Raul na China
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US$ 40 bilhões desperdiçados em Pequim

Nos últimos sete anos, Pequim gastou 40 bilhões de dólares na preparação de sua Olimpíada, em agosto. Com esse dinheiro, qualquer prefeito talentoso no mundo teria criado algo parecido a uma cidade dos sonhos. Nada mais distante disso que Pequim. Permanentemente poluída e congestionada, é um tormento para seus habitantes.

(modernidade sob fumaça.... 3 da tarde de domingo em Pequim)

Mas os turistas vão encontrar durante os Jogos uma Pequim de mentirinha, graças a um rodízio radical. De 20 de julho a 20 de setembro, metade dos carros ficarão na garagem por decreto. Um dia circulam os carros com placas de final par, outro para as de final ímpar. Pobres das milhões de pessoas que precisarão recorrer ao metrô e aos ônibus locais, onde até sardinha enlatada sofre claustrofobia. Ao fim dos Jogos, volta a poluição. Há um mês, em pleno verão, o sol é encoberto pela redoma de fumaça.

A capital chinesa destruiu boa parte do patrimônio histórico que lhe restava e deu ordem de despejo a um milhão de pessoas em sete anos. Construiu condomínios fechados, 80 shopping centers, quarteirões enormes, daqueles que só corredores de longas distâncias conseguem contornar. E dezenas de minhocões e vias expressas. Pedestres e ciclistas sofrem uma corrida de obstáculos para se locomover. Uma metrópole malufista, enfim. Com 5 mil anos de história e um governo cheio de dinheiro, é decepcionante ver o tipo de capital que os chineses ergueram, repetindo as mesmas deficiências da pobre e comparativamente novata São Paulo.  

FAVELAS E MAQUIAGEM

De última hora, a cidade está ganhando desajeitadas floreiras em seus minhocões e vias expressas, e decrépitos conjuntos habitacionais da época comunista ganharam uma pintura. Pequim continua com um terço de seus moradores vivendo de forma irregular. Há favelas de todos os tipos _ de barracos sem janela onde oito pessoas dormem em um cômodo aos velhos cortiços, onde só há banheiros coletivos na rua _ os moradores defecam à vista de quem espera sua vez.

Também há favelas invisíveis, que abrigam os pedreiros da construção civil e os empregados de grandes centros comerciais, migrantes que vêm da zona rural, e que moram nos subterrâneos de seus empregos para facilitar as jornadas de 12 horas de trabalho. Milhares deles serão mandados de volta a suas províncias natais durante os Jogos. Pela legislação chinesa, que controla o movimento interno, o cidadão precisa morar onde é registrado. Esses retirantes estão ilegalmente nas cidades, e o governo permite essas migrações apenas quando a mão de obra barata é necessária. A maquiagem olímpica também é humana e os mais pobres não foram convidados à festa.

Boa parte das poderosas imagens da Olimpíada se devem a dois espetaculares edifícios recém-construídos, o Estádio Olímpico, dos arquitetos suíços Herzog e De Meuron, e o ginásio aquático, obra de um escritório australiano. São dois entre os raros gols a favor na gastança olímpica. No Brasil, certamente arquitetos sem talento queimariam as pranchetas em protesto contra estrangeiros desenhando obras únicas. A China engoliu seu nacionalismo e trouxe de fora os melhores para construir os ícones dos Jogos.

Mas como a prática esportiva ainda é mínima no país, onde produzir medalha é prioridade, os novos estádios devem se tornar elefantes brancos muito breve. Mais ou menos como a Vila Olímpica do Pan, no Rio de Janeiro, onde instalações esportivas estão semi-abandonadas, e que custaram mais de 3 bilhões de reais aos cofres públicos brasileiros. Pequim pode ter errado feio em suas prioridades, mas não é muito diferente do que aconteceria em uma eventual Olimpíada no Brasil. Triste, né? O exemplo de Barcelona, que usou a Olimpíada para se recriar de ponta a ponta, ficou para a história.

(Desculpem a incontinência deste primeiro post; este blogueiro principiante promete posts mais curtos daqui pra frente e compartilhar o cotidiano na China. Frequentemente, os bastidores das reportagens aqui são tão reveladores sobre este país quanto o resultado final das mesmas. Com prazer, quero compartilhar com vocês o assombro que provoca a nova superpotência mundial)

 

Escrito por Raul Juste Lores às 16h00

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PERFIL

Raul Juste Lores Raul Juste Lores, 33, correspondente da Folha em Pequim. Foi correspondente em Buenos Aires e editor de Internacional da Revista Veja e apresentador e editor-chefe do Jornal da Cultura, na TV Cultura.

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