA
- Nesta época de Natal, eu dirijo cinco filmes publicitários em um mês. Até agora, só tenho dois projetos. Somos parte de um mundo em crise, não é?

post especial para a Lucia Monteiro, que também adora este cineasta. E bom 2009 para todos vocês, saudações de Pequim!

Fotos: AP

Escrito por Raul Juste Lores às 13h57

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A Grande Fome

"Aos 18 anos de idade, eu só comia arroz. Não tinha outro vegetal, nem carne, nem óleo, só arroz o dia inteiro. Meu pai morreu de fome esse ano, assim como outros conhecidos. Mas achávamos que fossem casos isolados, o controle da informação na China era total."
O jornalista Yang Jisheng, 67, passou os últimos 20 anos tentando desvendar o porquê das 36 milhões de mortes que aconteceram entre 1959 e 1961, até hoje um dos maiores tabus do Partido Comunista Chinês.
Yang acaba de publicar "Mu Bei" (lápide). Em 1.100 páginas, dividas em dois volumes, ele descreve a chamada "grande fome" com centenas de fontes e cópias de documentos oficiais. Conta casos de canibalismo -de famílias que devoravam cadáveres de parentes a pais que mataram seus filhos para se alimentar de seus corpos.
Houve casos de cadáveres mantidos por familiares na cama, que diziam às autoridades "ali está o primo doente" para poder continuar a receber a ração de arroz do defunto. O autor ouviu sobreviventes admitirem ter comido cães e ratos e dá detalhes de como o governo conseguiu esconder a tragédia.
A fome foi provocada por uma desastrada campanha do ditador Mao Tse-tung. Chamada de "Grande Salto Adiante", ela tirou milhões de camponeses da lavoura para tentar industrializar a China à força.
Enquanto fundiam ferro, a produção agrícola minguava.
Em 1959, a União Soviética rompeu unilateralmente com o regime comunista chinês. Mao começou a pagar suas dívidas com os soviéticos com comida. Milhões de grãos de uma produção em declínio foram desviadas para o vizinho do norte.
"Havia armazéns cheios de grãos, mas houve poucos saques. As pessoas morriam sem saber o que fazer. Rádios e jornais, todos do governo, diziam que o país caminhava para ser uma potência. Ninguém tinha coragem de criticar o governo, após temporadas de expurgos", disse Yang à Folha.

Socorro proibido
Em Xinyang, cidade na Província de Henan, cerca de 10 mil cartas de pessoas pedindo ajuda a parentes foram retidas no correio local. Até líderes comunistas locais eram proibidos de pedir socorro.
Na cidade, em 1958, 1,2 milhão de pessoas, um terço da mão de obra, foi escalada para fazer aço. A produção de grãos ali caiu 46,1% em um ano. Mas o governo local disse que a produção de grãos dobrou. "Prefeitos e governos provinciais maquiavam os números para impressionar Pequim, e o governo nacional supostamente não sabia o que acontecia", diz Yang.
Mais tarde, com centenas de cadáveres em qualquer vilarejo, o governo começou a atribuir a grande fome a "três anos de desastres naturais". "Médicos me contaram que, ao visitar pacientes, queriam dizer que o único remédio era comida, mas nem eles tinham coragem de falar a verdade", diz Yang.
Ali, testemunhas relataram que era comum se alimentar de fezes de cervo, "menos grudentas que as de outros animais".

Acesso privilegiado
Membro do PC, Yang trabalhou na agência estatal de notícias Xinhua entre 1966 e 2001, quando se aposentou. Ele passou pelos vários estágios do comunismo local: perdeu o pai, conseguiu estudar na prestigiada universidade Tsinghua, em Pequim, mas foi mandado para um campo agrícola no final dos anos 60, durante a Revolução Cultural, quando intelectuais e "trabalhadores burgueses" tinham de pegar na enxada.
Como jornalista da Xinhua, Yang conseguiu ter acesso a documentos oficiais e falar com autoridades que se negariam a tocar no assunto em outra situação: "Ninguém desmentiu minha pesquisa. Os números oficiais que obtive mostram que a população decresceu em 10 milhões em 1960, algo inédito na China de então".
Não só pelas mortes, mas pela queda de nascimentos. "Mulheres paravam de menstruar e a atividade sexual caiu", diz.
"Lápide" foi publicado por uma editora de Hong Kong e está proibido na China. Mas há dezenas de sites com o conteúdo completo para download. Com erros propositais na digitação do nome do autor e da obra, eles têm driblado o bloqueio da censura chinesa.

Escrito por Raul Juste Lores às 02h08

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Xepa em Wall Street

O discurso de aproveitar oportunidades em tempos de crise ganhou vários adeptos na China: empresas de caça-talentos querem selecionar desempregados ultraqualificados em Wall Street para as firmas chinesas, e imobiliárias promovem excursões para quem quiser comprar imóveis a preços convidativos na Califórnia.
A empresa de "head hunting" Career International enviou na semana passada alguns de seus caça-talentos para Nova York atrás de especialistas em finanças, em fundos de investimentos, economistas e banqueiros que estejam desempregados ou sob ameaça do desemprego pela crise em Wall Street.
A Career já colocou anúncios no "Wall Street Journal" e em seu website e vai visitar feiras de empregos nos EUA.
"A China tem carência de gerentes e CEOs com tanta experiência, é a melhor hora para se recrutar pessoal qualificado", disse à Folha a diretora para serviços financeiros da Career International, Arline Xu.
Ela diz que cem empresas chinesas já procuraram a Career para conhecer candidatos. Os salários variam de US$ 200 mil a US$ 500 mil por ano. A empresa adiantou para fevereiro o projeto de ter um escritório nos EUA, para facilitar o recrutamento.
Nossa preferência, diz, é por chineses que tenham morado muitos anos nos EUA e que pensem agora em voltar, ou em estrangeiros que topem o desafio de aprender mandarim.
Cerca de mil empresas de "head hunting" são criadas por ano na China. As mais antigas, como a Career, têm oito anos de existência.
Nos últimos anos, cerca de 90 estatais chinesas contrataram seus CEOs por meio de "head hunters", e até algumas universidades contrataram reitores estrangeiros para tentar se modernizar.
"Gerentes que tenham vivido nos EUA são considerados mais arriscados, mais ousados que os locais", diz a consultora Serena Rovai, autora de um estudo sobre trabalhadores chineses em multinacionais. "O ensino aqui é muito hierárquico, então muita gente se forma sem grande preparo."

Tartarugas-marinhas
A crise nos EUA promete mudar uma tendência comum nas últimas décadas, mesmo com o crescimento chinês: apenas 30% dos chineses que vão estudar nos EUA voltam ao seu país de origem.
Desta vez, haverá mais estudantes voltando que ficando. O Ministério da Educação chinês estima que, dos 81 mil chineses em universidades americanas, 50 mil voltarão neste ano, contra 25 mil em média até o ano passado.
Os chineses que vão estudar ou trabalhar no exterior são conhecidos no país como "tartarugas-marinhas". Mas é cedo para se saber se todas "elas" terão espaço na terra natal.
Depois de anos de crescimento econômico superior a 10% ao ano, estima-se que o PIB chinês deva crescer 6% em 2009, um número impressionante para qualquer economia madura, mas aquém das necessidades chinesas, país de renda per capita inferior a US$ 3.000.
Nem toda a China está no momento "aproveite as oportunidades". Estimativas extra-oficiais dizem que pelo menos 2 milhões de migrantes rurais já perderam o emprego neste ano pela crise na construção civil e pelo fechamento de fábricas no país, que exportavam para os mercados recessivos da União Européia e EUA. Como os do comentário abaixo...

Foto: AP

Escrito por Raul Juste Lores às 12h57

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Desemprego ronda os mais pobres

No domingo, o presidente da China, Hu Jintao, afirmou que o "mercado de trabalho em 2009 será impiedoso" e pediu a empregadores que tentem ajudar a quem busca emprego "e façam contribuições para promover a estabilidade e a harmonia social".
A Academia Chinesa de Ciências Sociais, principal centro de estudos pertencente ao governo, disse em sua publicação de previsões para 2009, lançado ontem, que o desemprego crescerá, apesar do pacote de estímulo de 4 trilhões de yuans (R$ 1,35 trilhão) anunciado pelo governo no mês passado.
"Mais empresas médias e pequenas fecharão e não poderão pagar os salários dos empregados, que aumentaram nos últimos anos. A falta de capital por conta da queda nas exportações vai afetar muito a taxa de desemprego", diz a publicação.
O estudo afirma que as condições de 150 milhões (do total de 210 milhões) de migrantes rurais que trabalham nas grandes cidades chinesas podem piorar no ano que vem pela falência de empresas que usam mão-de-obra intensiva, de têxteis à construção civil.
"Muitos migrantes não registram seu desemprego após serem demitidos, então estatísticas corretas não são disponíveis", diz a Academia.
O estudo também fala que 6,5 milhões de formandos das universidades chinesas terão mais dificuldades para achar empregos no ano que vem.

Foto: China Daily

Escrito por Raul Juste Lores às 12h45

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A desaceleração da economia chinesa

Novembro foi o pior mês para a produção industrial chinesa desde 1999. O crescimento no mês foi de apenas 5,5% em relação ao mesmo mês de 2007. Em outubro, a taxa havia sido de 8,2% -em março, recorde no ano, foi de 17,8%.
Desde os setores mais voltados à exportação, como têxteis, brinquedos e eletrônicos, até os mais domésticos, como siderúrgicas, eletrodomésticos e automóveis, sofreram desaceleração ou mesmo queda.
Novembro é o quinto mês consecutivo em que a produção industrial chinesa desacelera.
Dominique Strauss-Kahn, diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional, disse ontem em Madri que a China deve crescer 5% ou 6% no próximo ano. Para o governo chinês, o crescimento será de pelo menos 8% -inferior aos 11,9% registrados em 2007.

Fim do descolamento
Depois de passar o mês de setembro e parte de outubro alardeando uma suposta imunidade da economia chinesa à crise financeira desatada nos Estados Unidos, a mídia estatal passou a assumir os efeitos da crise no país.
A arrecadação fiscal chinesa caiu 3,1% em novembro, para R$ 130 bilhões, em relação ao mesmo mês do ano passado, motivada por cortes de estímulo e desaceleração econômica.
"A produção industrial chinesa deve cair mais ainda em dezembro, pois um crescente número de manufatureiros está cortando a produção por conta da demanda menor", disse à Folha a economista Jing Ulrich, diretora de China Equities do banco JPMorgan, em Hong Kong.
Para ela, mais fábricas irão fechar nos próximos meses. "A preocupação pelo desemprego crescente, pelo corte nos salários e pelo deslocamento dos migrantes rurais fez o governo tomar atitudes mais agressivas para apoiar indústrias de peso, como aço e automobilística."

Foto: Xinhua

Escrito por Raul Juste Lores às 12h40

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aos fãs de Jia Zhangke

O cineasta chinês Jia Zhangke ("O Mundo", "Still Life") fez um curta-metragem para comemorar os 10 anos da revista Modern Weekly _ ele é amigo do diretor da editora e adora a revista, que, segundo ele, já lhe dava espaço quando "fazia curtas underground". Jia diz que o filme também marca seus 10 anos no cinema. E um resumo da última década para muitos chineses.

 

Escrito por Raul Juste Lores às 12h08

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Sucesso brasileiro na China

O maior exportador de sapatos femininos da China, com 35 milhões de pares vendidos em 2007, é um gaúcho descrito pela revista britânica "The Economist" como um "empresário vitorioso da globalização".
Nascido em uma família de calçadistas em São Leopoldo, Ricardo Correa da Silva, 38, viu em primeira mão como era impossível competir com os preços chineses no mercado internacional. Para reverter o jogo, seu pai criou a Paramont Asia em Dongguan, no sul da China.
Hoje à frente dos negócios, Correa trabalha como agenciador -os clientes internacionais solicitam os sapatos e a Paramont cria amostras e vai atrás de fornecedores que possam produzir em tempo, qualidade e preço necessários.
Nos últimos anos, Correa virou sócio de quatro grandes fábricas chinesas e buscou fornecedores na Índia e no Vietnã. Ele fechou no ano passado a operação brasileira, que vinha definhando. Nesta entrevista, o empresário explica a crise que afeta o setor exportador chinês e como é fazer negócios no país.

CRISE DA NOVA CHINA
"Mais de mil fábricas de calçados fecharam neste ano, outras tantas devem fechar. O rendimento apertou. Houve queda na demanda externa e os custos aumentaram muito. O yuan se valorizou 20% em dois anos, os salários dos funcionários aumentaram e os custos trabalhistas também. Muitos empresários só conheceram as vacas gordas, têm administração antiquada: agora vem um momento de ajuste, de melhoria na gestão. A vantagem é que no Brasil passamos por várias crises, estamos preparados."

ANTIDUMPING
"Nós nos adiantamos à crise. Comecei a procurar fornecedores há quatro, cinco anos, em outras Províncias chinesas, por conta do encarecimento de Guangdong. Começava do zero, com fábricas que não trabalhavam para o mercado externo, que precisavam dar um "upgrade" em seus produtos, mandava nossos técnicos supervisionarem a operação. Também achei fornecedores na Índia e no Vietnã, não apenas por conta dos custos, mas porque, por exemplo, o que é produzido no Vietnã não é barrado por antidumping no México, onde a alíquota para produtos chineses é mais alta."

SEM RIVAIS
"Não há outra China. Mesmo no Vietnã, que tem 85 milhões de habitantes, pequeno para os padrões asiáticos, os salários estão disparando, há greves e a infra-estrutura não é tão boa. A China investiu muito. A Província de Guangdong foi escolhida no início da abertura porque estava ao lado do oceano, era vizinha de Hong Kong, perto de Taiwan, ganhou grandes portos. As outras Províncias não têm como competir: 63% dos calçados do mundo são produzidos na China."

PACIÊNCIA
"Do momento em que o meu pai começou a pesquisar o mercado chinês até montar o escritório foram cinco anos. Ele contratou um taiwanês para chefiar, alguém que conhecia o mercado. Muitos empresários desistem da China por falta de paciência. Vim para a China em 1996, quando a empresa já estava montada. É fundamental saber se cercar dos melhores parceiros, ter paciência e saber que o chinês sempre vai falar o que você quer ouvir, mesmo que não tenha condições de entregar o que você pede."

REAÇÃO RÁPIDA
"O governo reage rápido. A restituição de impostos a produtos exportados, que vinha caindo, voltou a subir para dar mais fôlego ao exportador. O pacote econômico deu um sinal de que o governo chinês não vai admitir um crescimento menor do que 8% nem que precise gastar bilhões. Há muito temor por uma crescente onda de desemprego, por aumento da violência, parece que até vão congelar o salário mínimo."

EMPREGOS
"O que acontece na China é bem diferente do Brasil. Dongguan tem 10 milhões de habitantes, 7 milhões dos quais são migrantes rurais. Em sua maioria, eles não trazem família. A mulher e o filho ficam no campo, e eles moram nos dormitórios das próprias fábricas. Se ficam desempregados por um tempo e o dinheiro começa a acabar, eles voltam para o seu pedacinho de terra. Houve uma crise na mão-de-obra que agora começa a se reverter. A troca de emprego era muito alta -por pouco dinheiro as pessoas pulavam de emprego em emprego."

SAÍDA DO BRASIL
"Não dava para competir com os calçados sintéticos, muito mais baratos do que os brasileiros. Mas os chineses não sabiam fazer produtos de couro com qualidade. Importamos muitos técnicos do Brasil. Hoje, o calçado chinês tem a mesma qualidade do brasileiro. Eles aprendem rápido. Meu pai cuida do pensamento estratégico, mas não mora na China, acompanha de longe. "

MERCADO CHINÊS
"Até outubro, não senti diferença. Neste ano, teremos uma queda de 5% nas vendas, o que não é muito, comparado com outros, que perdem 20%, 30%. Variamos os clientes, hoje vendemos para a Austrália, Japão, México e a alguns países europeus 20% da nossa produção. Vamos criar uma marca para o mercado doméstico de sapatos femininos de padrão mais elevado, de US$ 180. No futuro, 50% da produção chinesa será para o mercado interno."

VIDA NA CHINA
"Em Dongguan tem X-Tudo, pizzaria e churrascaria brasileira. Na empresa temos cardápios brasileiro e chinês na cantina. Não falta feijão. Meus filhos estudam em colégio internacional e já falam mandarim. Nós nos sentimos muito protegidos, há muita segurança aqui. A vida noturna e a vida social não são comparáveis com as do Brasil, mas pelo menos Hong Kong está perto. Mas há muitos brasileiros que não se adaptam, vêm, não gostam. Não é fácil."

Escrito por Raul Juste Lores às 16h46

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Desbunde em Bollywood

Dois rapazes musculosos à procura de casa em Miami inventam que são namorados para poder dividir um apartamento dos sonhos. Só que os falsos gays se apaixonam pela proprietária do apê, uma editora de moda cercada de gays reais, que podem colocar a identidade deles em perigo.
Com 2 milhões de espectadores em duas semanas de exibição, a comédia "Dostana" (amizade, em hindu) é o maior sucesso da temporada de Bollywood, a bilionária indústria do cinema da Índia. Em tempos de luto pelos atentados em Mumbai, as platéias se divertem com a confusão sexual do filme.
As produções de Bollywood vivem uma fase de comportado desbunde, depois de décadas de conservadorismo naftalínico. Moças de biquíni, algo ainda raríssimo nas praias indianas, viraram lugar comum em produções recentes, assim como moços sem camisa e de cueca em cena, que parecem saídos de novela das sete no Brasil. Até beijo na boca, um tabu local, começou a aparecer.
"O público indiano está menos conservador, e os produtores se arriscam mais. Por meio de uma comédia frívola, falamos de tolerância, e até a conservadora mãe de um dos personagens acaba aceitando o namorado do filho", disse à Folha Arun Nair, um dos produtores de "Dostana".
"Na Índia, homossexualidade ainda é crime, então um filme despretensioso como este acaba sendo avançado."

Beijo na boca
Nem todo mundo celebra as novidades. O ator Zayed Khan declarou que se sentiu "desconfortável" ao ver na tela o beijo que sapecou na atriz Amrit Moghera no filme "Yuwraaj".
"Sou um homem de família, minha mulher estava vendo o filme comigo. O diretor insistiu no beijo." A mulher de Khan, Malaika, disse que "nem ligou".
Dos musicais mambembes de alguns anos atrás, Bollywood começa a caprichar nos orçamentos. "Dostana" custou US$ 10 milhões e foi inteiramente rodado em Miami. As bilheterias do país movimentam US$ 1,5 bilhão por ano.
Os filmes são distribuídos em países com numerosas populações indianas, como Estados Unidos e Reino Unido, além de serem consumidos por Paquistão, Oriente Médio e Rússia.
"Na Índia, o cinema é a principal forma de entretenimento. Temos poucos parques, o povo tem poucas opções de diversão. É o melhor lugar para casais de namorados se encontrarem, num país ainda conservador", diz Nair. O preço dos ingressos varia entre 100 e 250 rúpias (R$ 4 e R$ 10).
No gigante asiático, Hollywood ainda não tem vez. Bollywood domina 90% do mercado.
Na Índia, são vendidos 3,5 bilhões de ingressos por ano (3,1 por habitante, quase 7 vezes a mais per capita que no Brasil). Mas o produtor Nair revela admiração pelo cinema brasileiro. "Não fazemos nada como "Cidade de Deus", um dos melhores filmes que já vi", diz. "O cinema indiano ainda não faz filmes tão avançados."

(Como diz meu amigo Tony Goes, um dos melhores blogueiros que conheço, o Brasil poderia ter sua Bollywood se a indústria das chanchadas da Atlântida tivesse sobrevivido) 

Escrito por Raul Juste Lores às 04h27

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Fronteira explosiva

 

Este é um dos mais lúcidos intelectuais indianos e com quem mais aprendi sobre as tensões indo-muçulmanas entre Índia e Paquistão, potências nucleares, em crise permanente. Vale a leitura.

Segundo o historiador Ramachandra Guha, 50, o radicalismo islâmico na Índia se alimenta da situação de pobreza dos muçulmanos no país, dos efeitos da partilha que originou o Paquistão, em 1947, e do patrocínio de guerrilheiros pelos EUA durante a Guerra Fria.
Autor de "A Índia depois de Gandhi" e diretor da organização New India Foundation, que promove o estudo da Índia contemporânea, ele foi considerado um dos cem intelectuais mais influentes no mundo pela revista "Foreign Policy". Abaixo, trechos da entrevista que ele concedeu à Folha.

Al Qaeda recruta
"A Al Qaeda já começou a recrutar na Índia os muçulmanos mais angustiados com sua situação. Os muçulmanos indianos não podem se sentir de lado. Devem ser levados ao sistema de educação moderno, estimulados a aprender inglês, hoje decisivo para se empregar bem na Índia. Durante muito tempo, o governo era negligente com a educação. Hoje vivemos uma fase de empolgação, todo mundo quer estudar."

Sem Justiça
"Em 2002, cerca de 2.000 muçulmanos foram mortos em um massacre. Era resposta a um atentado de radicais islâmicos, que por sua vez foi revanche pela destruição de uma mesquita. Mas nenhum dos assassinos foi levado à Justiça, o que só fortalece os radicais."

Pobres ficaram
"No movimento pela independência da Índia nos anos 30 e 40, a classe média começou a se mudar para o que hoje é o Paquistão na esperança de ter uma nação muçulmana. Empresários, comerciantes, médicos, universitários migraram em massa. Os pobres muçulmanos ficaram na Índia. Há poucos advogados, professores. Muitos matriculam seus filhos em escolas religiosas, não estão na educação moderna."

Preconceito
"Não há discriminação oficial, mas há preconceito. Os muçulmanos estão atrás na educação, e há preconceito velado. Tenho certeza de que um médico muçulmano, próspero em Bangalore, terá dificuldades para alugar um apartamento de indianos. Não é discriminação institucional, é cultural, leva tempo para mudar."

Guerra Fria
"O Paquistão é aliado americano desde 1954. A Índia era próxima da União Soviética. Quando os soviéticos invadiram o Afeganistão, os americanos armaram os guerrilheiros muçulmanos. Nos anos 80, o Paquistão viu a emergência desses fundamentalistas patrocinados pelos EUA, que hoje controlam cada vez mais setores da Justiça, da educação e das Forças Armadas. Ninguém controla os predicadores mais radicais, que pedem a destruição da Índia nas mesquitas."

Revanche
"A tensão do Paquistão com a Índia é religiosa, mas tem algo de revanche. A Índia apoiou o movimento separatista de Bangladesh, que se tornou independente do Paquistão em 1971. O Paquistão nunca a perdoou. Nações, como indivíduos, têm memória. O sucesso econômico recente da Índia é uma explicação menor."

Caxemira livre
"A presença militar na Caxemira é excessiva. Há muitos abusos contra os direitos humanos lá. Há uma espiral de violência. Não era um movimento sectário, mas foi tomado pelos radicais, o que acaba justificando mais repressão pelo Exército da Índia e novas revanches por seus excessos. A Índia não entregará a Caxemira. Pode até dar mais autonomia, mas não interessa a ninguém uma Caxemira livre, que cairia nas mãos da Al Qaeda."

Sem harmonia
"O nacionalismo indiano de Gandhi e Nehru estava comprometido com a criação de um Estado laico, de harmonia entre as minorias, mas, nos anos 60 e 70, com a disputa pela Caxemira, a direita nacionalista cresceu, acha que os muçulmanos não fazem parte da Índia."

Escrito por Raul Juste Lores às 04h03

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Tambores de guerra

 

"Guerra ao Paquistão", "Paquistaneses ladrões" e "Vergonha dos políticos" foram as palavras de ordem mais gritadas ontem na maior manifestação de protesto em Mumbai (antiga Bombaim) após os atentados que mataram 172 pessoas na semana passada.
Cerca de 100 mil pessoas marcharam pelas estreitas ruas do rico bairro de Colaba, segundo estimativas da polícia local, até o Portal da Índia, em frente ao hotel Taj Mahal, onde mais de 500 pessoas foram feitas reféns por cerca de 62 horas.
O crescente tom de raiva na Índia, que prevaleceu durante todo o protesto, aumenta a pressão sobre o moderado premiê Manmohan Singh, criticado por ser "fraco" em relação ao terrorismo e ao Paquistão.
Uma pesquisa da rede de TV Times Now, do mesmo grupo do maior jornal do país, "Times of India", aponta que hoje 90% dos indianos querem guerra com o Paquistão.
"Temos provas de que o Paquistão está por trás [dos ataques], está na hora de declararmos guerra, há 20 anos temos diálogo e não chegamos a lugar nenhum", disse à Folha o publicitário Ramesh Nesriker, 25. "Não queremos paz com o Paquistão, chegou nossa hora de matar gente lá antes que eles matem mais gente aqui."

Raiva de políticos
Na maioria dos cartazes levados pelos manifestantes, destacavam-se os ataques ao Paquistão e à classe política indiana, com frases como "Paquistão, epicentro do terror" e "Ataque o Paquistão já ou espere uma guerra nuclear". Os dois rivais possuem arsenal atômico.
Outro manifestante, o engenheiro informático Jigar Asher, 24, disse que a Índia precisa ter garantias de que o Paquistão quer de fato colaborar e que vai perseguir e prender os terroristas em seu território.
"Se não tivermos resposta, teremos que ir à guerra. Muita gente acha que, se a Índia atacar o Paquistão, haverá boicote internacional, mas precisamos lutar pela nossa liberdade", afirmou Asher. "Os americanos não atacaram o Afeganistão por se sentirem desprotegidos?"
Só as críticas aos políticos indianos competiram com os ataques a Islamabad. "Sem segurança, não pagaremos impostos", "Cidadãos com raiva, políticos em perigo" e "País de leões, dirigido por burros".
Os slogans paz-e-amor e choque de gestão que dominaram os pequenos protestos no último fim de semana eram vistos em algumas poucas faixas, que traziam frases como "Quero minha Mumbai de volta", "Políticos, aprendam gerenciamento de crise" e até uma apropriação do slogan de Barack Obama, "Sim, nós podemos".
Apesar do tom exaltado do protesto, vários manifestantes paravam a reportagem com sorrisos, dizendo "bem-vindo a Índia" e para explicar que "este é um país de paz".
A convocação para a passeata foi organizada por blogs, mensagens por celulares e comunidades na rede de relacionamento Facebook. Diversas celebridades locais, de atores de Bollywood a atletas, estiveram na marcha. Lojas e cinemas fecharam as portas mais cedo com medo de distúrbios.

Muçulmanos presentes
A presença de muçulmanos na marcha era bem destacada. Às 16h locais, duas horas antes do início da manifestação, um grupo de cerca de 200 muçulmanos já se concentrava em frente ao histórico cinema Regal, a menos de 1 km do Portal.
Há temores de que o sentimento contra a minoria muçulmana na Índia -cerca de 150 milhões de pessoas- cresça após os atentados, atribuídos ao radicalismo islâmico, e favoreça nas eleições legislativas de 2009 o partido ultranacionalista hindu BJP, antimuçulmano.
"Estou com muita raiva, pois muita gente pensa que todo muçulmano é terrorista, e é claro que a maioria só quer a paz", diz o comerciante muçulmano Taher Rajkotuala, 31.
Mas ele é contra um ataque ao Paquistão. "Guerra não resolve. A Índia precisa dialogar com o Paquistão, mas o diálogo tem que ser duro, tem que exigir que o Paquistão acabe com os campos de treinamento de terroristas e que entregue os terroristas para a Índia. Somos muito suaves com o Paquistão."

Escrito por Raul Juste Lores às 03h56

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Cansei indiano

O empresário Abizar Hatim, 42, ficou 14 horas como refém no restaurante do hotel Taj Mahal, entre a noite de quarta-feira e a manhã de quinta. Viu quando um terrorista atirou uma granada no restaurante, os primeiros gritos, as primeiras explosões, ouviu a execução de pelo menos 15 pessoas.
Hatim estava com a mulher e mais dez amigos comemorando o aniversário de um deles. Sobreviveu por ficar um bom tempo escondido embaixo da mesa e depois engatinhou até a cozinha, onde ficou trancado com dezenas de funcionários do hotel.
Hatim participou ontem da primeira manifestação em Mumbai por paz depois dos atentados. Cerca de 4.000 pessoas, a maioria vestindo branco e com velas, fizeram uma marcha pela Marine Drive, a avenida costeira de Mumbai em frente ao hotel Oberoi, onde outras 200 pessoas foram feitas reféns.
Perto dele, a agente de viagens Shephale Gupta admitia que esse era o primeiro protesto de que ela participava na vida. "A mãe do melhor colega do meu filho na escola foi uma das vítimas, ela me ligava todos os dias para falar dos nossos filhos", conta.
"Os políticos da Índia não estão à altura dos acontecimentos, o terrorismo é uma ameaça muito grande, e eles estão lá encastelados em Nova Déli, sem tomar providências", reclama.
A elite de Mumbai, certamente um dos alvos da operação terrorista, deu as caras na manifestação. Cantaram o hino nacional e repetiram slogans como "Longa vida à mãe Índia", "Que vergonha dos políticos" e "Vitória, Índia".

Fundamentalismo
"A Índia está virando uma potência econômica, como o Brasil também, nosso PIB tem crescido muito, e temos relações cada vez melhores com os Estados Unidos, o Reino Unido e Israel. Os fundamentalistas islâmicos querem brecar isso", disse à Folha o construtor Raqish Damani.
"Mas não temos nada parecido com o Departamento de Segurança Interna do governo americano. O governo fez muito pouco para conter a ameaça terrorista", ponderou.
Diversos manifestantes me cercam para dizer que o governo do vizinho Paquistão "sempre tem alguma culpa no terrorismo indiano, mas faz de conta que não é com ele" e que, ao contrário do que muita gente tem discutido, os muçulmanos não são discriminados no país.
"Não tem um muçulmano que seja educado que acredite no extremismo, no terrorismo. Quem conhece bem a religião, sabe que não se pode matar em nome do islã", diz o muçulmano Hatim. A manifestação termina por volta das 20h em frente ao prédio residencial mais caro da cidade, com apartamentos avaliados em US$ 10 milhões. Fica ao lado do hotel Oberoi.


Escrito por Raul Juste Lores às 04h44

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Terror na Índia

Em contraste com a longa operação de 62 horas para render uma dezena de terroristas, Mumbai levou menos de 24 horas para ser coberta com outdoors que celebram "os heróis do conflito". Nas principais avenidas, os cartazes gigantes trazem as fotos dos três diretores dos comandos antiterroristas mortos em confronto. "Aos nossos heróis, muito obrigado."
No que já é chamado de "11 de Setembro indiano", também não faltam manifestações espontâneas de reverência às forças de segurança, como pequenas cartolinas na entrada de casas humildes na periferia de Mumbai que também homenageiam os heróis.
Ontem, milhares de pessoas participaram do funeral do major Sandeep Unnikrishnan e do chefe da unidade antiterrorista de Mumbai, Hemant Karkare. Uma longa procissão seguia uma foto gigante de Karkare até o crematório de Dadar.
Os dois hotéis onde os terroristas se atrincheiraram estavam isolados ontem por cordões de segurança e soldados. Centenas de pessoas se aglomeravam ao redor do Taj Mahal, o hotel mais famoso do país, cenário de diversos musicais de Bollywood. Elas tiravam fotos, aplaudiam e abraçavam soldados dos comandos da Guarda de Segurança Nacional.
Segundo a agência de notícias France Presse, os soldados resgataram 610 pessoas dos dois hotéis e do centro judaico tomados pelos terroristas.
O clima parecido ao pós-atentado nos Estados Unidos também é sentido até em pequenos hotéis, onde foram instalados detectores de metais por todas as partes. Boa parte do comércio local, inclusive shoppings e mercadinhos, ainda estava fechada ontem.
Em mais de vinte andares do hotel Oberoi, onde mais de 200 hóspedes ficaram sitiados, as vidraças se encontram em cacos, como se o prédio tivesse sido metralhado de cima a baixo.
Apenas ontem parte dos telespectadores da zona sul de Mumbai puderam ver imagens do cerco aos hotéis e do drama dos reféns. Em uma decisão controversa, a direção da polícia ordenou aos operadores da TV a cabo local tirar do ar os cinco canais de notícias que transmitiam ininterruptamente a operação terrorista.
"Os tiros dos terroristas e as explosões criaram sentimento de pânico e a transmissão se provou um impedimento para a ação policial", explicou em nota o departamento policial.
Blogs e a rede social Twitter, de blogs com textos curtos, furaram o blecaute informativo e começaram a passar o cotidiano mais assustador das vítimas, que era contado pelas próprias por celulares. Elas narraram que os terroristas escolhiam a esmo a cada meia hora qual seria o próximo refém a morrer.

Fracasso policial
Ao contrário do 11 de Setembro americano, já há críticas à atuação policial e do governo. "Estamos diante de um grande fracasso, tanto do serviço secreto, quanto de nossa segurança. Como três chefões da polícia antiterrorista vão para um mesmo lugar juntos e são mortos juntos? Que protocolo inexplicável é esse?", disse à Folha Naresh Fernandes, diretor da Paprika, uma das principais editoras do país.
Os chefes da força de segurança foram alvejados pouco após entrar em uma van da polícia. Os três retiraram os capacetes e os coletes antibala pouco antes do ataque.
Fernandes, cuja família é da ex-colônia portuguesa de Goa, trabalhava em um prédio vizinho às Torres Gêmeas e dali presenciou o 11 de Setembro. Ele vê diversas diferenças. "Na Índia, estamos nos acostumando ao terrorismo, todo ano há ataque. Mas este é o primeiro em que a elite sofre mais, talvez a segurança melhore".
Colaba, onde ocorreram os ataques, é um bairro de luxo para os padrões indianos. Ao contrário de Colaba, que ontem tinha várias ruas fechadas ao trânsito, nos bairros populares de Mumbai, a vida já quase voltou ao normal - com centenas de pessoas comendo e dormindo nas calçadas, crianças trabalhando na reciclagem de pneus velhos e camelôs vendendo cópias piratas de best-sellers americanos no trânsito.

Escrito por Raul Juste Lores às 04h40

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Horror e despreparo na Índia

 

Imagine um grupo de dez homens armados, que chega de barquinho inflável a uma das maiores cidades do mundo. Em menos de uma hora, eles fuzilam pessoas a esmo em dois hospitais, um bar movimentado, uma estação de trens e dominam dois hotéis cinco estrelas, que são o ponto de encontro da elite local? É o que aconteceu em Mumbai, a antiga Bombaim, maior cidade da Índia, com 19 milhões de habitantes. Por 62 horas, eles fizeram cerca de 500 reféns nos hotéis Taj e Oberoi. E a cidade ficou vazia, em pânico (algo que São Paulo sabe o que é, após o golpe do PCC). Além das repercussões globais (crise da Índia com o Paquistão, de onde os terroristas vieram, os dois países são potências nucleares), toda a operação assusta pelo que pode inspirar terroristas mundo afora. Com toques de 007, eles demonstraram que não é preciso ter a espetacularidade da Al Qaeda para espalhar medo e morte.

Estou em Mumbai desde semana passada, uma bela cidade que é a versão indiana do Rio de Janeiro, e onde a indústria cinematográfica local, Bollywood, é a Globo da Índia. Vou postar aqui algumas reportagens que fiz sobre este novo desdobramento do terrorismo internacional. A Índia, rival da China em vários aspectos, também está destinada a ser uma das maiores potências do século 21. Fique de olho.

Escrito por Raul Juste Lores às 03h55

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Raul Juste Lores Raul Juste Lores, 33, correspondente da Folha em Pequim. Foi correspondente em Buenos Aires e editor de Internacional da Revista Veja e apresentador e editor-chefe do Jornal da Cultura, na TV Cultura.

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