Raul na China
raulnachina
 

Orgulho de falar bem inglês

Esqueça a empostação dos apresentadores e o visual anos 50 do cenário. O que mais chama a atenção nesse programa da Tv estatal chinesa é o orgulho e a festa que se faz no país para quem fala bem inglês. O concurso acima é bastante popular (já vi umas três reprises do programa). Apesar de todo o nacionalismo chinês, o pragmatismo fala mais alto. Saber inglês é garantia de emprego e de salário melhor. Nunca ouvi ninguém reclamar do "idioma do imperialismo" por aqui.

Escrevi neste blog sobre as estimativas de que 100 milhões de chineses estejam estudando o idioma. Já vi caixas de supermercado com apostilas no colo para os raros minutos em que podem estudar. Vi operárias de fábricas no sul da China que, após turnos de 12 horas de trabalho, ficam estudando inglês em seus iPods piratas em pequenos dormitórios.

A importância do estudo no Extremo Oriente (incluídos Japão e Coreia) já é bastante conhecida e o respeito a professores e a participação da família no aprendizado são generalizados neste lado do mundo. Mas, usando um termo do meu amigo Tony Goes, para os chineses "já caiu a ficha" de que o estudo e o aprimoramento pessoal são dever de cada um _ não basta ficar esperando o dia em que governos farão tudo por nós. 

Escrito por Raul Juste Lores às 02h06

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O drama dos uigures na China

Sem ter um embaixador pop como o Dalai Lama, a minoria muçulmana uigur na China vive um drama pouco conhecido no exterior. No ano passado, um protesto de estudantes uigures por crimes não-esclarecidos contra conterrâneos no sul da China descambou para uma violência racial de uigures contra han e vice-versa que matou mais de 200 pessoas _ o que desmente o discurso oficial chinês de "harmonia étnica". De julho a dezembro, a província de Xinjiang, onde vivem os uigures, ficou sem acesso à internet "por razões de segurança".

Por seus estudos sobre o fracasso das políticas chinesas para as minorias étnicas do país, o professor de economia Ilham Tohti, 41, foi preso no ano passado por dois meses. Membro do Partido Comunista chinês e professor da estatal Universidade Central das Nacionalidades, ele diz não defender o separatismo, mas critica a discriminação sofrida pelas minorias "que preservaram sua identidade cultural" e diz que com o fim do comunismo, a ideologia dominante é o "nacionalismo da maioria han", o que deixa de fora uigures e tibetanos.

"A China precisa aprender a se orgulhar de ser um país multiétnico, e não de tentar a assimilação à força", diz Tohti. Ele cita diversos exemplos. "Há 6600 taxistas em Urumqi, mas apenas 90 são de minorias étnicas. Enquanto em outras Províncias, o taxista precisa ser local, em Xinjiang pode ser de fora, o que facilita a migração de han para lá. A estatal China Unicom em Xinjiang tem 1200 funcionários, só 2 são uigures. No banco China Marchants, de 1300, só 12 são de minorias. Na estação de trem, poucos balconistas são uigures", critica.

O governo tem estimulado a migração interna de chineses han para Xinjiang. Na capital, Urumqi, onde abundam os empregos no funcionalismo público, 70% da população já é chinesa han (era menos de 10% nos anos 50). 

"O modelo de vestibular chinês, o gaokao, é muito injusto com as minorias. A nota de corte é fácil para os han, mas é alta para os uigures que não dominam o mandarim", diz Tohti. "Nas universidades locais, em 1978, 78,9% dos alunos eram das minorias étnicas, hoje são 17,7%".

Para ler a entrevista com o professor Tohti, clique em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft2102201009.htm

As fotos acima são do centro histórico de Kashgar, cidade que há mil anos era coração da Rota da Seda. Governo chinês diz que destruição é por "razões de segurança". (FP/EPA)

Escrito por Raul Juste Lores às 12h01

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A China defende o Irã

As sanções contra o programa nuclear do Irã tem um adversário de peso: a China, membro permanente do Conselho de Segurança da ONU e grande aliado econômico do país dos aiatolás. 23 milhões de toneladas de petróleo, 11% do que a China importa por ano, vêm do Irã e há contratos bilionários para a exploração de gás e construção de infraestrutura. O metrô de Teerã, o primeiro do Oriente Médio e do Golfo, foi construído pelo conglomerado chinês Citic.

Entrevistei em Pequim o ex-embaixador da China no Irã Hua Liming, 70. Ele me disse que a via diplomática não foi esgotada e diz que a China será cautelosa em aprovar qualquer sanção. "Como país em desenvolvimento, a China já foi vítima de sanções, então é muito cuidadosa ao aprovar sanções a um terceiro", ele me disse.

"Os EUA têm usado dupla moral na avaliação da produção de armas nucleares. Os EUA apoiaram Israel, Índia e Paquistão a produzirem as suas, assinaram programas de cooperação", critica. "O foco americano é frouxo quanto ao que Israel pode produzir, por exemplo. Os EUA são responsáveis por fazer a Coreia do Norte ou o Irã ambicionarem armas nucleares. Os dois se sentem inseguros por não terem armas nucleares e viverem a ameaça de invasão", explica.

Fluente em farsi, Hua foi intérprete de Zhou Enlai e Deng Xiaoping em reuniões com líderes iranianos. Para ler a entrevista na íntegra, clique em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft1202201007.htm

Na foto, Ahmadinejad posa com operários chineses em construção no Ira (France Presse)

Escrito por Raul Juste Lores às 01h54

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Ano Novo Chinês, o ano do Tigre

Natal, Carnaval e Reveillon em um único dia. E com o início das férias de janeiro. A China viveu tudo isso na noite de sábado para domingo. É o início do ano lunar, que é comemorado aqui e em vários países asiáticos. Na China, onde as férias não são regulamentadas, ele significa o "festival da primavera" (apesar da temperatura polar), um feriado que pode se esticar por dez dias e que é a única oportunidade para centenas de milhões de chineses visitarem parentes no interior e descansar. 2,5 bilhões de jornadas são feitas neste mês, a maioria de ônibus e trem. As famílias se reúnem para trocar presentes e não pense em ir visitar a vovó no campo sem um bom presente.

Mas também é carnaval, dado o foguetório diário, de manhã à noite, que os chineses lançam aos céus. O barulho é constante já às 8 da manhã e há chineses que pulam com os fogos. Acima, um vídeo perto de casa mostra o clima da meia-noite deste 14 de fevereiro. Bom ano do Tigre para todos.

Escrito por Raul Juste Lores às 16h09

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A China começa a estudar o Brasil

O prédio rodeado de neve, antiga sede da República na China no início do século 20, é um dos muitos endereços da Academia Chinesa de Ciências Sociais, o maior centro de estudos do governo chinês. Ali funciona o recentemente aberto Centro de Estudos Brasileiros, com 10 pesquisadores. Pequim quer saber como é o modelo de desenvolvimento recente do Brasil, quais são os efeitos da desigualdade social no país e qual é o papel do Brasil na América Latina.
No último ano, os estudos sobre o Brasil patrocinados pelo governo chinês receberam um inédito reforço. Diretores dos Institutos Chineses de Relações Internacionais Contemporâneas (Cicir, também pela sigla em inglês), criados pelo Conselho de Estado, o gabinete chinês, também me contaram que é maior o interesse sobre o Brasil. Dos 10 especialistas em América Latina, sete se dedicam ao Brasil.
“A política externa chinesa tem cada vez maior interesse nos demais países emergentes e não tínhamos muito conhecimento sobre o Brasil”, me disse o historiador Zhou Zhiwei, secretário-geral do Centro de Estudos Brasileiros da Cass (na última foto).
“A ascensão do Brasil é motivo de estudo aqui, mas também os efeitos da desigualdade social, já que muitos temem uma ‘latinoamericanização da China’ por conta da nossa crescente desigualdade”, diz.

“Falta muito conhecimento, dos governos às empresas e ao mundo acadêmico sobre os dois países, mas acho que estudamos mais o Brasil que os brasileiros a China”, diz Zhou. “As elites não se conhecem”.

Um ótimo termômetro para se medir o interesse dos chineses sobre alguma coisa é contar quantos estão estudando um certo assunto. Apesar de tema minoritário, o Brasil está em rota ascendente por aqui.

Para saber o que a diretora do Instituto Latino-americano do influente Cicir pensa sobre a relação do Brasil com a China, clique em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi2501201004.htm

Escrito por Raul Juste Lores às 14h37

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A máfia chinesa vai a julgamento

 

Xie Caiping, 47, a senhora da primeira foto, administrava 30 cassinos ilegais e bordéis, um deles diante do Tribunal de Justiça, na cidade chinesa de Chongqing. Ela empregava 16 jovens rapazes, que, segundo a imprensa local, lhe prestavam serviços sexuais.

Na segunda foto está seu cunhado, Wen Qiang, 56, que foi chefe da Justiça municipal e vice-diretor da Polícia. Ele é acusado de receber propinas da máfia, de estupro e enriquecimento ilícito. Wen tinha o equivalente a R$ 2,8 milhões enterrados em um laguinho artificial com peixes em uma de suas oito casas na cidade, onde também colecionava fósseis de ovos de dinossauro.
Policiais que queriam promoção na carreira também precisavam dar presentes ao chefe, que recebeu propinas estimadas em R$ 4 milhões.

Para muita gente na China, é o julgamento da década. Os dois foram descobertos pela operação chamada de “Repressão às forças do mal”, que prendeu mais de 1500 pessoas entre agosto e novembro passados, dos quais 200 funcionários públicos e autoridades locais do Partido Comunista, acusados de ligações com as tríades, a máfia chinesa. Há 870 julgamentos em curso, mas Wen é a autoridade de maior escalão a ser julgada.

Entre os casos julgados, há desde famílias inteiras que foram retiradas à força de onde moravam, enquanto suas casas eram demolidas para dar espaço a empreendimentos imobiliários, até de um jovem morto por uma das máfias porque um chefão não gostou de sua voz em um karaokê.

Com 31 milhões de habitantes, Chongqing é maior região metropolitana chinesa. É governada há dois anos por Bo Xilai, 60, ex-ministro do Comércio, membro do Politburo e um dos políticos mais ambiciosos do país. A operação de Chongqing, a maior em trinta anos, revela as ligações profundas entre o submundo chinês com o Partido Comunista. Analistas se perguntam se o problema só acontece em Chongqing ou se em outros lugares a rede de proteção é maior.

O julgamento vai até o fim desta semana e é provável que Wen receba a pena de morte. Outros seis acusados receberam a mesma sentença, mas a cunhada Xie, a dos 16 rapazes, foi condenada a 18 anos de prisão.

Fotos: Xinhua/CNS/AP

Escrito por Raul Juste Lores às 11h55

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A máquina exportadora do 1,99

Agendas 2010 de couro vendidas a R$ 0,50 por unidade. Skates com desenhos de mangá japonês ao equivalente a R$ 5. Mala grande de viagem a R$ 40. Cadeirinhas de bebê a R$ 50.
Mais da metade dos estimados US$ 3 bilhões de exportações em 2009 do centro atacadista de Yiwu, o maior do mundo, foram para países emergentes como Brasil, Rússia, Índia e Oriente Médio.
Conhecido entre brasileiros como "paraíso do R$ 1,99", Yiwu quer se adaptar à crise em seus maiores mercados (EUA e Europa). Neste ano, pela primeira vez, Yiwu organizou feiras em Dubai e Frankfurt para apresentar os seus produtos. Vai organizar ainda outras 40 feiras em casa para promover de tecidos e material de escritório a produtos de decoração.
Cerca de 500 mil contêineres deixam Yiwu por ano -o mercado doméstico chinês fica com os outros US$ 3 bilhões em produtos.

O governo chinês -oficialmente comunista e ateu- construiu há cinco anos uma mesquita para que os comerciantes muçulmanos "sintam-se em casa", como diz uma das propagandas de Yiwu.
Placas em inglês e árabe são vistas pela cidade inteira. Restaurantes com kebab e comida muçulmana se espalharam. Chineses da minoria muçulmana hui, que falam árabe, foram contratados pelas maiores lojas para atender os clientes do Oriente Médio.


O centro atacadista é a tradução visual do "made in China". São 4,5 milhões de metros quadrados, o equivalente a três parques do Ibirapuera (SP), reunindo 137 mil lojinhas que apresentam amostras de 1,7 milhão de produtos.
Diversos prédios entre três e cinco andares, que parecem puxadinhos um do outro, sem a menor unidade visual, serpenteiam o centro da cidade por quase dois quilômetros.
Com 200 mil funcionários, seu interior é uma versão anabolizada e mais organizada da paulistana 25 de Março.
Os prédios são divididos por temas e as lojas são reunidas por produto. Há o quarteirão das bijuterias, o das malas e de produtos de viagens, o de cofres e cadeados, o de furadeiras e ferramentas, o de papelaria e material de escritório -e assim por 200 áreas.
De óculos a roupas íntimas, de material esportivo a capacetes para motociclistas, Yiwu abastece supermercados e lojinhas do mundo inteiro.

Para ler mais, clique em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1701201014.htm e http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1701201013.htm

Fotos: China.org

Escrito por Raul Juste Lores às 14h21

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China e EUA trombam por Taiwan

 

 

 

Fotos de Taipé, capital de Taiwan*

Depois de Copenhague e do caso Google, China e EUA trombam novamente por conta de Taiwan e Tibete. A China anunciou sanções comerciais às empresas americanas que forneçam armamento a Taiwan, que inclui helicópteros e baterias antimísseis e navios. O jornal oficial do Partido Comunista chinês, o Diário do Povo, acusa os EUA de "pensamento grosso e irracional digno da Guerra Fria".

Após estabelecer reações diplomáticas com a China comunista, uma lei de 1979 obriga os EUA a zelar pela segurança de Taiwan, que a China considera uma Província rebelde, mas que tem um governo autônomo há 60 anos. Há 1500 mísseis no litoral chinês apontados para Taiwan. Nos últimos dois anos, porém, a relação dos dois lados do Estreito de Formosa melhoraram após a eleição do presidente taiwanês Ma Ying-jeou, que defende melhores relações comerciais com a China continental. Mas 77% dos taiwaneses se consideram taiwaneses _apenas 8% se consideram chineses. E a retórica chinesa parece não ajudar muito na reaproximação.

A indústria armamentista tem sua lógica própria e seus lobbies poderosos. Enquanto os EUA armam Taiwan, a China arma o Paquistão e colabora com Irã, Birmânia e Coreia do Norte. No final de 2008, o governo Bush anunciou a venda de armamentos para Taiwan no mesmo valor, mas a reação chinesa foi mais discreta. O novo status da China após a crise financeira global lhe permite ser mais agressiva para defender seus interesses.

Ontem foi a vez da China ameaçar com "severas consequências" caso Obama receba o líder tibetano no exílio, o dalai-lama. A China o julga um líder separatista e terrorista, enquanto parte do mundo o vê como líder religioso de uma minoria perseguida por cinco décadas. Ao dizer a Obama que ele não deve receber o dalai, a China acaba forçando o contrário: Obama terá que recebê-lo ou vai parecer fraco. Talvez seja mesmo de propósito. É a desculpa para a China dizer que não vai colaborar nas sanções contra o programa nuclear do Irã no Conselho de Segurança da ONU. O Irã é o segundo maior fornecedor de petróleo da China.

Para ler mais sobre minhas últimas reportagens em Taiwan, clique em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft0401201009.htm e http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft0401201010.htm

*a primeira foto mostra praticantes do Falun Gong, a religião perseguida na China, fazendo seus movimentos (inspirados no tai chi) diante do Museu do Palácio Nacional em Taipé (democracia é isso); o museu, o quinto maior do mundo, nas fotos seguintes, tem maior coleção de arte chinesa do planeta, com 630 mil peças _ a maior parte delas vinda da Cidade Proibida de Pequim, Chiang Kai-shek levou tudo para lá ao ser derrotado pelos comunistas; o segundo edifício mais alto do mundo, o Taipé 101, de arquitetura neoalguma coisa; shoppings abertos, uma tendência no Extremo Oriente, e ciclovias demarcadas nas ruas e nas calçadas.

 

Escrito por Raul Juste Lores às 08h00

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Mil novos cinemas por ano na China

E não é que o mercado está torcendo o braço da propaganda? O governo chinês mandou retirar Avatar de mais de mil cinemas para abrir espaço para Confúcio, superprodução estatal de educação moral e cívica. Nem adiantou James Cameron vir aqui fazer média. Mas as autoridades chinesas não esperavam que 1. a gritaria pró-Avatar em casa fosse tão grande; 2. que o xaroposo filme nacional deixaria cinemas vazios (até a crítica local brinca que o filme é vagaroso porque "Confúcio estava velhinho"). Há cenas de artes marciais e gente voando, a la Tigre e o Dragão, o que irritou os mais nacionalistas e os confucionistas. Resultado: Avatar está voltando a várias salas onde estava Confúcio... Entre os dois populismos, o americano está na frente (já é a maior bilheteria da história da China).

O mercado também vence no outro lado, Hollywood. Os chineses deixaram de ser os vilões e viraram mocinhos em "2012". Cada vez há menos astro hollywoodiano falando de Tibete e Dalai Lama. O mercado chinês é o que mais cresce no mundo e o de maior potencial. Há 5801 salas de cinema na China (no Brasil, 2200) e deve pular para 10 mil em 2010. É um mercado fechadíssimo: apenas 20 filmes estrangeiros têm permissão de estrear por ano. O resto chega pelos dvds piratas _ a importação legal é quase impossível, o que cria uma reserva de mercado para os pirateadores.

Dos 20 filmes estrangeiros que podem estrear no país, normalmente 19 ou 20 são de Hollywood. Na batalha pelo mercado, o regime comunista não dá muita bola para o cinema europeu, nem para o cinema independente. Pela censura de sexo, nudez, violência ou mensagens políticas, o que sobra é filme-pipoca. O Partido Comunista gosta mesmo é da Disney. Até Gong Li, musa do cinema local, disse que a censura estava criando uma geração infantilizada. No último festival de cinema brasileiro aqui, acontecido há três anos, filmes como "Céu de Suely" e "O ano em que meus pais saíram de férias" foram censurados e não puderam ser exibidos.

Para ler mais sobre o mercado do cinema aqui, clique : http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1712200915.htm

sobre a onda de filmes patrióticos, http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1712200916.htm

Escrito por Raul Juste Lores às 08h54

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China cresce 8,7% porque governo quer

Antes de falarmos do crescimento do PIB chinês em 2009 (8,7%), uma pequena comparação:

Em 1991, o PIB da China era de China US$ 450 bilhões, o do Brasil, US$ 400 bilhões e o da Argentina, US$ 300 bilhões. Com os números de 2009, o da China é de US$ 4,91 trilhões, o do Brasil, US$ 1,7 trilhão e o da Argentina US$ 350 bilhões.

A China cresceu 8,7% em 2009 porque o governo quis assim. Se o Partido Comunista consegue produzir chuvas e nevascas artificiais para mudar o clima em Pequim, o crescimento econômico em meio à recessão global não parece tão sobrenatural.

Ser uma ditadura coesa com decisões rápidas e incontestáveis ajuda. Ter um mercado potencial de 1,35 bilhão de habitantes, que lhe permite impor regras e retirar o que quiser de investidores e de governos estrangeiros (que não admitiriam imposições semelhantes de nenhum outro país) é uma vantagem única. Além da mão de obra disciplinada, profundamente trabalhadora e louca para deixar a miséria dos últimos mil anos.

A China está construindo 1000 km de metrô em 15 cidades e aprovou novos 2500 km em outras 22 (São Paulo e Rio juntas têm 110 km). Obras tiveram o prazo de entrega encurtado de quatro para dois anos apenas para obrigar empreiteiras a contratarem mais gente e gastar mais.

O governo nacional baixou os impostos dos automóveis para alegria da nova classe média que só andava de bicicleta e obrigou centenas de prefeituras e governos provinciais a renovarem suas frotas. 12,3 milhões de carros foram vendidos, ultrapassando os EUA como maior mercado automotivo do mundo.

Bancos estatais tiveram que emprestar o equivalente a 90% do PIB brasileiro a empresas estatais e governos provinciais que dificilmente quitarão suas dívidas, assunto empurrado para depois. Dinheiro não falta. Com sua moeda artificialmente colada ao desvalorizado dólar e mão de obra barata, o superávit comercial do país varia entre US$ 200 bi e 300 bi ao ano. Os investimentos estrangeiros diretos no país variam entre US$ 50 e 100 bilhões anualmente nas últimas duas décadas.

O país possui US$ 2,4 trilhões em reservas internacionais, mais que os PIBs de Brasil, Argentina e Chile juntos.

Por isso a overdose de estimulantes econômicos. No mês passado, foi inaugurada a linha de trem de alta velocidade entre as metrópoles de Wuhan e Guangzhou, de 960 km de extensão, praticamente a distância entre São Paulo e Brasília. A viagem é feita em três horas (antes durava dez) e as passagens custam entre 490 e 780 yuans (R$ 122,5 e R$ 195). Nas três primeiras semanas de operação, a ocupação foi de 30%. Os chineses ainda só conseguem pagar as passagens baratas da viagem longa. A obra custou o equivalente a R$ 29 bilhões.

Para ler o restante do meu comentário de hoje na Folha, clique aqui: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi2201201031.htm

Mais informações sobre a economia chinesa, http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi2201201029.htm

Escrito por Raul Juste Lores às 10h11

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O descobrimento do Brasil

A relação da China com o Brasil vai decolar?, me perguntou Hu Shuli, para muitos a maior jornalista da China. Ela me convidou para escrever um artigo sobre as relações dos dois países para a nova revista que acaba de lançar, a Caixin. Durante 11 anos, Hu Shuli foi editora da Caijing, uma das raras publicações independentes e críticas toleradas pela censura chinesa e a Caixin promete continuar o desafio.

O texto que escrevi mostra o outro lado do texto de 1º de dezembro neste blog sobre a modesta presença brasileira na China. Apesar do que se fala, a presença e a atenção chinesas com o Brasil também são mínimas. O comércio cresceu muito, é verdade, como com qualquer outro mercado do mundo com a China, mas se você tirar da conta matérias primas como soja e ferro pouco sobra.

O governo chinês é obcecado com os Estados Unidos, de estudar o seu sucesso a copiar suas tradições, mas ainda não dá muita bola aos países emergentes (G2 aqui é bem mais sexy que os BRICs). Lula visitou a China três vezes e deve fazer uma quarta visita em maio para a Exposição Universal de Xangai; o presidente chinês, Hu Jintao, esteve só uma vez no Brasil em 2004, o premiê Wen Jiabao nem isso.

Comparada com a atenção e o capital colocados na relação com a África, a América Latina ainda parece distante das prioridades chinesas.

Os investimentos chineses no Brasil são mínimos. A siderúrgica de US$ 4 bi que a Baosteel construiria no Espírito Santo foi cancelada em 2008 e ninguém viu os tais US$ 70 bilhões de investimentos chineses que o presidente Hu prometeu em sua visita a Brasília em 2004. A China importa carne bovina e suína dos EUA, mas ainda barra a do Brasil e as negociações comerciais se arrastam.

A cooperação diplomática ainda é pequena e o fato da China não apoiar o desejo brasileiro por uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU não ajuda. Fora isso, tem o crescente número de investigações antidumping brasileiras contra produtos chineses (que a China acusa de protecionistas) e a distância geográfica natural. A imagem da China no Brasil não é das melhores.

Goste-se ou não da China, essa é uma aliança fundamental para o Brasil no século 21. Vários ministros brasileiros têm vindo para cá, assim como empresários, mas ainda falta bastante para a relação decolar. Despertar o interesse dos chineses sobre o Brasil e sugerir novas avenidas de cooperação são o objetivo do meu artigo na primeira edição da Caixin, que você pode ler aqui: http://english.caing.com/2010-01-10/100106987.html

(Foto: Xinhua)

Escrito por Raul Juste Lores às 05h58

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Google pede para sair da China

A Google Inc. ameaça abandonar o mercado chinês, depois de acusar um ataque a contas de gmail de ativistas pró-direitos humanos no país. Em comunicado, a empresa diz que não vai mais censurar as pesquisas em seu mecanismo de buscas, como exige o governo chinês _ o que pode render a sua expulsão da China.

Desde 2006, quando o site Google.cn foi criado, pesquisas sobre termos como "dalai lama", "massacre na Praça da Paz Celestial" e "Falun Gong" são bloqueadas. Até pesquisas sobre as biografias dos líderes do Partido Comunista podem vir em branco.

O desafio público da Google às autoridades chinesas ainda é mais chocante porque não há empresa ocidental que não se "ajuste" às regras chinesas para ter algum acesso ao mercado de maior potencial do mundo (em qualquer área). Empresas estrangeiras são enganadas pelos seus sócios chineses, são alvos de pirataria e afins, mas sempre mantém o silêncio e seguem as regras do jogo. Algumas têm sucesso e fazem bilhões. A Google cansou.

Provavelmente negociou a portas fechadas com o governo chinês, sem resultado. Decidiu pelo barulho. Há uma razão evidente: os negócios da Google representam uma parcela pequena do rendimento da gigante americana. E aí voltamos ao tema da censura. O governo chinês estimula sites locais que copiam os americanos para dominar o mercado. Há uma cópia do Youtube (o Youku), que coloca no ar seriados e filmes americanos sem pagar os direitos, assim como versões piratas de eBay, Facebook, Amazon e por aí vai.

Não se trata apenas de protecionismo. As autoridades de Pequim sabem que as empresas locais vão colaborar com mais fervor na autocensura. O Google sofreu diversos bloqueios, retiradas do ar, advertências públicas _ e foi perdendo mercado para o Baidu.com, a cópia local do Google, que tem excelentes relações com o Partido Comunista. O Baidu tem 62% do mercado, o Google, 29%. Nos cálculos da empresa californiana, parece que não vale mais a pena disputar esse mercado. Estou à espera dos próximos rounds.

Escrevi longamente sobre a insular e isolada internet chinesa no mês passado, você pode ler aqui: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft2012200901.htm

e http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft2012200903.htm

(a foto é do blogueiro Youthfilm e mostra flores colocadas hoje na entrada do escritório da Google em Pequim; o bilhete é assinado pelo "homem puro da Google")

Escrito por Raul Juste Lores às 06h18

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O maior porto do mundo

 A China quis criar o maior porto do mundo _ e ele cumpriu o objetivo em 2009. O porto de Xangai estava abarrotado, não tinha como crescer na cidade e a profundidade do estuário do rio Huangpu não permitia navios maiores e mais modernos. Em 2002, o governo decidiu que precisava de uma ampliação. Escolheram duas ilhotas a 32km de Xangai para construir o anexo do porto. Em 2003, construíram a maior ponte do mundo em mar aberto para ligar o continente às ilhas (ficou pronta em 2005). De lá pra cá, tudo foi rápido: uniram as duas ilhas com 100 milhões de toneladas de areia, terraplenaram e criaram um porto gigante, Yangshan. A queda nas exportações de Cingapura no ano passado ajudaram o de Xangai a se tornar o maior do mundo. Seu movimento é 10 vezes maior que o de Santos, o maior do Brasil.

Para os consultores holandeses e americanos contratados pelos chineses para a tal façanha, a ideia é que o porto ficasse pronto em 2020. Em 2007, parte dele já começou a ser utilizado e, quando visitei o porto no ano passado e fiz as fotos acima, ele já estava com 80% da capacidade em uso. Seus detratores dizem que a obra é megalomaníaca, que não havia necessidade dessa ponte bilionária, que o meio ambiente foi devastado (claro) e que só é possível fazer obras assim com operários disciplinados ganhando muito pouco e trabalhando de domingo a domingo.

Detalhe: os prédios acima, que contém administração, escritórios e o restaurante (o com interior vermelho) foram todos feitos após concursos de arquitetura, por escritórios estrangeiros e locais. Note o tamanho do caminhão perto dos containers e gruas para sentir o tamanho da obra. Para ler a reportagem que escrevi quando ele ainda era o segundo do mundo, clique em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi2308200915.htm

 

Escrito por Raul Juste Lores às 05h55

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O capitalismo "predatório" da China

Paul Krugman, Prêmio Nobel da Economia em 2008, escreveu um contundente artigo no New York Times criticando o câmbio artificial do yuan, a moeda chinesa. Ele diz que é justo que os demais países criem barreiras comerciais para se defender do "mercantilismo predatório" da política econômica chinesa. Um trecho de seu argumento:

"Ao contrário do dólar, do euro, cujos valores flutuam livremente, a moeda da China é fixada em 6,8 yuans por dólar. Com essa taxa de câmbio, a indústria manufatureira chinesa tem uma grande vantagem de custo em relação a seus rivais, o que leva a enormes superávits.

Em circunstâncias normais, a entrada de dólares resultante desses superávits faria a moeda chinesa se valorizar, a menos que isso fosse compensado pelo movimento de investidores privados no sentido contrário. E os investidores privados estão tentando entrar na China, não sair. Porém, o governo da China restringe o ingresso de capitais, mesmo que compre dólares e os mantenha no Exterior, aumentando um estoque de reservas em moeda estrangeira que já supera US$ 2 trilhões.

Os chineses se recusam a admitir o problema. Muitos países estão adotando (modestas) medidas protecionistas, justamente porque a China se recusa a deixar sua moeda subir. E mais medidas desse tipo são totalmente apropriadas"

Krugman vai além: diz que os EUA não devem temer uma retaliação chinesa pois se os chineses começarem a vender seus dólares, o prejuízo seria maior para os chineses -- e uma queda no valor do dólar deixaria os EUA mais competitivos. Essa discussão só deve aumentar em 2010.

Para ler o artículo na íntegra, clique em http://www.nytimes.com/2010/01/01/opinion/01krugman.html?scp=1&sq=paul%20krugman%20chinese%20new%20year&st=cse

(a foto acima, da Xinhua, mostra um prédio de 13 andares que desabou quase inteirinho em Xangai no ano passado)

Escrito por Raul Juste Lores às 06h35

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Intelectual chinês diz que G2 é "fato"

Um mundo em que G8 e o novo G20 serão aposentados pela discussão bilateral entre as duas superpotências que importam - EUA e China, o "G2".

Esse é o "fato" previsto pelo cientista político chinês Yan Xuetong, diretor do Instituto de Estudos Internacionais da Universidade Tsinghua. Ele me deu uma entrevista na semana passada, publicada ontem na Folha. Destaco aqui três opiniões do influente professor chinês:

G2 É FATO
Há um mal-estar sobre o G2 como se fosse uma política dos dois países, mas não é. É um fato. Hoje é cedo para falar de G2, mas em 15 anos ou no máximo 20 teremos uma "situação G2", quando a China terá efetivamente diminuído a distância que tem entre si e os EUA em termos de poder abrangente.
Há duas possibilidades no presente, a multipolarização e a bipolarização. É muito provável que a primeira seja substituída pela segunda.
Mas, por enquanto, economicamente, militarmente e em "soft power", a China não pode competir com os EUA. Só que a crise financeira global do ano passado diminuiu essa diferença e aumentou dramaticamente o status da China.

BARRADA NO CLUBE
Será muito difícil que a China seja aceita como membro do clube dos países desenvolvidos porque seu sistema político não é aceito pelo clube do Ocidente. Se a Rússia fracassou em ser aceita, duvido que a China consiga. Então a China poderia estabelecer uma parceria mais positiva com países em desenvolvimento, como Índia, Brasil, Rússia, África do Sul.
Ao contrário do clube das potências ocidentais, os emergentes não ligam tanto para a diferença nos sistemas políticos. O que os une é o estágio econômico. Os europeus achavam que estavam no centro do mundo e que deveriam servir de modelo para os outros, dividindo entre civilizados ou não. É um complexo de superioridade baseado não só em coisas materiais.


VANTAGENS DA CHINA
A crise financeira teve um grande impacto na nossa política externa. A crise levantou o status da China na arena internacional, nos deixou mais confiantes e fez com que o mundo veja que nosso modelo tem vantagens. É da natureza humana achar que todo sucesso é baseado em algum modelo correto. Agora, muitos se perguntam o que vale aprender sobre a China.
A China vai colocar mais e mais fé no dinheiro, achando que o resto do mundo mudará suas atitudes em relação ao país por conta do dinheiro. Não há sociedade ou juventude que adore mais o dinheiro que os chineses.

Para ler a entrevista na íntegra, clique em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft2812200911.htm
No vídeo acima, há uma outra entrevista do professor Yan para uma revista asiática.

Escrito por Raul Juste Lores às 09h13

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PERFIL

Raul Juste Lores Raul Juste Lores, 33, correspondente da Folha em Pequim. Foi correspondente em Buenos Aires e editor de Internacional da Revista Veja e apresentador e editor-chefe do Jornal da Cultura, na TV Cultura.

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