Raul na China
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Os astronautas da China

Dia e noite os chineses estão com os olhos grudados na tevê para acompanhar a maior aventura espacial do país.

A China lançou na quinta-feira sua terceira missão tripulada ao espaço. No sábado, pela primeira vez, um astronauta chinês deve fazer uma caminhada espacial, saindo por 40 minutos da nave.
A Shenzhou-7 decolou da base de Jiuquan, na Província de Gansu, noroeste do país. Ficará 68 horas em órbita, até domingo, a 341 quilômetros de altitude. Shenzhou quer dizer "nave divina".
Apenas na quarta foi revelada a identidade dos três taikonautas (astronautas chineses) que estarão a bordo: Zhai Zhigang, Liu Boming e Jing Haipeng, os três de 42 anos de idade e que trabalham há dez anos juntos.
Zhai é quem deve sair da nave -sua caminhada será transmitida ao vivo no país (16h30 de sábado em Pequim, 5h30 em Brasília). Ele vai apanhar amostras do lado de fora do módulo orbital e trazê-las de volta. Outro taikonauta ficará dando apoio dentro do módulo, e o terceiro permanecerá no módulo de reentrada (parte da nave que trará o trio de volta).

Altas ambições
O vôo de hoje da Shenzhou é o próximo passo lógico no programa espacial tripulado chinês, que tem a pretensão de desenvolver um laboratório orbital próprio e realizar uma missão tripulada à Lua em 2017.
Em 2003, a China se tornou o terceiro país a mandar um homem ao espaço, depois de EUA e Rússia. Em outubro do ano passado, lançou uma sonda lunar -o quinto país a fazê-lo.
Uma equipe de 6.000 pessoas trabalhou na missão. Há planos para 239 cenários de emergência e cinco navios de assistência e monitoramento, quatro no oceano Pacífico e um no oceano Atlântico.
A cápsula com os taikonautas deve pousar no domingo na região da Mongólia Interior.
A foto dos três está na capa de jornais e páginas da internet de toda a China. O pioneiro astronauta do país, Yang Liwei, foi o primeiro chinês selecionado a carregar a tocha olímpica em sua chegada a Pequim.
"Como astronautas, nossa maior honra é representar a Pátria e fazer essa expedição pelo espaço", disse Zhai, chefe da missão. Seu filho de 14 anos se chama Tianxiong, que quer dizer "herói do céu".
Estima-se que o país gaste cerca de US$ 3 bilhões por ano em seu programa espacial, que inclui um acordo de cooperação com o Brasil, nos satélites CBERS. Os avanços chineses estão provocando uma corrida espacial entre seus rivais asiáticos, Japão e Índia.
A China começou a ter ambições espaciais nos anos 1950, com assistência soviética, mas aquela parceria terminou em 1960, com a ruptura do então ditador Mao Tsé-tung e do soviético Nikita Kruschev. Nos anos 1970, programas parecidos foram cancelados por falta de recursos.

Fotos: Xinhua

Escrito por Raul Juste Lores às 15h29

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Otimismo chinês no vendaval

 

O impacto da crise financeira americana na China é "limitado" e a confiança do país nos Estados Unidos deve continuar "porque as economias são intimamente ligadas". É o que diz um dos mais influentes economistas da China, Yuan Gangming, 55, que dirige o Instituto de Pesquisa Econômica da Academia Chinesa de Ciências Sociais, o principal centro de estudos ligado ao Conselho de Estado e ao Partido Comunista.

Ao contrário de diversos analistas, que prevêem uma acentuada desaceleração do país a partir do ano que vem, Yuan diz que o país crescerá ainda por muitos anos, mas passa por transformações, não por uma bolha. Também professor da Universidade Tsinghua, Yuan participa regularmente de reuniões no Ministério das Finanças para mostrar seus estudos e sugerir novas políticas.

Otimista até demais, como boa parte do governo chinês, e cercado de alunos de pós-graduação, ele me recebeu em seu escritório na Academia. Vejam o que ele diz:

A China só perdeu US$ 720 milhões com os títulos que tinha do Lehman Brothers. É bom que o país tenha investido tanto nos EUA porque não há muitas outras opções para se fazer com suas reservas internacionais, de quase US$ 2 trilhões. Comparado ao euro, o dólar é bem mais importante. As economias da China e dos Estados Unidos são muito integradas e interdependentes, e a China aprendeu muito dos EUA em termos de mercado de capitais.

DESACELERAÇÃO

Há desaceleração, o que preocupa o governo, mas nada, nada que lembre recessão. Houve queda no crescimento da produção industrial de alto valor agregado, na construção civil e na inflação. O preço do aço caiu 30%, mas é algo sazonal. Há quem defenda que a China esteja em uma bolha, que é bom mesmo desacelerar, mas eu discordo. Crescer 10%, 11% é necessário para o nosso estágio de desenvolvimento, de urbanização e migração em massa. O Comitê de Desenvolvimento e Reforma acha que as Províncias crescem rápido demais, mas o comitê não é forte o suficiente para acompanhar o ritmo de todos os projetos.

BOLHA IMOBILIÁRIA

Os preços do metro quadrado em boa parte do país são irreais. E são prova da enorme diferença entre ricos e pobres. Para os mais ricos, que preferem investir em imóveis que em ações, dá para comprar 10 apartamentos e não reclamar do preço. Eles apoiaram essa alta irracional. Mas a classe média e os mais pobres estão esperando até os preços baixarem porque não têm poder de compra. O governo chinês deveria controlar esses preços, mas não vai deixar que eles caiam muito para não deprimir a economia. A construção civil é um dos setores mais importantes da China.

INFLAÇÃO SOB CONTROLE

A inflação foi só um susto. O preço da carne de porco aumentou 60% no ano passado e isso criou uma reação em cadeia. Os camponeses achavam que o preço estava muito baixo e deixaram de criar suínos. Houve falta, o porco é base da nossa alimentação e o preço disparou. Valeu a pena voltar a produzir e o preço se estabilizou.

ADEUS, BARATOS

Concordo com a decisão do governo de deixar de apoiar a indústria de exportação de produtos baratos. Houve muitos incentivos, isenções fiscais, mas essa indústria continua a produzir material de baixo valor agregado, paga salários ruins e é muito poluidora. A China não precisa mais se sacrificar pela economia global. A Europa e os Estados Unidos começarão a pagar pelos seus tênis, roupas e demais têxteis valores mais reais, não o valor irrisório dos últimos anos. Quem produz melhor vai sobreviver.

CRESCIMENTO FUTURO

Não se deve temer pela crise na China. O país continuará a crescer por muitos anos, graças ao êxodo rural e à urbanização do país. Estamos vivendo uma transição, de deixar de ser uma economia baseada em exportações e investimentos para uma de consumo. Nos anos 80, o chinês comprava muito quando a educação e a saúde eram responsabilidade do governo e das estatais. Hoje ele economiza por não ter essa segurança, mas Pequim está investindo mais e mais em educação e saúde. Não é perfeito, mas não vai demorar para que o chinês comece a gastar mais, sem medo do futuro.

RESGATAR A BOLSA

A recompra de ações determinada pelo governo chinês, de estatais e de bancos, é o que os investidores esperavam para garantir a confiança nas empresas. Apenas seguiu os passos de intervenção tomados por bancos centrais dos países ocidentais.

RICOS E POBRES

O aumento da diferença entre ricos e pobres na China ainda é um ponto fraco. Há muitos slogans e poucas ações para elevar a renda no campo e levar desenvolvimento às áreas mais atrasadas do Centro e do Oeste do país.

Foto: Xinhua, porto de Tianjin


 

Escrito por Raul Juste Lores às 09h51

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Luxo e controle na Biblioteca

Um longo retângulo suspenso de 120 metros de comprimento em aço escovado e vidro é a marca do novo prédio da Biblioteca Nacional da China. Inaugurado nesta semana, o anexo que custou o equivalente a R$ 350 milhões demonstra que obras de impacto continuam a mudar a paisagem mesmo após a Olimpíada.
A Biblioteca virou a terceira maior do mundo com a nova construção. O antigo prédio, que não pode sofrer reformas por ser patrimônio nacional, guarda os tesouros da Biblioteca e só pode receber visitas de acadêmicos e pesquisadores.
O anexo é para o público geral _ e feito para impressionar. Com 80 mil metros quadrados, tem 2.900 assentos, 460 computadores e oferece acesso à Internet sem fio (wi-fi) em todos os espaços. Os usuários podem usar leitores de livros digitais em palmtops para acessar a mais de 200 mil gigabytes de arquivo digital.
A Biblioteca lançará um canal de televisão a cabo para transmitir palestras e eventos.
Todo o teto do retângulo que abriga a Biblioteca Digital é de vidro, o que permite o uso de luz natural na maior parte do tempo. A base do prédio é em pedra _ mas o revestimento interno da principal sala de leitura, de três andares, é de madeira, como nas antigas bibliotecas.
O escritório de arquitetura alemão Engel e Zimmermann, que desenhou a obra após vencer um concurso internacional, projetou um prédio com capacidade para 12 milhões de livros, ainda que a nova biblioteca tenha sido aberta com 600 mil.
"Ela tem a capacidade necessária para o crescimento da biblioteca nas próximas três décadas", diz o bibliotecário-chefe, Zhan Furui.
Literatura controlada
No último andar, que possui centenas de jornais e revistas para consulta, não há uma única publicação estrangeira. Também não há nenhum livro em inglês na nova biblioteca.
"Os livros em inglês ficam no velho prédio, onde o acesso é restrito. Aqui, só em chinês", diz o bibliotecário Li Bin. Apesar da modernidade, a nova biblioteca mantém a política de controle de informação cara ao Partido Comunista.
São raros os locais de Pequim onde se encontram revistas estrangeiras. Quando há alguma reportagem crítica a China, os exemplares são recolhidos ou as reportagens são coladas _ até páginas de uma edição recente da National Geographic estavam grudadas com cola escolar, trabalho paciente feito por censores.
Encomendas feitas à livraria digital Amazon podem levar meses a chegar ao seu destino. Os pacotes são abertos pelo correio chinês para detectar e apreender livros sensíveis.
A censura proíbe livros que falem sobre a repressão na Praça da Paz Celestial ou no Tibete, sobre a banida seita Falun Gong ou direitos humanos.
Livros que tratem de sexo e erotismo são proibidos e chamados de "poluição espiritual". São os casos de obras que narram as aventuras sexuais de jovens chinesas, como "Shanghai baby", "Beijing doll" ou "Candy", e que viraram best-sellers no exterior.
No ano passado, a autora Zhang Yihe liderou uma campanha pela Internet, sem sucesso, pelo fim à censura de livros. Seus três livros, que contam o drama dos chineses durante a Revolução Cultural comunista (1966-1976), estão proibidos.
O Escritório Geral de Imprensa e Publicações é responsável pela censura e pode fechar editoras, depois de multar pela edição de livros "sensíveis". A saída é a produção e distribuição clandestina de livros _ estima-se que 60% dos livros que circulam na China sejam piratas. Há 4 mil editoras clandestinas.


Escrito por Raul Juste Lores às 12h27

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Veneno no leite dos bebês

Dois bebês morreram e mais de 1250 estão internados com pedras nos rins, causadas por leite em pó adulterado na China. A fábrica estatal de laticínios Sanlu, a maior do país, anunciou que já recolheu 6 mil toneladas do leite.
O Ministério da Saúde da China diz que o leite contém melamina, substância química usada na produção de plásticos, que acabou produzindo pedras nos rins dos bebês de até um ano de idade.
Segundo relatório oficial, foi colocada água no leite para aumentar a quantidade do produto. E a substância química proibida em alimentos foi adicionada para disfarçar a falta de proteína.
Uma empresa de laticínios da Nova Zelândia, a cooperativa Fonterra, que detem 40% da Sanlu, acusou ontem a matriz chinesa de acobertar o caso _ em 6 de agosto foi descoberta a alteração do leite, mas o recall só foi anunciado na quinta-feira passada.
A Fonterra pediu que o recall fosse anunciado no início de agosto. Há rumores na Internet chinesa, desmentidos pelo governo, que a divulgação do caso foi proibida para não prejudicar a Olimpíada de Pequim, que começou no dia 8 de agosto. O leite em pó adulterado foi vendido entre março e agosto.
Cerca de 200 pais tentaram invadir no domingo a sede da fábrica, na Província de Hebei. Alguns dizem que havia reclamações desde junho, mas que a Sanlu nada fez.

O Ministério anunciou ontem que as crianças desenvolveram cálculo renal por causa do leite, que também foi exportado para Taiwan. As vítimas moram em sete Províncias diferentes. Nenhum outro mercado externo comprou o produto.
Até agora, 19 pessoas foram presas, suspeitas de participar no esquema de adulteração. Os ministérios da Agricultura e da Saúde prometeram investigações em todo o país para averiguar a qualidade do leite.

Primeiro, a Sanlu levantou a hipótese de que os produtos seriam pirateados. Na sexta, passou a acusar os fornecedores de leite pela adulteração. "Nosso leite em pó é feito com leite fresco. Se o leite contém melamina, o pó também tem", disse o gerente da marca, Su Changsheng à revista Caijing.
Segundo Su, a empresa não testa a melamina porque a China não possui padrões nacionais para aferir essa substância química em laticínios.
O gerente ainda afirmou que os fornecedores de leite devem ter adicionado a substância para aumentar os níveis de nitrogênio _ há testes de nitrogênio para determinar o nível de proteína no leite.
A maioria das crianças internadas mora em regiões rurais e pobres da China. O governo prometeu tratamento médico gratuito para as crianças _ a saúde pública na China é paga.
Em 2004, 13 bebês morreram por causa de leite adulterado no país, que não possuía qualquer valor nutritivo. No ano passado, vários animais morreram nos Estados Unidos depois de consumirem rações importadas da China que continham melamina. Essa história é mais um tropeço, trágico, para a credibilidade do "Made in China".
 
(Foto: Xinhua)

Escrito por Raul Juste Lores às 13h23

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Economia da China desacelera

O descompasso da China otimista e que não pára de crescer com a desaceleração do mundo desenvolvido parece estar chegando ao fim. Acompanhando sinais de recessão nos Estados Unidos e na Europa, números desanimadores sobre consumo e exportações na China estão ganhando espaço até na mídia estatal.
Depois de crescer por cinco anos seguidos acima de 11%, o PIB chinês deve crescer 9% em 2008 e 8% no ano que vem. A renda per capita chinesa ainda equivale a um terço da média mundial e é dez vezes menor que a dos países desenvolvidos.
Até pelo poder de compra, é quase a metade da renda per capita do Brasil.
A recessão global, o aumento nos preços de matérias-primas, a valorização da moeda local, o yuan, e o controle ao crédito doméstico são problemas que afligem principalmente o setor de exportações.
Cerca de 67 mil pequenas e médias empresas, a maioria de exportadores, declararam falência no primeiro semestre.
As pequenas e as médias empresas foram responsáveis pela criação de 85% das vagas de trabalho criadas em 2007. As fábricas que exportam têxteis e brinquedos são as mais afetadas. As grandes empresas não estão imunes à desaceleração. Entre as que estão listadas em Bolsas de Valores, o crescimento nos lucros deste ano foi de 16% -no ano passado, tinha sido de 80%.
Os investimentos respondem por 40% do PIB chinês. Menos exportações exigem menores investimentos de produtores e fornecedores. Metade dos investimentos no país se devem aos setores de infra-estrutura e construção civil.

Crise imobiliária
O setor imobiliário, um dos mais pujantes do país, também vive a ressaca. O número de metros quadrados vendidos este ano caiu em 10% em relação a 2007 -ano que teve um crescimento de 25% em relação a 2006. As ações nas Bolsas de Valores das principais imobiliárias caíram 70% em um ano.
A Vanke, a maior imobiliária da China, divulgou uma queda de 35% nas vendas em agosto em relação ao mesmo mês do ano passado. A empresa está oferecendo descontos de 25% em condomínios fechados em Xangai e Hangzhou.
Na semana passada, futuros moradores que compraram na alta vandalizaram uma central de vendas -eles exigiam receber o mesmo desconto dos novos compradores e reclamaram que seus apartamentos já se desvalorizaram antes mesmo da inauguração dos prédios.
Em Xangai, o volume de metros quadrados em conjuntos residenciais caiu em 69% em relação a 2007.
"Construiu-se demais, os preços do metro quadrado subiram muito e o consumidor chinês é cauteloso", disse o professor Song Guoqing, do Centro de Pesquisa Econômica da Universidade de Pequim.
"Os salários ainda são baixos na China e as pessoas têm acesso a informações da desaceleração no mundo e das crises nas bolsas. O consumidor está esperando para ver", diz.
Sem o apartamento novo, o consumo de toda uma cadeia de produtos é atingido. A venda de carros, em um país onde a maioria ainda anda de bicicleta, caiu 10% em agosto em relação ao mesmo mês do ano passado. São três meses consecutivos de queda.
Em 2007, 36% da renda das famílias urbanas e 43% da renda das famílias no campo foram gastas em alimentação. Preços de vários alimentos subiram de 10% a 60% no último ano, como a carne de porco, base da culinária chinesa, o que retira dinheiro para outros gastos.

Impacto mundial
Se forem confirmadas como um fenômeno permanente e não sazonal, a desaceleração da construção civil e da indústria automobilística pode ter impactos mundiais nos preços de aço, ferro e cimento, dos quais a China é das maiores importadoras.
A produção de aço caiu 0,2% em agosto e a de cimento cresceu 1,5% -ambos os produtos tinham uma alta média de 7% em relação ao ano passado.
Mas, ainda assim, boa parte dos números chineses, apesar de abaixo do esperado, revelam um país que cresce bem acima da média mundial. As vendas no varejo em julho foram 15% maiores que no ano passado.
As exportações, ainda que não cresçam 30% ao ano como em tempos recentes, cresceram 22% em julho -mas a crise na União Européia deve afetar esse número. Cerca de 40% do crescimento das exportações chinesas em 2007 foi para o resto da Ásia e do Oriente Médio. "Não há razão para pânico", diz Stephen Green, economista-sênior do banco Standard Chartered, em Xangai.
"O consumo representa 35% do PIB nacional. Só poderá aumentar com salários maiores e a instalação de um sistema de bem-estar social", diz. Como no país não existe previdência social, e a saúde e a educação públicas são pagas, muitas famílias preferem economizar para garantir uma velhice ou um tratamento de saúde dignos em vez de ir às compras.

Inflação
Para o professor Song, a desaceleração chinesa ocorre, em parte, por decisão governamental. Tentando conter a inflação e evitar uma bolha de crescimento, foram criadas restrições ao crédito, o yuan foi valorizado e incentivos para parte da indústria exportadora que é considerada poluidora e de baixo valor agregado foram cortados.
Mas a inflação, que chegou a 8,7% em fevereiro, em relação ao ano passado, caiu a 4,9% em agosto, por conta do freio no consumo.
Sinal de que talvez seja hora de relaxar no tratamento antiinflacionário, o governo chinês anunciou novos estímulos fiscais e o yuan foi desvalorizado pela primeira vez desde 2005. De lá para cá, a moeda chinesa se valorizou em 20%.
A crise nas Bolsas de Valores -o índice de Xangai caiu 58% neste ano- também foi respondida. Bem ao seu estilo, o Departamento de Propaganda do governo determinou que sejam censurados comentários negativos sobre o mercado chinês ou sobre ações de empresas estatais em portais financeiros na internet.
Ainda que esteja longe do estado recessivo de países desenvolvidos, economistas esperam um pacote de investimentos na China para estimular a confiança e compensar a desaceleração.
Segundo o economista Green, há espaço de sobra para o governo chinês. A arrecadação aumentou 30% no último ano, quando a previsão era de 14%. São esperados grandes investimentos para a reconstrução da Província de Sichuan, destruída por um terremoto em maio, e para desenvolver o centro-oeste do país. A China tem US$ 1,8 trilhão em reservas internacionais.

(foto: Xinhua)

Escrito por Raul Juste Lores às 05h36

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Massagem vip

Filmes de artes marciais a todo volume ocupam a tela de plasma. Ao redor, vários amigos, com gravatas afrouxadas, bebem cerveja e comem petiscos. É a versão pequinesa da happy hour -em vez de boteco, o cenário é uma casa de massagens.

Nada a ver com o libidinoso significado que muitas têm no Brasil. Nem possuem as singelas cadeirinhas de shiatsu. Massagens na China emergente têm status e acontecem preferencialmente no pé.

Essas casas têm labirintos com salas que podem atender de três a dez pessoas de uma só vez. Oferecem desde reflexologia a massagens no corpo inteiro com óleos e banheiras de hidromassagem para quem quiser ficar algumas horas ali.

Pelo equivalente a R$ 40, o cliente tem direito a uma hora de massagem nos pés. Se o relaxamento for prolongado, paga-se em torno de R$ 30 para outras massagens de meia hora: na cabeça, no pescoço ou nas costas.

Em uma tina de água quente com ervas, o cliente deixa os pés em repouso por dez minutos, antes das massagens enérgicas que manipulam os músculos de cada pé. Segundo a medicina tradicional chinesa, cada membro do corpo humano corresponde a um ponto da sola. Quando massageada, essa parte alivia as tensões do órgão correspondente.

"Doenças devem ser tratadas no hospital. Mas nossas massagens podem aliviar tensões e prevenir problemas sérios de quem passa o dia digitando, sentado nas piores posturas", diz Duan Jianhua, massagista há 13 anos e um dos mais requisitados da rede Oriental Taipan, com seis casas na capital.

Tanto os estrangeiros que moram em Pequim quanto os chineses lotam esses lugares. A versão zen da massagem, com incenso, música "new age" em volume baixo e iluminação fraca, é a preferida dos estrangeiros.

As salas freqüentadas por chineses lembram a happy hour mais barulhenta de um barzinho do Baixo Augusta. Clubes do Bolinha ou da Luluzinha locais reservam salas para fazer a massagem de pé. Há muitos que jantam ali mesmo, até famílias inteiras.

"No sul da China, onde elas se popularizaram primeiro, nos anos 1990, as casas lembram salões de beleza, onde as pessoas ficam horas fofocando", diz o escritor Raymond Zhou, colunista do jornal "China Daily". "Em Pequim, há versões cada vez mais luxuosas, que lembram spas urbanos."

Como diversas tradições milenares chinesas, a massagem de pé quase desapareceu na China durante os anos da Revolução Cultural comunista. Até os anos 1980, havia poucas casas de massagem, de propriedade estatal.

Nos anos 1990, com a reabilitação das tradições e o surgimento da classe média, começaram a surgir estabelecimentos de massagens em todos os cantos. Mas, como a prostituição é oficialmente proibida no país, várias dessas casas aproveitaram a fachada para disfarçar seus reais negócios.

Em 1998, o governo fechou a maioria delas em uma operação contra a prostituição. A partir de 2002, com diversas regulamentações moralizadoras, as casas de massagens voltaram. Há mais de 20 mil delas apenas em Pequim. Para todos os bolsos -os lugares mais simples, na periferia, oferecem massagens de 30 minutos a 20 yuans (R$ 5).

"É um grande negócio e emprega centenas de jovens migrantes rurais, que aprendem facilmente depois de uma semana de treino com um massagista veterano", conta Zhou.

A fama de ter vínculo com a prostituição ainda persiste no interior do país. Mas as novas casas em Pequim têm status de balada "cool". Há seis meses, a sexta filial da Oriental Taipan foi inaugurada com um bar de verdade e jazz ao vivo. É a ascensão da massagem à diversão.

Escrito por Raul Juste Lores às 05h04

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Bilhões nas roletas de Macau

O prédio da foto é o maior cassino do mundo, o Venetian de Macau. Há 10 anos, uma sonolenta colônia portuguesa. Nas mãos comunistas, que apostaram tudo no negócio do jogo, Macau se tornou a maior potência mundial na área _ joga-se lá o dobro que em Las Vegas.

O governo local divulgou ontem que o número de turistas em 2008 é 14% maior que no ano passado. São esperados 30 milhões deles este ano. As apostas cresceram 24%. 15 bilhões de dólares devem ser jogados lá. Mas nem o governo chinês, nem muitos macauenses, estão felizes com a transformação do lugar. Para quem quiser saber mais sobre a polêmica Macau, coloco dois textos que fiz sobre a Las Vegas chinesa.


A maior parte das 820 mesas de jogos e dos 2.650 caça-níqueis do maior cassino do mundo, o Venetian, em Macau, está cheia às 11 horas da manhã de uma sexta-feira. 
No ano passado, a ex-colônia portuguesa na China recebeu mais de 26 milhões de turistas, que apostaram US$ 10,4 bilhões em seus 28 cassinos, quase todos abertos 24 horas. É a maior jogatina do planeta - em Las Vegas jogaram-se US$ 7 bilhões em 2007.
Mas, ao contrário de Las Vegas, Macau está longe de ser um destino global. Menos de 1% de seus turistas vieram de fora da Ásia. Do total, 60% são da própria China, onde dois terços da população são pobres. Os novos ricos do outrora país comunista conseguiram desbancar Las Vegas. Os jogos de azar são proibidos no resto da China.
E Macau não pára de crescer. Até o final do ano que vem, 21 novos hotéis cinco estrelas serão abertos, como Four Seasons, Grand Hyatt, Shangri-la, Ritz Carlton e W. Quase todos com cassinos anexos. Com apenas 538 mil habitantes, Macau já terá uma capacidade hoteleira quase 50% maior que a da cidade do Rio de Janeiro.
O jogo é liberado ali desde o meio do século 19, mas, nas últimas quatro décadas do século passado, Portugal manteve um monopólio a um concessionário local, e os cassinos da cidade eram bem modestos. Quando a ex-colônia foi devolvida à China, em 1999, Macau pensou grande.
Em 2002, a cidade permitiu a entrada de novos investidores, e grandes cadeias de cassinos e hotéis de Las Vegas desembarcaram ali. Nos últimos cinco anos, mais de US$ 25 bilhões foram investidos. Só o Venetian tem um hotel de 3.000 quartos
No ano passado, Macau se tornou a maior renda per capita da Ásia, superando cidades riquíssimas como Tóquio, Hong Kong e Cingapura -ainda que os moradores locais sejam bem mais pobres que os das outras três, o que provoca protestos.
A aposta mais barata equivale a cerca de R$ 30, mas em muitas mesas as apostas iniciais são de R$ 600.
O sucesso da Las Vegas asiática é tanto que em breve vai enfrentar a competição de outros países que vão liberar o jogo, tentando disputar o filão.
Tanto a rígida cidade-Estado de Cingapura quanto a ultracatólica Manila, nas Filipinas, vão abrir seus primeiros cassinos em 2010. A Igreja Católica filipina é contra o projeto, mas o governo deu o sinal verde para a construção de um resort gigantesco com salões de jogos.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft0106200804.htm

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft0106200805.htm

Escrito por Raul Juste Lores às 09h42

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Flash mob em Pequim

Como fã do Youtube (quem não é?), vou começar a colocar vídeos neste blog com cenas do cotidiano de Pequim. Este é um flash mob, aquelas aglomerações instantâneas convocadas pela Internet, onde um grupo faz uma ação determinada por alguns segundos. Alguns amigos participaram e se fizeram de estátua _ o cenário é o conjunto Jianwai Soho, complexo de escritórios, apartamentos, lojas e restaurantes aqui perto de casa. Foi no finalzinho de março, quando ainda havia frio em Pequim.

Escrito por Raul Juste Lores às 14h20

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PERFIL

Raul Juste Lores Raul Juste Lores, 33, correspondente da Folha em Pequim. Foi correspondente em Buenos Aires e editor de Internacional da Revista Veja e apresentador e editor-chefe do Jornal da Cultura, na TV Cultura.

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