Raul na China
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Rio 2016

SE ATÉ A POLUÍDA , provinciana e desajeitada Pequim se exibiu bela, moderna e ecológica perante o mundo, fica difícil não torcer por uma Olimpíada no Rio de Janeiro.
Depois de cinco décadas de decadência, a cidade poderia embasbacar o planeta com o que já possui naturalmente. Ibiza, Bangkok e Dubai tremeriam se o Rio voltasse a seu esplendor.
A quantidade de vocações desperdiçadas pelo Rio é digna de cidades que não precisam mais de dinheiro, nem de empregos.
O Rio já deveria ser a capital mundial da cirurgia plástica e do cuidado com o corpo, com centenas de spas e clínicas internacionais. Miami e várias cidadezinhas suíças faturam muito com isso, sem ter Giseles ou Pitanguys como garotos-propaganda.
Com sua cabeça aberta, Mykonos, Cidade do Cabo e Buenos Aires faturam milhões com os turistas gays -que viajam muito e gastam mais ainda. O Rio tem tudo para superá-las. E, se até um shopping no deserto, como Dubai, faz sucesso, imagina uma Oscar Freire à beira-mar?
Com seus velhinhos sacudidos e esportistas, Copacabana tem a obrigação de ser referência global para a melhor idade, com clínicas e residências especiais para aposentados sortudos de todo o mundo.
A ascendente classe alta negra americana, que pode ter Obama como presidente, teria tudo para cair de amores pelo Rio e conhecer esse elo afro-americano. Não há rapper famoso que não tenha gravado um clipe na Cidade Maravilhosa -merchandising gratuito ainda inexplorado.
Apesar dos 50 anos da Bossa Nova terem se transformado em espetáculos para os VIPs de sempre, não custa sonhar com um roteiro de casas de shows que ofereça boa música nos 365 dias do ano.
Milhares de japoneses, entre outros bons ouvidos, teriam uma programação anual para ouvir bossa nova, samba e choro ao vivo na nossa Nova Orleans.
Todas essas indústrias complicariam o fácil recrutamento de jovens pelo narcotráfico. A indústria turística é limpa e emprega desde sommeliers, grandes designers e chefs a jovens com treinamento mínimo e sorriso no rosto. O Rio teria oito anos para falar inglês e aperfeiçoar a hospitalidade.
A cerimônia de abertura não teria o clima de parada militar que se viu neste ano. Uma junta dos melhores carnavalescos mostraria evoluções e adereços com animação. Ao contrário de Pequim, teria multidão na rua dançando com os atletas noite e dia. E o esporte deixaria de ser apenas manifestação política de força.
Mas aí acordo do sonho. Não temos a eficiência chinesa. Lembro da vila pan-americana abandonada, das medalhas de acrílico que se quebravam no Pan, do "profissionalismo" do COB e da disputa eleitoral no Rio. E 2016 está logo ali.


Esta coluna foi publicada hoje na pagina 2 da Folha. Estou longe dos que pensam que a Olimpiada de Pequim foi uma perfeicao, mas acho inegavel que a imagem da capital chinesa e a da China como um todo lucraram um valor incalculavel com a transmissao dos Jogos para o mundo. Vale a pena? A vantagem do blog e' continuar a discussao. Quais sao as vantagens e desvantagens do Rio sediar uma Olimpiada? Quero saber o que voces pensam (e desculpem o teclado sem acentos que estou usando hoje!).

Escrito por Raul Juste Lores às 14h32

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Os rivais da China

Por causa da maratona olímpica, esqueci de colocar aqui no blog uma entrevista que fiz com Bill Emmott, ex-diretor da revista The Economist, uma das melhores do mundo. Ele acaba de lançar um livro chamado "Rivais", explicando como a difícil relação entre China, Japão e Índia terá um peso enorme nas relações internacionais da próxima década. Já que estamos começando o chamado século asiático, é bom conhecer esses bastidores. Copio uns trechos aqui:

Rivais com poder
"Tanto o banco Goldman Sachs quanto o Banco Mundial estimam que a China e a Índia devem ter um crescimento de 8% a 10% ao ano nos próximos 15 anos. A Ásia vai ficar mais rica e mais forte por um longo período. E vai mudar a balança de poder relativo no mundo. O crescimento da Ásia não se trata de asiáticos contra ocidentais, mas de Ásia contra Ásia. As três potências, Japão, China e Índia, não se gostam."

Religião do dinheiro
"O crescimento econômico e a redução da pobreza são a religião unificadora no continente. Os países asiáticos nunca estiveram tão unidos por uma ambição e uma conquista como o desenvolvimento econômico."

Competição
"China, Índia e Japão têm interesses que se chocam e em parte competem. Cada um tem suspeitas sobre as intenções dos outros, há rivalidades de mil anos. Um diplomata indiano me confidenciou: "Você precisa entender que tanto a China como a Índia acham que o futuro lhes pertence. As duas não podem estar certas". Na verdade, ambas podem, mas não se o quiserem de forma exclusiva. Ter três potências pode ser inédito para a Ásia, mas não para o mundo. No século 19, a Europa tinha a Inglaterra, França, Rússia, Áustria e a Prússia."

Fronteira quente
"A Ásia é um continente pesadamente militarizado. Dos 8 países assumidamente com armas nucleares, 4 estão lá. Das 10 maiores Forças Armadas do planeta, 5 estão lá. China e Índia ainda são países bem pobres quanto a renda per capita, mas gastam fortunas em seus programas espaciais. Acredito que o espaço será o próximo campo de batalha. E há pelo menos cinco pontos de ebulição no continente entre as três potências: a fronteira Índia-China e o Tibete; Coréia; o mar da China; Taiwan; e Paquistão."

Similaridades
"Há similaridades entre China e Japão, em como escolheram a forma de desenvolvimento. O papel preponderante do Estado na economia, uma burocracia estável, sem dar muito poder à democracia cidadã como na Europa e nos EUA. O sistema político japonês é menos diferente do chinês do que parece... Nos anos 60 e 70, o Japão era um notório poluidor, que priorizava o crescimento sobre o ambiente, fazia eletrônicos baratos com mão-de-obra barata. Até que o choque do petróleo dos anos 70 aumentou a inflação, e o presidente americano, Richard Nixon, forçou a revalorização do iene. O paralelo com a China de hoje é evidente. Hoje a China vive a inflação, sua moeda está sob pressão para se valorizar e as fábricas de produtos sem muito valor terão que se mudar para países mais pobres. E o país, ainda devagar, começa a se dar conta dos desastres ambientais que precisa corrigir."

Elites parasitárias
"O ex-diplomata e especialista em Ásia Kishore Mahbubani, de Cingapura, diz que as elites desses países asiáticos têm sido produtivas mais que parasitárias. São autoritárias e autocentradas, mas vêem seus interesses e os de seus países se fortalecerem mutuamente, não em contradição. Acho que o contraste é evidente com as elites latino-americanas e africanas.
Corrupção há em qualquer lugar na Ásia, mas essas elites têm evitado que ela supere a força necessária ao crescimento econômico. Bem, no Paquistão ou em Bangladesh ainda não, mas, na Índia, o equilíbrio entre elite parasitária e produtiva pende para a produtiva."

Sucesso das ditaduras
"É verdade que os países que mais crescem na Ásia são ou foram ditaduras, como Cingapura, Coréia do Sul, China. A Índia é a exceção. Mas seria ir longe demais dizer que esses países fizeram as reformas e cresceram só porque são ditaduras."

Brasil modesto
"O Brasil tem uma renda per capita maior que a da China, e, em muitas coisas, é mais avançado. Tem papel mais destacado no exterior, mas, em pleno boom das commodities, ainda tem crescimento modesto. Falta uma grande reforma do Estado para o Brasil deslanchar."

Foto: Divulgação

Escrito por Raul Juste Lores às 01h43

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Balanço olímpico


Um pequeno balanço da Olimpíada, de quem mora em Pequim mas tem escassos conhecimentos sobre o mundo esportivo:

Apesar da vibração que se viu na tevê, foi uma festa pouquíssimo popular. Tanto o Ninho de Passarinho, quanto o Cubo d'Água e afins estavam isolados da cidade por cercas de arame. Só entrava no recinto olímpico quem tivesse ingressos. À população normal, restava tirar fotos do ninho a 500 metros de distância, com os arames de fundo. Festa para VIPs, para se dizer o mínimo.

Organização impecável. Ônibus e metrôs pontuais, ligação rápida e eficiente com o aeroporto, gigantescas instalações para atletas, jornalistas e convidados, transporte e conexões gratuitos entre todos os locais. Até a Internet ficou mais rápida. E os preços não ficaram nada exorbitantes, como se temia. Tirando as diárias de hotel, não houve inflacionamento absurdo engana-gringo.

Para quem mora em Pequim, tirando o céu artificialmente limpo e o trânsito menos congestionado, a Olimpíada parecia um evento distante. Não se viam hordas de turistas nas ruas (vieram poucos estrangeiros por conta da política de vistos do governo), muitos hotéis vazios e, o que é pior, pouca confraternização. No bairro de Sanlitun, o mais boêmio da cidade, centenas de europeus e americanos bebiam nas calçadas, com poucos chineses à vista, enquanto restaurantes fechavam cedo por ordem estatal. Mistura de locais com estrangeiros, dançando na rua, como em Barcelona ou em Atenas? Nem pensar.

A organização deixou o nacionalismo de lado e convidou alguns dos melhores arquitetos do mundo para fazer prédios que embasbacaram atletas e visitantes. Os estrangeiros fizeram um trabalho sensacional. O Ninho de Passarinho, dos suíços Jacques Herzog e Pierre de Meuron é fácil o mais belo estádio do mundo. Pena que eles não tenham sido convidados para a festa.

Infelizmente, o mesmo não aconteceu com a música. Por que não convidaram os melhores de fora? A trilha sonora dos Jogos foi monocórdia, como a música chinesa. É a primeira festa de encerramento dos Jogos que não vejo atletas pulando e gandaiando no Estádio. "Carnaval" era o nome da última parte da cerimônia. Não rolou. Os atletas ficaram paralisados enquanto Jackie Chan cantava _ cronometrando a hora de ir embora...

A torcida chinesa, que já foi chamada de ensaiada, parada ou fria, não importa deu uma nota positiva ao evento. Soube respeitar os estrangeiros, soube não vaiar mesmo quando a China estava em campo, aplaudiu os atletas que mereciam e foi cortês com japoneses, coreanos, americanos e outros rivais históricos. Espírito esportivo e respeito aos esforço dos atletas. Algo que a torcida brasileira, infelizmente, ainda está longe de aprender.

No mais, domínio absoluto do pódio para países ricos e ditaduras, com as poucas exceções de sempre. O que não é novidade.

Escrito por Raul Juste Lores às 06h05

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Redoma antiprotestos

Você estranhou que não houve nenhum grande protesto durante toda a Olimpíada? É, Pequim viveu dias tranqüilos de cidadezinha suíça. Não são vistos grandes protestos sobre Tibete, destruição do ambiente, desigualdade social ou desrespeito aos direitos humanos.
A calmaria olímpica foi obtida graças a uma caça a qualquer crítico da ditadura chinesa. Há pelo menos 30 em prisão domiciliar durante os Jogos (800 foram presos no último ano).
A polícia chinesa foi à casa de diversos ativistas nas semanas anteriores à Olimpíada pedindo que eles saíssem da capital. Exílio voluntário ou prisão.
É o que aconteceu com o advogado Teng Biao, 34. Após várias visitas de policiais, Teng foi no início do mês para a sua cidade-natal, na Província de Jilin, a 900 km de Pequim.
Ele já foi preso quatro vezes. A última, em março, por 41 horas. "Você pode ficar preso por cinco anos pelas coisas que escreve", a polícia advertiu. Em maio, após se oferecer como advogado de defesa para manifestantes presos em protestos no Tibete, sua licença profissional não foi renovada. "Continuo advogando, mas não posso cobrar honorários e tenho algumas limitações no dia-a-dia."
Ele diz que seu telefone fixo, o celular e o e-mail são monitorados pelo governo. Seu mais famoso cliente, o blogueiro Hu Jia, que defende os direitos dos soropositivos, foi condenado a três anos e meio de prisão, após escrever um artigo dizendo que a China precisava mais de direitos humanos que da Olimpíada.
Outro que saiu da cidade é o diretor da ONG Yirenping, que luta pelos direitos de portadores do vírus da hepatite B. Lu Jun deixou Pequim em julho e só pensa em voltar na semana que vem. "Há pelo menos 20 leis discriminatórias contra portadores. Não podemos ser professores nem policiais."
"Não me considero um dissidente. Só luto pelos direitos do grupo ao qual pertenço. Mas isso já é muito na China", diz. Sua namorada o deixou "pois é perigoso criticar o governo".
Com a oposição devidamente neutralizada, os "protestódromos" permaneceram vazios. Não por falta de manifestantes. Segundo dados oficiais, 149 pessoas foram ao Departamento de Segurança preencher os formulários necessários para 77 reivindicações (protestos, só com autorização estatal).
"Foram 74 casos amigavelmente resolvidos, 2 rejeitados por procedimentos incompletos e um por envolver crianças, o que não é permitido por lei", diz assessor do departamento.
Mas, na verdade, vários dos que tentaram pedir permissão para protestar foram presos. Como Wu Dianyuan, 79, e Wang Xiuying, 77, que foram cinco vezes ao Departamento pedir autorização para fazer um protesto. Eram vizinhas até que o governo as despejou para as obras das instalações olímpicas. As duas foram ameaçadas por escrito de serem enviadas a um campo de trabalhos forçados, mas ainda não foram.
A monumental e desértica praça da Paz Celestial virou quase um bosque para impedir qualquer manifestação em massa -e tirar o ângulo possível das câmeras de TV.
"Se houvesse liberdade de expressão, já seria bem melhor", diz Biao. "Há 40 anos, os opositores eram mortos e há 20 estavam todos presos. Hoje, só queremos poder falar."

Escrito por Raul Juste Lores às 10h11

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A chinesa que sabe de futebol

A jornalista Lu You, 35, é a maior autoridade em futebol da televisão chinesa. Fã da seleção feminina de futebol do Brasil, ela diz que Marta está jogando melhor que Ronaldinho.
"A seleção masculina do Brasil esteve inacreditável contra a Argentina, parecia que estava sem técnico", diz.
As opiniões da bela jornalista da CCTV são levadas a sério pela torcida - ela diz que isso não tem relação com o pouco gingado dos homens de seu país com a bola.
"Vejo mais machismo no futebol da Europa ou da América do Sul do que na China. Aqui, as pessoas me respeitam, faço perguntas incisivas e trabalho na CCTV, a maior rede de televisão daqui, o que ajuda", reconhece.
Ela é uma celebridade local. Nos últimos cinco anos, Lu cobriu a Eurocopa, a Copa da Alemanha e visitou 20 países - até gravou especiais em clube brasileiros. Já entrevistou de Joseph Blatter a Rooney, de Ronaldo a Figo.
"Os jogadores me respeitam. Alguns até sorriem demais, mas acho normal. Também olho para os jogadores mais bonitos", revela.
Lu começou a gostar do esporte aos 8 anos de idade, quando assistiu com o pai a seu primeiro jogo em um estádio. "Naquela época, os chineses tinham no máximo uma televisão em casa. Minha mãe e minha irmã não gostavam de futebol e meu pai fez de tudo para eu ficar do lado dele na hora de decidir o que assistiríamos", conta.
Hoje, ela é a cara do futebol da CCTV. Não é pouca coisa. Quando o Real Madrid visitou a China, em 2005, a entrevista coletiva do time aconteceu na sede do Congresso chinês, e até os treinos da equipe eram televisionados ao vivo.
"Os chineses não sabem jogar, mas entendem tudo porque assistem aos melhores. Cada jogo dos campeonatos Italiano, Espanhol, Francês, Alemão, Inglês é acompanhado por milhões", diz.
Lu é torcedora do Milan e fanática por Marco Van Basten. Mas seu momento mais impressionante foi um jogo entre River e Boca em Buenos Aires. "Nunca vi um estádio tremer como a Bombonera."
Por que o futebol não consegue seguir o caminho de outros esportes na China, de tradição zero a campeões em medalhas? "A China só começou a organizar há dez anos. É como uma criança. O torcedor chinês está mal-acostumado, vendo jogadores brasileiros e times europeus. É duro demais para o futebol local".
Por isso, ela vê um lado positivo na contusão de Liu Xiang, ídolo chinês dos 110 metros com barreiras. "Nós, chineses, precisamos aprender a perder e ver que a derrota faz parte do esporte."

Escrito por Raul Juste Lores às 15h29

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O espírito chinês

HÁ MUITOS brasileiros em Pequim, não só atletas. Turistas e jornalistas choramingam ao comparar a velocidade da construção da nova China com o Brasil vagaroso de sempre.
A China desnutrida de 30 anos atrás se transformou em potência com infra-estrutura reluzente e consumo feérico em cada esquina. Sem favelas à vista, a China já parece bem mais rica que o Brasil.
Houve um evidente esforço para esconder mazelas e calar dissidentes, que engana bem. Mesmo sem a plástica, a pressa chinesa supera Usain Bolt.
O Brasil levará décadas para dar racionalidade a seus impostos, a seus gastos públicos, a suas universidades gratuitas para os mais ricos, a melhorar sua educação. Nos contentamos com pouco.
Enquanto a Europa discute semanas de trabalho de 35 horas e o Brasil aprova licenças-maternidade de seis meses, a China corre à toda velocidade. De uma maneira que não estaríamos dispostos a imitar.
O Spielberg chinês, Zhang Yimou, ao explicar como dirigiu a cerimônia de abertura dos Jogos, disse que performances humanas como aquelas são possíveis só na China.
"Treinamos duro e com muita disciplina. Atores aceitam ordens e agem como computadores. Os estrangeiros ficam admirados. Esse é o espírito chinês", disse Yimou.
O diretor chinês se queixa de sua experiência como diretor de óperas "no Ocidente".
"Lá é tão problemático. Eles trabalham quatro dias e meio por semana e têm direito a dois cafezinhos por dia. Não aceitam nenhum desconforto por causa dos direitos humanos. Você não pode criticá-los, eles sempre pertencem a algum sindicato", reclama.
"Nós podemos agüentar muita dureza. Os chineses fazem em uma semana o que eles levam um mês."
O mundo terá que aprender a competir com os chineses, goste-se ou não do seu espírito.

Escrito por Raul Juste Lores às 10h40

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A trilha sonora dos Jogos

Essa é a música-tema da Olimpíada de Pequim e você a escuta de manhã, de tarde e de noite por aqui. O clipe é superprodução, tem um quem-é-quem na música pop local, até o Jackie Chan aparece. "Bem-vindos a Pequim" já tem umas 25 versões, de clássica a instrumental, de música para elevador a technopop. Todas elas fazem você se perguntar como 5 mil anos de história não conseguiram produzir música de melhor qualidade na China...

Escrito por Raul Juste Lores às 09h39

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Biquini e bronzeado em Pequim

Pequim está vivendo seus dias de SOS Malibu, sem Pamela Anderson. Como biquínis e bronzeados são raridades na China, onde as pessoas vão à praia com o máximo de roupa possível, a competição do vôlei de praia se tornou palco dos olhares mais arregalados do país.
Ali, o calor diminui naturalmente o tamanho das roupas dos protagonistas.
Reportagens na imprensa chinesa explicam a admiração e, em alguns casos, a repulsa às duas levíssimas peças. Mas a TV dá destaque aos jogos -as duplas chinesas disputam medalhas.
"Só uma pequeníssima minoria se atreve a usar biquíni na China", diz Sarah Cheng, editora-senior da revista de moda "Trend". "Acho que as chinesas ainda não são confiantes em mostrar suas curvas em público", afirma ela.
Na praia ou em lugares públicos, as chinesas mais modernas usam maiô tradicional, de peça inteira. Os homens costumam entrar no mar com shorts, bermudas e até calças, assim como as mulheres, que usam qualquer peça possível, e do vestuário tradicional, para desfrutar de momentos entre as ondas das lotadas praias.
O bronzeado das jogadoras e das animadoras de torcida também ainda choca. Pele escura, na China, é ligada aos trabalhadores rurais que fritam no sol e trabalham horas a fio.
Tanto que cremes de clareamento de pele estão entre os cosméticos mais vendidos. Mocinhas em Pequim não desgrudam das sombrinhas -e até ciclistas andam com viseira, luvas e manga comprida para não se queimarem em demasia.
Medidas abandonadas pelas animadoras de torcida do vôlei de praia -o grupo de cheerleaders mistura espanholas e chinesas treinadas previamente.
O biquíni virou ícone nos anos 60 no mundo, enquanto a China vivia a Revolução Cultural comunista -mulheres eram estimuladas a usar cabelo curto e vestir uniformes masculinos.
Os primeiros a serem usados na China foram em um campeonato de fisiculturismo, em 1985. Chamado de pornográfico, foi condenado ao ostracismo e só começou a ser comercializado em 1995, escondido nas lojas.
Por um bom tempo, ficou confinado a editoriais de moda e aos palcos, mas, a partir de 2000, o biquíni começou a freqüentar academias de ginástica e outras práticas esportivas. Sempre com muitos centímetros a mais do que qualquer congênere brasileiro.
As provas do vôlei de praia são no estádio do parque de Chaoyang, com 12.200 lugares. Está sempre lotado.

Escrito por Raul Juste Lores às 05h57

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Onde os olímpicos se divertem 2

(bem, este aqui está mais para os cartolas que para os atletas...)

Esse conjunto de prédios neoclássicos em pedra acima são o Legation Quarter.
É um complexo de restaurantes, bares e galeria de arte instalados na antiga Embaixada dos EUA. Construído em 1903, o complexo servia de residência para convidados estrangeiros do regime comunista a partir de 1951.
Com investimento estimado de US$ 50 milhões (quase R$ 82 milhões), o Legation Quarter fica a um quarteirão da praça da Paz Celestial, o coração da capital chinesa, área mais freqüentada por militares e turistas do interior do que pelos yuppies chineses.
Com 16 mil m2, o conjunto de cinco prédios neoclássicos, que ganharam dois anexos -todos em vidro-, abriga restaurantes pilotados por chefs estrelados no Guia Michelin, como o francês Daniel Boulud e o italiano Claudio Sadler. Até o próximo mês, serão abertos um restaurante japonês, um bar de jazz e um restaurante espanhol.
Bem, como os chineses ricos não vivem sem fazer compras, o Legation Quarter também tem uma filial da joalheria suíça Patek Phillipe. A China já é responsável por 12% do mercado de alto luxo do mundo, o segundo país na gastança com grifes caras, depois do Japão.
No luxuoso Lan (abaixo), uma coca-cola pode custar 50 yuans (R$ 12) e, por uma cerveja, paga-se o equivalente a R$ 15. No restaurante italiano Sadler, um prato de ravióli vale o equivalente a R$ 35 -os pratos mais caros podem chegar a R$ 80.
Mas as discotecas pequinesas mais exclusivas cobram, no máximo, R$ 40 de entrada. Na badalada Richy, em plena temporada olímpica, a entrada custa o equivalente a R$ 15.
Apesar da inflação de templos luxuosos, a vida noturna de Pequim ainda é mais barata do que a de São Paulo.

www.legationquarter.com

Escrito por Raul Juste Lores às 07h30

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Onde os olímpicos se divertem

Parece um cruzamento de Versalhes com Disneylândia, mas é o maior bar e restaurante de Pequim. Nos 6.000 m2 do Lan Club, projetado pelo designer francês Philippe Starck, encontra-se um desvario kitsch por todo lado. Cabeças de rinoceronte nas paredes, divãs forrados de veludo, candelabros negros, espelhos gigantes, cristaleiras com imagens de Buda e faisões empalhados.
Centenas de reproduções baratas de quadros renascentistas ficam pregadas no teto, como se fossem paredes de um museu abarrotado nas alturas.
Apesar da ironia com o país da ostentação e da pirataria, o lugar é um sucesso. Até os anos 80, não havia restaurantes particulares em Pequim. Nos anos 90, era normal que todos fechassem antes das 22h.
Com muito dinheiro no ar e novos hábitos da população, muitas opções surgem para competir com os onipresentes karaokês enfumaçados, onde as pessoas cantam, jogam dados e passam a noite mandando mensagens pelo celular em salinhas privativas.
Os "reservados" também estão presentes no Lan -há 35 salinhas fantasiadas de tendas mongóis com poltronas prateadas e douradas.
Para fazer a decoração do Lan, o francês Starck, que também desenhou os hotéis Fasano, do Rio de Janeiro, e Faena, de Buenos Aires, ganhou US$ 1,5 milhão (cerca de R$ 2,56 mi) por três dias na prancheta.

para ver mais www.lanbeijing.com

 

Escrito por Raul Juste Lores às 07h12

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A tevê chinesa

O SEGUNDO maior edifício de escritórios do mundo, depois do Pentágono, será inaugurado em Pequim no ano que vem. São duas torres inclinadas de 49 andares e 234 metros de altura, conectadas no topo e no térreo, a 90 graus, por pontes que criam esquinas suspensas.
Parece uma moldura distorcida, com um grande vão no meio. Mas o povo apelidou o prédio de "calças gigantes" ou até de "ceroulas" (muito populares aqui, aliás).
O moderno arranha-céu vai abrigar a nova sede da Televisão Central da China (CCTV). Espera-se que o vanguardismo da construção, de R$ 1,3 bilhão, inspire a rede estatal.
Criada há 50 anos, a CCTV tem 16 canais. O visual é do SBT de alguns anos atrás. Os apresentadores ostentam o penteado vim-de-moto que Jassa celebrizou em Sílvio Santos. Mas imensos broches das apresentadoras distraem o espectador de qualquer cabelo.
O telejornal das 19h, com meia hora de duração, é o mais visto da China. Lembra o antigo "A semana do presidente" - imagens dos líderes comunistas recebendo convidados estrangeiros são alternadas com cenas de calamidades ocorridas no exterior.
A CCTV só começou a noticiar com destaque o terremoto de maio passado seis horas após a tragédia -ela precisava esperar ordens do Departamento de Propaganda.
Depois da abertura da Olimpíada, vista por 842 milhões de chineses, o programa de maior audiência é a Gala do fim de ano chinês. São 16 horas de danças folclóricas, humoristas e números musicais em homenagem aos chefões do Partido.
Tirando "Escrava Isaura", novelas brasileiras são desconhecidas. Qualquer cena de sexo é vetada. O politicamente correto não chegou -quadros humorísticos que fazem piada com os migrantes rurais, com maquiagem de dentes cariados nos atores, são bem populares.
Mas, assim como no Ocidente, a audiência está diminuindo. Os jovens preferem navegar horas na internet.

p.s.: as dezenas de programas que a CCTV está mostrando sobre o abandono do Liu Xiang, da prova dos 110 metros com barreiras, têm música e melodrama enfartantes. Nem Galvão Bueno em seus piores momentos se atreveria a fazer algo parecido... Pobre Liu

Escrito por Raul Juste Lores às 07h35

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A torcida chinesa

FOI O MOMENTO mais espontâneo da torcida chinesa nesta Olimpíada. Após a desistência do ídolo nacional Liu Xiang, nos 110 metros com barreiras, centenas de torcedores deram as costas para os demais barreiristas que ainda disputariam a eliminatória e deixaram o estádio.
A multidão derramava lágrimas por todos os lados. Não há campanha de moral e cívica que faça uma torcida dissimular o sofrimento e fazer de conta que a vida continua. Nem 37 medalhas de ouro compensam a contusão do adorado Liu.
Até então, estava tudo muito ensaiado, obedecendo aos scripts estipulados pelo governo chinês. Há pelo menos 70 mil "torcedores" recrutados pelo regime para preencher lugares vazios em estádios e ginásios. Estranhamente, todos os ingressos dessas competições estavam vendidos.
Mas as línguas bem-informadas de Pequim dizem que o Partido Comunista ficou com milhares de ingressos para aqueles com bom trânsito palaciano. Justamente os mesmos lugares vips que deixam clarões percebidos pela TV.
Os fãs ensaiados também torcem fervorosamente com bandeiras de países que nunca ouviram falar - sempre com o gestual que a propaganda governamental ensinou.
O comportamento comedido se repete com chineses que compraram seu ingresso. Pelo menos, eles não ficarão conhecidos mundo afora pelo espírito nada esportivo apresentado por torcedores no Pan do Rio. Em nenhum caso, nem contra o histórico rival Japão, há vaias ou ataques da arquibancada a atletas estrangeiros.
Nada que se pareça à gritaria liderada pelo ex-jogador de basquete Oscar - "Vai cair, vai cair" -, que ele puxou contra ginastas estrangeiros no Pan, bem no momento em que eles mais precisavam de concentração. Para os atletas em campo, mesmo os que jogam contra a China, os aplausos discretos são um alívio.

Escrito por Raul Juste Lores às 10h46

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Sucesso neozelandês

A equipe da Folha divide um mesão, aqui no Centro de Mídia da Olimpíada, com jornalistas neozelandeses. Como só temos uma uma tevê, e estamos na política de boa vizinhança, temos que ficar vendo canoagem, hóquei sobre grama e ciclismo indoors, onde nossos colegas são bons. E nem adianta ironizar os esportes neozelandeses: com duas medalhas de ouro, o país de 3 milhões de habitantes está na nossa frente no ranking geral da Olimpíada... Otimista, acho que não será por muito tempo (né, Marta?).

Escrito por Raul Juste Lores às 10h35

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O dia em que a China chorou

Hoje é um dia trágico para os torcedores chineses, que parecem ter se esquecido das 37 medalhas de ouro que o país ganhou até agora. Tudo por culpa do Liu Xiang, atleta mais adorado da China, tema do post "Ouro ou ouro", que postei no dia 15. Ele desistiu de correr os 110 metros com barreiras. Está contundido há alguns meses, mas os chineses esperavam um milagre, que ele voltasse a levar o ouro que conquistou em Atenas. Ao sair, gemendo de dor, o âncora da CCTV ficou mudo e a repórter no estádio começou a chorar. Uma multidão abandonou o Ninho de Passarinho, sem esperar para ver o resto das provas. Meus amigos chineses estão inconsoláveis. Para eles, é como perder, por WO, uma final de Copa do Mundo.

Escrito por Raul Juste Lores às 09h02

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Turistas na Olimpíada

Há 100 mil voluntários _ número oficial_ trabalhando nesta Olimpíada. Mas parece um milhão... Todos sorridentes, com o "Welcome to Beijing" na ponta da língua. Só não pergunte para eles onde fica qualquer ginásio ou estádio, se eles têm horário dos jogos ou qualquer, mas qualquer mesmo, qualquer, qualquer informação.

Apesar de todo discurso de paranóia da segurança, dentro dos estádios e ginásios de Pequim _ pelo menos, até onde vi _ o clima é de calmaria total. O problema é chegar perto: os chineses que bancaram a construção das maravilhas arquitetônicas são mantidos a 500 metros de distância do Ninho de Passarinho ou do Cubo d'Água. Mas, depois que vc entra, com seu ingresso ou credencial, tudo fica supreendentemente relaxado. O normal é você ficar passeando numa boa. Voluntários e policiais parecem muito mais preocupados em ficar assistindo pelos telões às novas medalhas conquistadas pela China. Do jeito que a coisa vai, eles terão bastante distração pela frente. Sorte nossa.

Táxis estão em falta em Pequim (e cidades que se prepararem para eventos internacionais, devem se prevenir). Pelo rodízio radical imposto em Pequim, onde carros pares e ímpares ficam metade da semana na garagem, os pequineses de classe média para cima não estão pegando metrô, nem ônibus. Táxi aqui é muito barato: a bandeirada inicial é R$ 2,5, mas depois de vinte minutos do táxi, dificilmente a corrida chegará a R$ 10... Por isso, eles vivem lotados. E para o taxista-padrão, entre um passageiro estrangeiro, que terá dificuldades de explicar aonde quer ir, e um passageiro local, nem é preciso pensar muito para descobrir quem eles preferem pegar... Vi hoje um taxista mandando um grupo de loirinhas descer para deixar por um chinês embarcar. Taxista aqui despeja passageiro com frequência, especialmente se o destino for próximo. Pobres turistas.

Escrito por Raul Juste Lores às 14h33

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400 Brasílias em construção

CHINA CONSTRÓI "400 BRASÍLIAS" PARA FOMENTAR CRESCIMENTO DO INTERIOR , MAS NOVAS METRÓPOLES CONVIVEM COM PROBLEMAS , COMO POLUIÇÃO E FALTA DE ESPAÇO DEVIDO À PROLIFERAÇÃO DE BAIRROS PARTICULARES

Atualmente, 58% da população chinesa vive na zona rural. Prevê-se, no entanto, que 400 milhões de pessoas devam trocar o campo pela cidade até 2020. O equivalente à população de dois Brasis vai mudar de endereço e estilo de vida em pouco mais de uma década.
Mas o governo chinês, desde 2001, está criando "400 Brasílias". Quem usa o termo para definir os projetos que visam a desenvolver o interior do país é o arquiteto holandês Neville Mars, que, desde 2004, estuda a urbanização chinesa e é autor do livro "The Chinese Dream -A Society under Construction" ("O Sonho Chinês - Uma Sociedade em Construção").
"As autoridades estão escolhendo diversas cidades pequenas por todo o país e decidindo quais irão crescer", diz Mars à Folha. "É o maior laboratório urbano que o mundo já viu."
Há projetos para todos os gostos. Dia e noite, são criados pólos turísticos, cidades militares, industriais e zonas francas.
Até 2015, a China terá 260 aeroportos -49 estão em construção. Além disso, são construídos por ano 5.000 km de estradas e 3.000 km de ferrovias.
Com centenas de multinacionais querendo se instalar no país, o regime comunista, que detém a propriedade da terra, costuma desalojar camponeses que ocupem o terreno pensado para uma nova zona industrial.
Sonolenta até o início dos anos 90, Chongqing caminha para ser a maior região metropolitana. É uma das inúmeras versões locais do ABC paulista.
Em 1997, ganhou autonomia política e passou a receber fábricas encaminhadas pelo governo central, que queria desenvolver a vizinhança da hidrelétrica de Três Gargantas.
Chongqing tem 31 milhões de habitantes, sendo que 9 milhões de pessoas vivem no centro, já recheado de arranha-céus. Parte do esforço de fermentar Chongqing é para desenvolver o centro-oeste pobre.
Changchun, no norte, passa pela mesma industrialização e urbanização aceleradas -e já duplicou a população de 3,2 milhões em cinco anos.
Mesmo com 1,3 bilhão de habitantes, as maiores cidades chinesas, Xangai e Pequim, ainda são menores que Cidade do México e São Paulo. O governo quer evitar megacidades.
Mas a receita está longe de ser exemplar. As novas metrópoles acumulam problemas típicos de Terceiro Mundo.
Ficam na China 16 das 20 cidades mais poluídas do mundo. A destruição do ambiente se espalha pelo país.
Atrás do lucro, muita terra é usada para a criação de condomínios particulares e bairros fechados. Apertadas em apartamentos minúsculos por décadas, as classes altas buscam espaço, fazendo com que as cidades fiquem mais espalhadas.
"Os condomínios fechados são antiurbanos. Gasta-se terra com essa idéia de serenidade rural", diz Mars. "O crescimento é pensado para o uso do carro. Para quem mora em cidades poluídas, esses condomínios são tentadores, mas oferecem um conceito falso."
O paradoxo é que urbanistas europeus acusam as novas urbes chinesas de não ter "alma", mas elas servem de exemplo para África e Índia. Manmohan Singh, primeiro-ministro indiano, disse que Xangai deve ser um modelo para Mumbai.

Escrito por Raul Juste Lores às 11h34

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O homem voador do Ninho

A Lining, maior marca de material esportivo da China, adotou um logotipo quase igual ao da Nike, e seu slogan, "Anything is possible", é decalcado do "Impossible is nothing", da Adidas.
Ainda assim, a Lining recebeu o maior merchandising indireto da Olimpíada de Pequim. Seu criador, Li Ning, ex-ginasta chinês que ganhou três ouros em Los Angeles-84, foi o homem que acendeu a tocha na cerimônia de abertura.
Fazendo uma volta olímpica nas alturas pelo estádio, suspenso por cabos, com a tocha olímpica nas mãos, ele deixou para trás a rival estrangeira Adidas, que pagou US$ 100 milhões para ser patrocinadora oficial dos Jogos de 2008.


Ainda sobre pirataria conceitual ou real:

Armanis, Pradas e Louis Vuittons de qualidade, que não parecem nada falsificados, são a atração de uma secreta loja de Pequim. Funciona em um apartamento no 20º andar de um edifício em um dos bairros mais caros da cidade.
É conhecida como Frienda, como alguns chineses sem muito traquejo com o inglês se referem à proprietária.
A "amiga" é uma mulher de 40 anos, vestida normalmente com roupas de couro e botas de cano longo, e que oferece dezenas de bolsas, ternos e sapatos de grandes marcas, de qualidade bastante superior à dos mercadões de produtos piratas comuns na China.
A "loja" já mudou várias vezes de endereço, e "olheiros" ficam no térreo do prédio para se adiantar a qualquer incursão da polícia. Acredita-se que ela trabalhe com os fornecedores das próprias grandes marcas estrangeiras -são produtos "desviados" das fábricas ou que foram descartados por algum pequeno defeito.
De empresários a diplomatas, turistas e curiosos, a Frienda vive cheia. Um terno Armani pode sair pelo equivalente a R$ 400, uma bolsa Chanel, por R$ 150, e uma camisa Paul Smith, por R$ 40.
Para entrar na "loja", é preciso convencer no interfone que se é "amigo da Frienda". A primeira sala do apartamento de 250 m2 fica vazia -os funcionários precisam observar se o visitante não oferece perigo para liberar o acesso a ele.
Loucos por consumo, os chineses criaram opções para todos os orçamentos. Nos 87 shoppings de Pequim, as marcas européias são onipresentes - três lojas Giorgio Armani foram inauguradas só no último mês. Com preços dignos de Europa, mais impostos.
Já no Mercado da Seda, o mais conhecido centro de pirataria da cidade, camisas Polo Ralph Lauren ou Lacoste piratas saem por R$ 20, no máximo -mas são necessários uns 20 minutos de pechincha.
As vendedoras se viram em inglês, espanhol, italiano e qualquer outro idioma necessário e sempre pedem um preço dez vezes maior que o real. A calça jeans Diesel fake, por exemplo, será oferecida pelo equivalente a R$ 300, quando não vale mais de R$ 30.
Até para quem já freqüentou mercados árabes, a experiência choca. As vendedoras chinesas são bem mais agressivas. Puxam o possível comprador pelo braço, agarram se for necessário, e choram (ou gritam) se acham a pechincha "ofensiva". Vale até tapa no comprador para mostrar que elas não querem mais nenhum regateio.
Usar alguma palavra em chinês ajuda -se elas acham que o estrangeiro está perdido, ficam mais irredutíveis.
Há mercadões no estilo em todos os gêneros -a Cidade da Fotografia, o Buynow, de produtos eletrônicos, o Yashow, de roupas. A maior parte deles continua aberta em plena Olimpíada, apesar de ambulantes com pirataria terem sumido das ruas e lojas com DVDs falsos terem sido fechadas.
A pirataria na China é favorecida por dilema filosófico. "Copiar bem é uma arte na China, não é considerado algo inferior. Pintores costumavam reproduzir um mesmo trabalho de séculos atrás e eram celebrados por conseguirem uma luz ou força diferentes", diz Sarina Tang, curadora e historiadora da arte. "Às vezes a cópia era preferida à original."
Em um país de 1,35 bilhão de habitantes e com escassos recursos naturais, a sobrevivência deixa mais elásticas as regras éticas.
A maior montadora chinesa, a Chery, enfrentou diversas acusações de copiar peça por peça modelos da General Motors. Em 2003, a GM entrou com uma ação na Justiça chinesa, que não considerou "exatamente" uma cópia.
Em 2005, a GM retirou o processo e, no ano passado, fez um acordo de distribuição com a própria montadora que a pirateou. A Chery pertence ao governo. Não é só a Lining que é premiada por copiar multinacionais.  

Escrito por Raul Juste Lores às 15h51

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Ouro ou ouro

O ATLETA mais querido da China não precisou dar as caras na superlativa cerimônia de abertura da Olimpíada de Pequim. Liu Xiang pode tudo.
Liu foi o primeiro chinês a ganhar uma medalha de ouro no atletismo, nos 110 metros com barreiras em Atenas. Enterrou um complexo antigo de que os locais jamais venceriam uma competição de velocidade.
Nem Yao Ming, com seus 2,26 metros e sucesso planetário graças à NBA, é páreo para Liu em casa. Seu sorriso brilha em outdoors de Coca-Cola, Nike, Lenovo e até da Cadillac, apesar de não saber dirigir.
Ele até aparece em uma propaganda de iogurte abraçando um casal de atores, que se passam por seus pais. Os reais não toparam as fotos por timidez, mas Liu reforçou seu apelo de menino-família. Aos 25 anos, ele nunca teve uma namorada.
Ao contrário de outros colegas que parecem autômatos, Liu até já cantou em karaokê na TV chinesa. O pai distribui fotos autografadas aos milhares de mocinhas que vão até Xangai tentar ver o ídolo.
Aos 16 anos, após a medição de seus ossos, o centro de treinamento oficial decidiu que ele não seria o melhor em salto à distância. Passou a ser preparado para a modalidade em que se tornou célebre.
Ele vive em um dormitório simples - quando dá, fica com os pais no apartamento que receberam do governo como prêmio pela medalha de ouro. Só no ano passado, Liu faturou US$ 23 milhões em publicidade. Um terço vai para o Estado.
Em junho, seu recorde mundial foi batido por um cubano. Competiu poucas vezes neste ano, por conta de contusões. A amigos confidenciou que sofre uma pressão "insuportável".
No ano passado, autoridades do Ministério de Esportes deram um recado a seu técnico.
"Se ele não conquistar o ouro em Pequim, todas as suas conquistas passadas não terão valido nada." 1,3 bilhão de chineses estão de olho.

Escrito por Raul Juste Lores às 08h55

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Loucos por carros

NOS PRÓXIMOS dez anos, quase 100 milhões de novos carros devem ser vendidos na China. A motorização empurra a alta do preço do petróleo no mundo e polui ainda mais o país asiático, mas essas preocupações passam longe de qualquer concessionária chinesa.
Condenados a pedalar com velhas bicicletas por décadas, o sonho chinês do carro próprio é recente. Embora a propriedade de automóvel tenha sido permitida em 1978, só em 1994 o governo estimulou a compra.
Em 1990, a China produzia apenas 40 mil veículos por ano. Em 2008, serão 10 milhões - o segundo maior mercado do mundo. Há 50 milhões de veículos no país de 1,3 bilhão de habitantes, o que mostra o quanto ainda dá para crescer.
80% dos compradores são motoristas de primeira corrida. Ninguém na sua família dirigiu antes, com exceção de poucos afortunados. Nota-se. Os motoristas dirigem lentamente e muitos se negam a conversar enquanto estão no volante, colados na direção.
Com exceção das revendedoras de bairros chiques de Pequim, o normal é que o comprador pague à vista e em dinheiro, levando sacolas com centenas de notas. Carros populares são vendidos ao equivalente a R$ 10 mil, mas a venda de carros de luxo é a que mais cresce. Foram vendidos no ano passado 18 mil Mercedes e 50 mil Audis, a marca favorita dos membros do Partido Comunista.
Em uma sociedade louca por status, depois de décadas de igualitarismo e miséria forçados, quem compra um automóvel tem privilégios.
Avenidas de doze faixas são abertas regularmente e pobre de quem tentar atravessar a pé. Lei de trânsito não cola nem em temporada olímpica. Carros e ônibus param em cima da faixa de pedestres, cruzam à esquerda, à direita, fecham cruzamentos, estacionam nas calçadas e, principalmente, empurram ciclistas e pedestres, os perdedores da nova China.

Escrito por Raul Juste Lores às 08h51

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Superpopulação também na rede

Censurada, monitorada pelo governo e bem mais lenta que no Brasil, a internet chinesa já reúne o maior número de usuários no mundo -253 milhões. Neste ano, o país desbancou os EUA, que tem 223 milhões de internautas. Apesar do gigantismo, o país ainda tem muito a crescer -19% da população tem acesso à internet, pouco comparado aos EUA (71,9%), Japão (68,4%) ou Coréia (71,2%). O número é menor até que o do Brasil (23%).
O comércio on-line ainda é pequeno, devido à escassa confiança do chinês na segurança da rede e ao uso reduzido do cartão de crédito.
Os números são do estatal CNNIC (Centro de Informação de Internet, em português). O órgão do governo estima que serão 412 milhões de usuários em 2020.
"A internet se tornou a maior plataforma para se medir a opinião pública na China. Do governo às grandes empresas, o acompanhamento aos debates na rede se tornou parte do dia-a-dia", disse à Folha Victor Yuan, CEO da Horizon, a consultoria responsável pelas maiores pesquisas de opinião pública realizadas no país.
Mais de 100 milhões de internautas chineses possuem blogs -e 70 milhões deles foram atualizados nos últimos seis meses. "De CEOs de grandes empresas a políticos nas províncias e nas prefeituras, os chineses têm diários constantemente atualizados. Os blogs estão entre as páginas mais lidas", diz Jeremy Goldkorn, do blog Danwei, que analisa a mídia e a internet chinesas.

Consumo desconfiado
A importância política e cultural da rede ainda é bem maior que a econômica. Apenas 25% dos usuários já fizeram alguma compra on-line. O banco pela internet é usado por 23,4%. "Ainda há temor com a segurança, e as pessoas preferem fazer compras ao vivo, vendo as mercadorias", diz Yuan.
Uma pesquisa do CNNIC revela que, nas 15 cidades mais ricas do país, foram gastos 16,2 bilhões de yuans (R$ 4,3 bilhões) em compras on-line no primeiro semestre de 2008.
No país, 68% dos internautas têm menos de 30 anos, e o poder de compra é pequeno. Dos usuários que não são estudantes, apenas 6% tem renda maior do que 5.000 yuans (R$ 1.300) por mês.
O acesso melhorou muito -84,7% dos usuários chineses usam banda larga. Há 84 milhões de computadores pessoais para se acessar a rede e 74% dos usuários já acessam de casa; 39% dos usuários acessam de LAN houses e cibercafés.
A taxa média de conexão à rede no país é de 77 yuans (R$ 20) por mês. O gasto mensal em LAN houses fica em 44,8 yuans (R$ 12).

Made in China
A imensa maioria dos internautas chineses jamais recorre a sites internacionais. Quase todos os principais portais da internet já foram copiados por empresas chinesas, que imitam a idéia, mas adicionam o sabor (e os caracteres idiomáticos) locais.
Tudou e Youku são as versões locais do YouTube no compartilhamento de vídeos. O Taobao e o Dangdang equivalem ao site de leilões e vendas eBay. O Google chinês é o Baidu -o mecanismo tem 60% do mercado de buscas do país, mesmo percentual do Google nos EUA.
Já a rede social Facebook, a de maior sucesso internacional, com cerca de 100 milhões de adeptos espalhados pelo mundo, tem apenas 280 mil usuários na China.

Censura

O peso político da internet faz com que ela seja controlada com requinte pelo governo chinês. Estima-se em 30 mil o número de censores que ficam vigiando os principais fóruns e debates on-line -comentários sobre assuntos polêmicos são apagados em minutos.
O contato entre a rede da China e a do resto do mundo passa por um pequeno número de cabos de fibra óptica que entram no país em três pontos. Poucos lugares têm acesso a internet por satélite, que é caro. O governo consegue monitorar praticamente todo o tráfego que entra no país.
O sistema de monitoração e proteção é chamado pelo governo de "Projeto Escudo Dourado", embora os internautas o tenham apelidado de "Great Firewall", um trocadilho entre o nome da Muralha da China em inglês ("Great Wall") e o sistema de segurança firewall.
Parte do esquema de vigilância e monitoramento foi vendida ao governo chinês pela empresa americana Cisco.
Sites com informação sensível -como o da seita Falun Gong, banida no país e os das ONGs que defendem a independência do Tibete ou que divulgam relatórios sobre direitos humanos- são bloqueados. Censura válida para o centro de imprensa dos jogos.
Outra medida envolve os micros que tentam acessar sites proibidos e que começam a não conseguir abrir site algum. Esses usuários atraem a atenção do batalhão de censores -já aconteceu de usuários serem descobertos em cibercafés e receberem a visita de autoridades querendo saber o porquê da visita a páginas censuradas.

Escrito por Raul Juste Lores às 08h47

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Milli Vanilli 2008 em Pequim

Yang Peiyi and Lin Miaoke

A garotinha da esquerda, Yang Peiyi, é a dona da voz da música que abriu a cerimônia de abertura da Olimpíada. Mas um chefão do Partido Comunista que assistiu aos ensaios disse que ela não "ficava bem" por causa dos dentinhos tortos, e pediu que fosse escalada uma menina mais bonita, "pela imagem da China". Aí a da direita, Lin Miaoke, ganhou os holofotes, com seu vestidinho vermelho na festa, e dublou feliz e contente. Nascia o Milli Vanilli* versão 2008. Que uma menininha fofa e talentosa como Yang seja descartada por questões de beleza mostra a paranóia "perfeccionista" que cerca a organização destes Jogos. Menos, menos.

(* Estou delatando minha velhice... Milli Vanilli é uma banda technopop alemã que contratou uma dupla de vocalistas fake que só aparecia nos clipes, dublando. O regime chinês não inovou completamente)

Escrito por Raul Juste Lores às 08h41

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Revolução sexual tardia

CHINA COMEÇA A VIVER REVOLUÇÃO SEXUAL , MAS TEMA AINDA DESAFIA MORAL DO PAÍS QUE PREZA VIRGINDADE E NO QUAL HOMOSSEXUALISMO ERA CRIME ATÉ 2001 

A idade média da primeira relação sexual na China é de 21 anos. Qualquer nudez, até o relance de um seio, é proibida em revistas, televisão ou cinema. Não existe educação sexual nas escolas. A modernidade chinesa passa longe da alcova.
"A nossa educação e as políticas governamentais ainda são bastante anti-sexo", diz à Folha a maior sexóloga da China, Li Yinhe, 55. "Querem que nossos jovens saibam de sexo o mais tarde possível."
Li diz que o chinês é educado a respeitar tanto a mulher que não paquera como os ocidentais. "Ser sensual não tem importância entre eles. Muitas chinesas acham os ocidentais mais sexy, porque são mais agressivos, galanteadores."
Seus estudos causam polêmica no país desde os anos 80. Feminista e membro da prestigiada Academia Chinesa de Ciências Sociais, ela foi a primeira a escrever sobre homossexuais nos anos 90. "Até então, a maioria dos chineses jamais havia ouvido falar da existência de gays", diz. O homossexualismo era crime no país até 2001.
Ainda assim, a China vive o início de sua revolução sexual. Pela primeira vez na história, casais aparecem de mãos dadas e até se beijando em público. Um vídeo tirado das câmeras de segurança do metrô de Xangai, que captam um casal em beijos apaixonados, foi um dos mais vistos na China neste ano.
Mais da metade dos jovens chineses fizeram sexo antes do casamento, ainda que o sexo na adolescência seja raridade.
Há estimados 5.000 sex shops na China, ainda escondidos, mas uma novidade.
A prostituição é proibida no país. Oficialmente, não há bordéis, mas há dezenas de falsos salões de beleza que funcionam como prostíbulos.
A abordagem não ocorre na calçada. Elas chamam de dentro do salão: "Você quer corte de cabelo ou serviço completo?". Quem quiser um penteado ouvirá a resposta-padrão: "Ah, só tem serviço completo".
A China mais liberada já tem sua Leila Diniz. A cineasta Muzimei, 30, causou escândalo ao postar fotos sem roupa em seu blog em 2005. Não contente, ela gravou um podcast durante uma relação sexual. Atacada pela mídia por seu exibicionismo, tornou-se mais reclusa.
"Pode-se fazer muito sexo na China, mas jamais falar disso. Tive vários parceiros, transas de uma noite só, mas o país faz ode à virgindade. Não me arrependo do que fiz, você desafia a moral do país se falar o que realmente faz", diz Muzimei.
As chinesas sofreram especialmente durante a Revolução Comunista. Mulheres também usavam os terninhos azuis acinzentados masculinos do presidente Sun Yat-sen, figurino adotado por Mao Tse-tung. O cabelo curto era estimulado.
"Precisávamos de muita imaginação para perceber as formas femininas naquelas roupas", conta o americano John Pomfret em seu livro "Caminhos da China", sobre o período em que estudou no país, início dos anos 80. "Mas, nos 90, a paquera das chinesas com os ocidentais era bem direta e era fácil consumar uma relação."
Se o clima hoje é de liberação, a abertura ainda tem suas recaídas. O thriller político-erótico "Lust, Caution" ("Desejo, Cuidado"), dirigido por Ang Lee, perdeu 20 minutos em sua estréia na China, com o corte de todas as cenas de sexo.
Sem querer punir o diretor, famoso em Hollywood, nem o astro do filme, Tony Leung, o governo baniu da mídia a bela protagonista Tang Wei. Ela está proibida de aparecer na TV chinesa ou de estrelar comerciais e filmes porque aparece nua no longa-metragem.
O filme anterior de Ang Lee, "O Segredo de Brokeback Mountain", sobre dois cowboys gays, rodado nos EUA, foi proibido na China pelo conteúdo.
Apesar de seus 17 milhões de habitantes, Pequim tem apenas uma boate gay, fechada pela polícia às vésperas dos Jogos.
A única grande celebridade do país que saiu do armário foi o ator Leslie Cheung, protagonista de "Adeus, minha Concubina". Ele se suicidou em 2003.

Escrito por Raul Juste Lores às 04h58

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A síntese de Dunga

Não vou entrar em méritos futebolísticos, mas a definição de Dunga da burocracia chinesa é acertadíssima:

"A gente já tem pouco tempo de treino, e chega aqui só tem uma hora, uma hora e 15 minutos, determinado por aqueles que nunca jogaram futebol", disse Dunga, sobre o fato de ter horários fixados, e com limites, pela organização para os treinos.

"A comida é um problema. Eles têm dificuldades. Você fala com o chefe de cozinha para mudar o cardápio, aí ele que tem falar com o chefe dele, que tem falar com o chefe dele, que tem que falar com o chefe dele. Aí já acabou a Olimpíada."

E olha que o Brasil não é lá um lugar descentralizado, mas aqui ganha...

Escrito por Raul Juste Lores às 04h49

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Performance esportiva e honra nacional

HISTORIADOR CHINÊS XU GUOQI EXPLICA POR QUE SEU PAÍS PRECISA SUPERAR OS EUA NA OLIMPÍADA E POR QUE PARECE NÃO HAVER LIMITES NA BUSCA DESSE OBJETIVO

Nenhum outro país relaciona a honra nacional com a performance esportiva como a China. Virar uma potência na Olimpíada que começa hoje é "voltar ao mundo como um país sem complexos de inferioridade".
Quem diz isso é o historiador chinês Xu Guoqi, autor de "Olympic Dreams - 1895-2008" (Sonhos Olímpicos, editado pela Harvard Press). Em quase 400 páginas, ele mostra como o ressurgimento do Movimento Olímpico coincidiu com diversas derrotas militares da China no final do século 19. "Os chineses se deram conta de que eram homens fracos", diz.
Xu explica como um país com pouca tradição olímpica pode até desbancar os EUA no quadro de medalhas em Pequim. Ainda que o complexo de inferioridade persista.
"Para o homem chinês, a medalha mais importante seria a do futebol. Já é o esporte mais popular no país, mas os chineses se sentem envergonhados pelo que fazem em campo."

POVO FRACO
Por mil anos, pela tradição, nossas mulheres tiveram seus pés mutilados, enquanto o sonho dos homens era ser funcionário público, mandarim. Nossa cultura diz que quem usa o cérebro manda no que usa força física. Achávamos esportes, força bruta, algo degradante. No final do século 19, a China foi derrotada em sua primeira guerra contra o Japão e perdeu Taiwan. Para nós, o Japão era o irmão menor, que teve toda sua cultura influenciada pela China. Como até eles puderam nos derrotar? Perdemos de Inglaterra, França, Japão... Vivemos uma crise de identidade.

HOMEM DOENTE
O termo "homem doente da Ásia" foi criado na própria China. À época, o corpo do homem chinês era motivo de vergonha. Não tínhamos nem a palavra em chinês que designa esporte, tiyu, antes do final do século 19. Os nacionalistas diziam que precisávamos do espírito de combate que o esporte proporciona. Sun Yat-Sen e Mao [Tse-tung] falaram da importância de que o povo chinês se exercitasse. Isso coincide com o crescimento do olimpismo.

HONRA E COMPLEXOS
Poucos países ligam tanto a honra nacional à performance esportiva. O governo chinês é o que mais gasta com a prática esportiva. Menos do que o mundo corporativo e universitário nos EUA gastam, mas mais que qualquer outro país. É um empreendimento do governo, patrocinado, com uma população enorme, onde é fácil selecionar. A economia continua crescendo, é tempo para deixar os complexos para trás.

ASCENSÃO SOCIAL
Ainda que exista certo preconceito contra o esporte nas classes altas, no campo é visto como um atalho para a ascensão social. Muitas famílias de agricultores têm mais de um filho e sabem que a chance de sucesso no interior é pequena. Esses jovens são mais fortes fisicamente que os das cidades.

SELEÇÃO DE ATLETAS
Todo Estado chinês participa da seleção de futuros atletas. Do professor de educação física da escola mais simples a prefeituras, condados, governos provinciais e Pequim. As crianças são retiradas do convívio com a família muito cedo para serem treinadas. Quem vai resistir a técnicos e autoridades dizendo que seu filho pode servir para a glória do país? Também há promessas materiais, dinheiro, ainda que poucos triunfem. A maioria será de perdedores.

ESTADO-EMPRESÁRIO
No contrato entre os atletas e o governo é estipulado que homens e mulheres só podem se casar após os 26 anos. Eles são empregados do Estado, seguem disciplina militar. O Estado é caça-talentos, agente, patrocinador, patrão. Ninguém reclama dos rigores, pois tem seus privilégios. Mas o Estado é duro. O campeão de saltos ornamentais Tian Liang foi tirado da seleção porque estava fazendo propaganda demais, participações na TV, perdeu o foco.

PAÍS ACIMA DE TUDO
Vários medalhistas de Atenas foram cortados para competir em Pequim. Não há privilégios para as estrelas. O país é o que importa, e, acima de tudo, todos precisam obedecer. Há fartura de atletas excepcionais em várias modalidades, então somente os que estão no auge participam. Quatro anos é muito para um atleta. Quem não está tão bem é cortado.

INTERNATO
Os atletas passam meses longe da família e dos pais. Alguns ficam mais de um ano sem ver os parentes. A idéia é que não haja distração. Por isso, os namoros são proibidos. Nas modalidades em que a China não vai tão bem, como atletismo e natação, os atletas têm uma rotina mais puxada e de sacrifícios. São os que sofrem mais.

BOM NEGÓCIO
É verdade que os atletas tenham que dar parte do que ganham no exterior ou com publicidade para o governo. Seus clubes pertencem ao Estado, que gastou muito com sua formação. É como a transferência das estrelas de futebol. Acho certo. E eles não reclamam, pois têm contratos milionários de publicidade. Que grande empresa não quer ter um garoto-propaganda que seja ídolo em um mercado de um bilhão de pessoas e com boas relações com o governo?

MEDALHA MAIS DIFÍCIL
Os chineses adoram ver futebol, pelo prazer do jogo. Acompanham seleções estrangeiras e times de fora como se fossem seus. A medalha que mais importaria para o chinês é aquela que não temos condições de ganhar, a do futebol masculino. Quando perdemos as eliminatórias da Copa de 2010, contra o Iraque, o país se perguntou: como até um país destruído pode nos derrotar? É a masculinidade chinesa em xeque.

SEM CRAQUES
A cultura chinesa não valoriza ou estimula a individualidade e a criatividade, que são fundamentais para o surgimento de um craque, de um talento único. As crianças urbanas na China não têm campos de futebol, as cidades são apertadas, não há espaço para treinar, não é como a criança no Brasil. A China assiste, mas não joga futebol. É um jogo que demanda muito treino, não é só hobby. Nosso campeonato também não ajuda, é muito corrupto.

FUTEBOL-SÍMBOLO
O grande líder Deng Xiaoping adorava futebol. Nos anos que morou na França, aprendeu a gostar de pão e futebol. Após perder o poder algumas vezes, usou um jogo, China x Hong Kong, em 1977, em Pequim, para mostrar que tinha voltado ao poder. Sua chegada à tribuna foi uma consagração.

Escrito por Raul Juste Lores às 09h25

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A Cidade Proibida do Comunismo

A SEDE do governo chinês é impenetrável. Nada como a Casa Branca ou o Palácio do Planalto. A TV jamais mostra imagens externas dos palácios e lagos de Zhongnanhai, o fortificado complexo que é sede do Partido Comunista e onde moram os grandes dirigentes da China.
O conjunto é colado à Cidade Proibida (o nome diz tudo), onde também se escondia a família imperial chinesa.
No início da Revolução Comunista, Mao Tse-tung quis reinventar o país. Acabou com a propriedade privada e até tentou destruir a família, convocando filhos a delatar seus pais por "atitudes burguesas".
Mas o exercício de poder permaneceu intacto. Monarcas e líderes comunistas têm o menor contato possível com a plebe extramuros. A mídia chinesa é proibida de falar de qualquer aspecto da vida privada do presidente, Hu Jintao.
Apesar de secreto, a manifestação de poder é sentida em toda a cidade. O gigante retrato de Mao na entrada da Cidade Proibida mostra qual é a dinastia que está no trono.
As principais construções olímpicas foram erguidas na mesma direção dos palácios imperiais. A cidade de Pequim é dividida em anéis, que se expandem a partir da Cidade Proibida, cujos contornos formam o primeiro anel.
Quando você tem de enfrentar um congestionamento terrível no terceiro ou quarto anéis, é porque elevados e vias expressas seguem essa geometria centralizadora.
Ser amigo do rei abre todas as portas. Nove entre dez grandes fortunas do país têm profundos vínculos com o Partido Comunista. Vários colocam seus cargos no PC no cartão de visitas.
Na vida social de Pequim, ainda cita-se com freqüência parentesco com os grandes líderes chineses. Em todo jantar, surge alguém gabando-se de ser primo distante do reformista Deng Xiaoping. Pelos meus cálculos, ele teve uns 250 mil primos. Haja família.

(Esta é a terra do quem-indica... publiquei na edição de hoje da Folha, dentro da coluna "Guerra Fria"; o Sergio Dávila escreve pelo lado de Washington)

Escrito por Raul Juste Lores às 14h52

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Tudo azul

Manifestantes ingleses e americanos pró-Tibete foram presos hoje em Pequim (mas primeiro eles conseguiram desfraldar a bandeira do Tibete Livre em um poste bem em frente do Estádio Nacional). Foi o primeiro protesto para valer desses jogos, em uma cidade fortificada (como eles chegaram lá???). Três americanos protestaram contra a política de natalidade na China na Praça Tiananmen e na segunda um grupo de moradores despejados reclamou das indenizações magrinhas que receberam do governo. Será que é só o aperitivo? Por enquanto, nenhuma linha na imprensa estatal. A manchete do China Daily é que Sarah Brightman cantará na cerimônia de abertura dos Jogos. Agora vai...

Escrito por Raul Juste Lores às 13h05

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O mundo quer falar inglês

Esse documentário mostra bem a loucura pelo inglês na China. Ainda que o filme também sirva de propaganda para a Olimpíada. No mundo real, jamais conheci um taxista tão esforçado e simpático como os que aparecem na tela, nem os chineses são assim tão solícitos com os estrangeiros. Nas últimas seis décadas, o regime comunista martelou na cabeça do chinês que existe um complô do mundo contra o país, que ocidentais não querem deixar a China virar potência, o que criou um povo bastante desconfiado, para dizer o mínimo. Fomentar um inimigo externo é comum não só em ditaduras...

Sobre o frenesi que o inglês produz na China, escrevi uma reportagem na Folha deste domingo, que copio abaixo.

Método, apelidado "Crazy English", já foi usado por ao menos 20 milhões de pessoas

Li Yang, 39, dá aulas para até 30 mil compatriotas ao mesmo tempo; lições duram o dia inteiro, mas resultados práticos são questionáveis 

Uma longa fila se organiza para a chamada oral matinal. Só após pronunciar corretamente algumas frases em inglês é que os alunos têm direito a tomar o seu café da manhã.
No almoço, no jantar e antes de dormir, o pequeno teste se repete: professores organizam dezenas de alunos em filas, e os garotos precisam gritar seu texto já decorado. A fome pode esperar enquanto houver escorregões na pronúncia.
A colônia de verão "Crazy English" (inglês louco) atraiu 600 estudantes de toda a China. Estuda-se inglês das sete da manhã às dez da noite, com pausa para uma soneca de uma hora após o almoço.
A grande atração é Li Yang, 39. Mais popular professor de inglês da China, ele criou o "Crazy English", um método de aprender inglês literalmente gritando, que já vendeu 20 milhões de livros, CDs e DVDs no país. Exagerado, ele disse à Folha que seu material já foi usado por 100 milhões de chineses.
Com suas aulinhas de inglês, Li virou celebridade. Dá cursos ao ar livre para grupos de 20 mil a 30 mil pessoas de uma vez e até ministrou uma aula em plena Muralha da China para soldados do Exército. Ele pode faturar o equivalente a R$ 250 mil em uma única dessas aulas para multidões.
"Durante décadas, ouvimos que o inglês era o idioma do capitalismo e do império, mas hoje sabemos que o inglês é o idioma das oportunidades", diz. Até os anos 70, o russo era o segundo idioma ensinado nas escolas, graças à afinidade ideológica com a União Soviética.
Hoje, de caixas de supermercado a motoboys, é comum ver pessoas bem simples tentando praticar o inglês com estrangeiros. Há 400 milhões de chineses estudando inglês, mas a maioria não consegue falar quase nada.

"Não decepcione seu país"
É em ação que o carisma de Li se revela. Se o padre Marcelo Rossi abandonasse a batina para dar aulas de inglês com seu fervor, não seria muito diferente do que é Li no palco. Até professor de cursinho no Brasil perde.
Li pula, faz grandes gestos com as mãos tentando explicar as vogais do inglês. "Chaaaaaaange, cuuuuuuuulture", exclama. Os alunos repetem as frases, que geralmente misturam auto-ajuda com nacionalismo chinês.
"Não decepcione o seu país", "Eu quero espalhar a cultura chinesa pelo mundo", "Crazy English mudou minha vida e me deu confiança" são entoadas em inglês à exaustão.
No refeitório, nos corredores e nos dormitórios da escola particular alugada para o curso intensivo, há fotos de Li espalhadas por todos os cantos. As legendas são mantra motivacional: "Aperfeiçoar totalmente o inglês é a melhor forma de amar o seu país" e "A maior honra é superar dificuldades".

Fanatismo
Alunos choram e dão depoimentos no palco, relatando como o inglês mudou suas vidas, o que reforça o clima religioso da aula. Adolescentes mais assanhadas quebram o rigor do momento, tirando fotos de Li Yang e dos atléticos professores australianos, que são facilmente confundidos com surfistas.
Todos brandem suas apostilas ao alto, como os chineses faziam no passado com o Livro Vermelho, repleto de citações do ditador Mao Tse-Tung (1949-1976) durante a Revolução Cultural -um dos momentos mais violentos da história da China, quando dissidentes eram perseguidos.
Tais rompantes são criticados no país, até pela imprensa oficial. Após publicar uma foto em que centenas de estudantes se ajoelharam com a cabeça no chão, em sinal de "gratidão" aos professores, 270 mil comentários foram postados em seu blog -a maioria criticava o "fanatismo religioso" inculcado aos alunos.
Professores menos conhecidos também atacam a eficácia do método. Argumentam que melhorar a pronúncia e dar confiança só funciona a quem já tem certo nível de conhecimento do idioma. Também dizem que, para iniciantes, pode se limitar bordões decorados em muitos decibéis.
Uma das empresas de Li Yang - ele tem uma equipe de 400 funcionários - foi contratada no ano passado pelo Comitê Organizador da Olimpíada de Pequim para treinar 100 mil voluntários. Mas ainda é raridade encontrar nas instalações olímpicas alguém que vá além do "welcome to Beijing".

Escrito por Raul Juste Lores às 04h36

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No Vietnã, faculdade é toda em inglês

Na Universidade de Hanói, todas as aulas dos cursos de administração de empresas, turismo e tecnologia são em inglês. O primeiro ano de faculdade oferece um curso intensivo no idioma para quem ainda tem dificuldades.
"É uma maneira de assegurar destaque no mercado de trabalho para os nossos alunos. Gente de outros países vem estudar aqui por esse diferencial", disse à Folha o reitor da Universidade, Nguyen Xuan Vang.
O Vietnã tem pressa para capacitar a sua população. O reitor Vang chefia no Ministério da Educação um projeto de bolsas para a formação de 20 mil PhDs a partir deste ano - 50% deles estudarão no exterior. Também neste ano, a Universidade de Hanói e outras três deixarão de receber subsídios estatais para a folha de pagamento e terão que buscar financiamento.
As 390 universidades e colégios superiores públicos são pagos. A anuidade é de US$ 100 em média, não tão barata em um país onde a renda per capita é de US$ 800. Os alunos de famílias mais pobres ou de minorias étnicas conseguem empréstimos do Estado.

Escrito por Raul Juste Lores às 04h29

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Os jornalistas e a China

"Olha, eu preciso de um telefone aí na Vila Olímpica...", começo.

"Não podemos dar nenhum telefone, eu preciso da autorização do meu chefe...", interrompe a assessora de imprensa da Vila Olímpica.

"Mas aí não é o escritório de imprensa da Vila Olímpica? Eu sou jornalista, é um telefone da delegação...", tento explicar.

"Ah, mas o chefe ainda não autorizou, você pode enviar um fax com o seu pedido?", devolve a moça.


Isso acontece a cinco dias da abertura da Olimpíada. Cerca de 30 mil jornalistas estrangeiros devem cobrir os Jogos, mas a historinha do "manda um fax" ainda permanece. Na China, onde todo mundo era funcionário público burocrático até ontem, ser jornalista é enfrentar má vontade sempre. Para quem acaba de chegar no país, cá entre nós, não vê a China real: a situação no Centro de Imprensa é profissional até. Há coletivas diárias, celulares nas mãos dos burocratas com a obrigação de falar com jornalistas, algo incomum. A norma no país é alguém pedir um fax, com o carimbo do seu jornal, antes de marcar qualquer entrevista. Depois de aceitarem, vão pedir uma lista de perguntas por escrito. E várias vezes alguém vai responder: "você pode ligar no mês que vem?". Tudo sem pressa.

Até 2003, jornalistas estrangeiros precisavam pedir autorização do governo para entrevistar qualquer pessoa _ anônimos inclusive. Até 2006, qualquer viagem, até Xangai ou Sichuan, por exemplo, precisava do OK governamental. Ser jornalista na China demanda paciência e musculatura, principalmente vocal. Gritar e gesticular com raiva às vezes dá resultado. Só não dá para ficar quieto.

Nas entrevistas coletivas com jornalistas estrangeiros presentes, sempre há o momento constrangedor em que um jornalista chinês pede a palavra, mas não faz pergunta nenhuma. "Olha, eu queria comentar que o nosso governo tem feito um excelente trabalho, que as autoridades são muito profissionais, que precisamos ter orgulho do nosso país", só o começo da ladainha puxa-saquista que deve garantir o salário no fim do mês. Acho que deve haver rotação de quem bajula e quando.

Em um país que nunca teve democracia em 5 mil anos de história e a imprensa estatal elogia o governo dia e noite, jornalismo crítico é alienígena. De pessoas simples a diretores de grandes empresas, a regra é "não posso falar sobre isso", "ah, por que você não pergunta para outra pessoa" ou "olha, até tenho opinião, mas você não pode publicar meu nome". O medo é justificado: há chefetes nos bairros de Pequim, que andam com braçadeiras vermelhas, dispostos a espionar e delatar os vizinhos que falem com a imprensa estrangeira. Hu Jia, o mais famoso dissidente chinês no momento, que luta por causas que vão do meio ambiente aos direitos dos soropositivos, foi condenado a 3 anos e meio de prisão depois de dar uma entrevista crítica a Reuters.

Quando cheguei em Pequim, foram necessários uns 50 dias até "regularizar" a minha situação. Para ser correspondente aqui, são necessários registros no Ministério das Relações Exteriores, no Centro de Imprensa Estrangeira, na delegacia do bairro e na Secretaria de Segurança (onde passei quatro horas em uma fila para pagar uma das dez taxas pedidas). E dez exames médicos, de HIV a hepatite, o que poderia barrar minha permanência no país. São necessárias umas três visitas a cada uma dessas repartições _ afinal, alguém precisa dar emprego para tantos carimbadores. Não que isso tudo funcione: as primeiras coletivas que estive no governo fui avisado por colegas. Ainda não se criou o "mailing" por aqui.

Nos últimos meses, quando deveria preparar o país para receber os forasteiros, o governo estimulou uma campanha diária para culpar a imprensa estrangeira de distorcer a realidade chinesa. Enquanto proibia os jornalistas estrangeiros de entrar no Tibete (durante confrontos que ninguém sabe exatamente como começaram, nem como terminaram, tampouco porque aconteceram), a mídia estatal nos acusava de distorcer algo que fomos impedidos de ver. E dá-lhe discussão sobre a "manipulação da imprensa do Ocidente". Ver chinês discutindo imprensa livre é quase como se nós, brasileiros, ficássemos discutindo a neve _ algo que a maioria só conhece pela tevê.

Como a vida não é só choro, olha o que a organização colocou à disposição dos jornalistas aqui no Centro de Imprensa olímpico. A boa, velha e centenária massagem chinesa. Grátis. Pelo menos, por vinte e tantos dias, parece que a relação China - imprensa ocidental está mais civilizada. Tomara que esse carinho seja o ínicio de uma nova era. De um país interessantíssimo que não tema a opinião externa e de menos barreiras para se escrever sobre o que vemos. Principalmente, que os chineses não tenham medo de falar. Mas sei que isso ainda vai levar um bom tempo.

 

Escrito por Raul Juste Lores às 10h00

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Samba brasileiro sofre em Pequim

Nem Carmen Miranda passou por algo parecido nos Estados Unidos. As sambistas da Escola Vila Isabel, do Rio, foram obrigadas a dançar ao som de mariachis em Pequim _ conto abaixo como foi a "Noite Latino-americana", evento do Ministério de Cultura da China, pré-Olimpíada. Gostaria de ver a reação de chineses se artistas de seu país fossem obrigados a dançar com japoneses e coreanos em um evento no exterior...

Escrevi na Folha de hoje:

Pequim teve sua noite de South American Way. As sambistas da escola carioca Vila Isabel dançaram ao som de "Cielito Lindo" acompanhadas por bailarinos de tango e mariachis. Mas não houve gingado no mundo que fizesse as mulatas se encaixarem com os trinados mexicanos.

O Ministério da Cultura chinês apresentou ontem a "Noite Latino-americana", dentro da programação que homenageia os países convidados para a Olimpíada de Pequim. O governo chinês convidou artistas de Brasil, México, Argentina, Colômbia, Peru, México, Cuba e Bahamas para o show, realizado no Grande Salão do Povo, onde se reúnem do Congresso Nacional ao Partido Comunista.

Em seu sonho de ser superpotência, a China conseguiu superar os Estados Unidos dos anos 40. Nem a Hollywood dos tempos de Carmen Miranda promoveu tamanho pastiche da cultura da América Latina.

O diretor artístico, o chinês Ding Wei, decidiu colocar todo mundo junto. "A América Latina é muito homogênea, dá para misturar tudo", disse ele a um jornalista chinês.

Em uma hora e meia de espetáculo, o Brasil acabou ficando apenas com 5 minutos de show, com direito a dois sambas, "Zumbi Kizomba" e "Aquarela Brasileira". As apresentações mexicanas e colombianas levaram quase meia-hora cada uma.

"Eles deram prioridade para os balés e só queriam música em espanhol", disse à Folha o diretor da Velha Guarda de Vila Isabel, Adilson Pereira. "Queríamos cantar Noel Rosa, Clara Nunes e Ary Barroso, mas os números foram vetados."

O resto você lê aqui http://www1.folha.uol.com.br/fsp/esporte/fk0208200810.htm

 

Escrito por Raul Juste Lores às 08h31

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Raul Juste Lores Raul Juste Lores, 33, correspondente da Folha em Pequim. Foi correspondente em Buenos Aires e editor de Internacional da Revista Veja e apresentador e editor-chefe do Jornal da Cultura, na TV Cultura.

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