Uma empresa com 11 mil engenheiros

A moradia dos funcionários da BYD (vi pelo menos 20 prédios assim na fábrica que visitei)
Há 11 mil engenheiros trabalhando na montadora BYD, que descrevi no texto anterior do blog. Metade deles trabalha nos quatro centros de pesquisa mantidos pela montadora - o mais recente pesquisa meios de armazenar e transmitir a energia solar e eólica. A maioria dos engenheiros é recrutada em universidades chinesas, recém-formados, com salários baixos, o que aumenta a competitividade da montadora de carros elétricos.
Como a BYD transformou Wang Chuanfu no homem mais rico da China, vale saber mais sobre esta empresa que lidera a nova cara do capitalismo chinês. Um trecho da reportagem que publiquei na Folha:
Com faturamento anual de US$ 4 bilhões, a empresa que quer liderar a revolução dos carros elétricos no mundo quase não utiliza robôs. Em seu lugar, milhares de funcionários em uniformes azuis encaixam manualmente as minúsculas peças dos automóveis.
Da montagem ao controle de qualidade, tudo é feito por humanos, em um país de mão de obra abundante.
A empresa tem 11 fábricas e 130 mil funcionários. A maioria é recrutada nas próprias universidades chinesas. Engenheiros iniciantes ganham cerca de 4.000 yuans (cerca de R$ 1.000), mais hospedagem e alimentação subsidiadas nos dormitórios e refeitórios ao redor da empresa.
Clique em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi0811200914.htm para ver a reportagem na íntegra
e em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi0811200916.htm para saber mais sobre o homem mais rico da China, o físico e químico que criou a BYD
Escrito por Raul Juste Lores às 13h42
O carro elétrico chinês




Há dez anos, carro particular era artigo de luxo na China, só começou a se popularizar em 2001 (as cidades eram das bicicletas). É por isso que surpreende tanto que uma montadora chinesa, BYD, seja a primeira a lançar um carro elétrico para valer, ultrapassando americanos e japoneses. Mas ainda vai demorar para ser uma alternativa real nas poluídas cidades chinesas. O carro é caro para os padrões locais (cerca de R$ 40 mil) e falta uma boa rede de carregadores para baterias. Mas é interessante ver como a China vê as novas energias como oportunidade de negócios _ os dois maiores fabricantes de painéis para energia solar também estão no país.
A inovação da BYD já atraiu grandes investidores - Warren Buffet, segundo homem mais rico do mundo, comprou 10% da empresa.
Tirei as fotos acima do carro em que passeei pela fábrica (elétrico e silencioso) e do carro desmontado que mostra como funciona o sistema de bateria. Para saber mais sobre a minha visita à fábrica da BYD e a história por trás do carro elétrico chinês, clique em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi0811200912.htm (caderno Dinheiro da Folha de hoje)
Escrito por Raul Juste Lores às 10h31
As distorções da economia chinesa
O economista Huang Yasheng destoa do oba-oba sobre a recuperação da economia chinesa. Professor do MIT, ele lançou no ano passado um dos melhores livros já publicados sobre o chamado modelo chinês, "Capitalismo com características chinesas", ainda não lançado no Brasil. Explica os motivos do crescimento contínuo da economia chinesa por 30 anos, mas aponta suas distorções e problemas.
Na entrevista que ele me concedeu em Pequim, ele critica vários pontos da atual recuperação chinesa. Fala que a China vive um momento de reestatização, que enquanto o governo e as estatais chinesas são riquíssimos, a sociedade chinesa ainda é pobre; diz que fora da economia estatal, ainda se percebe a crise na China e que o país ainda não tem como substituir a crise nos mercados externos pela demanda doméstica.
Dois pontos bastante interessantes que Huang fala:
HORA DO BRASIL
Para a China, o Brasil é ferro, é soja, é uma fonte de recursos naturais de que ela desesperadamente precisa. Mas, por conta da recessão nos países ricos, a China começa a despertar para o Brasil como um mercado alternativo para seus produtos.
O Brasil poderá tirar muitas vantagens dessa situação, se souber negociar. Mas, para isso, precisa entender a China. Contaram-me que não existe um único centro de estudos sobre a China nas universidades brasileiras, o que é um espanto. Qualquer boa universidade americana, europeia ou asiática já tem um bom centro com sinólogos há anos.
EDUCAÇÃO
Uma das maiores razões do crescimento chinês, a que poucos dão crédito, é que, nos últimos 50, 60 anos, investimos muito em educação, da base à universidade. Mesmo nos anos Mao, é preciso reconhecer, a educação de base foi prioritária e melhorou muito. Quando a economia se abriu, tínhamos uma força de trabalho já educada. Qualquer pesquisa internacional vai dizer que você é melhor empregado, é melhor gerente ou é melhor empreendedor se passou vários anos por uma escola de qualidade. Essa é uma vantagem.
Para ler na íntegra: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi0111200910.htm
Escrito por Raul Juste Lores às 04h07
A cidade invade o shopping





No mês que vem é inaugurada a segunda fase do shopping Village Sanlitun, em Pequim. Nem é o maior, nem tem as melhores marcas na cidade (onde há 90 shoppings), mas é o que criou a melhor relação com a cidade, com o seu entorno. E o de arquitetura mais incrível, como se vê nas fotos acima. Na loja da marca japonesa Uniqlo, a abertura de persianas rosas, vermelhas, laranjas e brancas modificam o colorido de sua fachada de acordo com a abertura. Um rasgo lateral de vidro permite a visão do interior de seus quatro andares. Ao lado dela, a maior loja da Adidas no mundo é um prédio sanfonado de quatro andares espelhado em tons de cinza e preto com a aerodinâmica de um automóvel. Outro edifício tem todo o revestimento dourado. Nem parece um shopping center, mas justamente por sua arquitetura antimonotonia o Village Sanlitun virou atração turística. Em vez de um único caixotão sem janelas com ar-condicionado e iluminação artificial o tempo todo, como a maioria desses centros comerciais, o Village é formado por 19 predinhos de três e quatro andares desenhados por arquitetos diferentes. As 250 lojas são conectadas por vielas, pequenas praças com bancos, árvores e obras de arte ao ar livre, inspirados na distribuição das ruazinhas do centro histórico de Pequim. Na praça principal, DJs e artistas se apresentam, um telão LED exibe clipes e uma fonte de águas saltitantes vira um molhado playground para crianças que adoram se ensopar. O shopping de 135 mil m2 é inteiramente aberto. Não há muro ou portas e o mesmo material das larguíssimas calçadas é empregado em suas galerias e corredores. Para ler a reportagem que escrevi no suplemento Vitrine, da Folha, clique em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/vitrine/vi3110200906.htm Para me seguir no twitter: @rauljustelores
Escrito por Raul Juste Lores às 14h37
Intérprete de Mao fala da China hoje


Entrevistei uma lenda para quem estuda a China contemporânea. Sidney Riitenberg, 89, foi o único americano membro do Partido Comunista chinês em seus primórdios, intérprete dos líderes comunistas Mao Tsé-tung e Zhou Enlai e chefiou a rádio China Internacional.
Um trechinho da reportagem abaixo:
Nos anos 40, Mao pediu que ele enviasse mensagens ao governo Roosevelt, em que o líder chinês dizia que queria "manter boas relações com os EUA".
Íntimo do poder na maior parte do tempo em que morou na China (1944-1980), ele ficou dez anos preso durante a Revolução Cultural por criticar a burocracia do regime de Pequim. Casado com uma chinesa, o americano mantém até hoje o hábito de passar quatro meses por ano na China, onde tem uma empresa de consultoria.
Em seu apartamento em Pequim, Sidney Rittenberg conta como Mao via os EUA, as comunas e como a liderança comunista se encastelou na Cidade Proibida. Ele explica o que mudou na relação com os EUA e decreta: os atuais mandatários comunistas "são muito mais inteligentes e preparados" que os líderes ocidentais.
Na íntegra: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft2610200910.htm
Escrito por Raul Juste Lores às 08h39
China quer exportar censura

Dois livros traduzidos ao inglês com palestras e discursos do ex-presidente Jiang Zemin (acima) estão entre os lançamentos oficiais na Feira do Livro de Frankfurt. O maior evento comercial do mundo literário tem a China como o país homenageado, o que já provoca suficiente polêmica _ a China censura cerca de 600 livros por ano, publicações estrangeiras são rotineiramente proibidas de entrar e vários escritores se encontram presos por questões políticas e de liberdade de expressão.
Escritores chineses críticos ao regime comunista de Pequim têm sido "desconvidados" de mesas redondas e debates na Feira de Frankfurt, por pressão do governo chinês. A China já ameaçou boicotar o evento se dissidentes fossem convidados.
Cerca de 2.000 editores, escritores, artistas e jornalistas chineses participarão da Feira - o governo chinês investiu US$ 15 milhões em sua participação, a primeira em um grande evento cultural internacional.
Mas essa pouca tolerância do regime a críticas demonstra o desejo do cada vez mais poderoso regime comunista de exportar a censura para outros cantos do mundo.
Em agosto, o governo chinês tentou impedir o Festival de Cinema de Melbourne (Austrália) de exibir um documentário sobre Rebiya Kadeer, a exilada líder uigur que acusa a China de cometer "genocídio cultural" contra sua etnia.
O festival manteve a exibição. Hackers chineses vandalizaram o site do evento e o governo chinês, então, cancelou missões oficiais à Austrália como forma de retaliação. Cineastas chineses, pressionados pelo Ministério da Cultura, cancelaram a participação em Melbourne.
Para ler na íntegra, http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1410200913.htm
Escrito por Raul Juste Lores às 05h32
Vamos aprender mandarim?
http://imgs.xinhuanet.com/icon/photos/20091004/008_cube_out_2000.swf
(recomendo enfaticamente que vocês visitem a foto do link acima; com 360º, ela mostra a parada militar do dia 1º do alto de um hotel; não me perguntem como tecnicamente ela foi feita, montagem ou não, mas impressiona de qualquer jeito)
Na Folha de hoje escrevi sobre como o governo chinês está bancando um programa ambicioso para ensinar mandarim pelo mundo:
A China planeja enviar até o ano que vem mais de 1.500 professores de mandarim para 82 países onde abriu centros de ensino de mandarim e cultura chinesa.
Atualmente são 382 centros com 5.000 professores, quase todos instalados em universidades -o número deve pular para 500 centros em 2010. No Brasil, há duas unidades.
O Instituto Confúcio quer ser a versão chinesa do British Council e dos institutos Cervantes (espanhol) e Goethe (alemão). "Queremos promover a cultura e o idioma chineses, ampliar o entendimento sobre a China no exterior", disse à Folha o vice-presidente da instituição, Ma Jianfei.
Em apenas cinco anos de existência, o Confúcio já produziu material didático em 42 idiomas. São 300 livros novos por ano. Apesar de o orçamento oficial anual ser de US$ 100 milhões, acredita-se que o número real seja muito superior, pois o instituto recebe verbas extraorçamentárias dos ministérios de Comércio, Finanças e Relações Exteriores.
Mas os professores chineses estão enfrentando uma dureza com os alunos estrangeiros (e até choram, segundo Ma Jianfei). Para ler na íntegra, http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft1210200912.htm
Escrito por Raul Juste Lores às 07h52
O MBA do comunismo chinês

Dois mil professores para uma capacidade máxima de 2.000 alunos. Com um professor por aluno, a Escola do Comitê Central do Partido Comunista da China é o exclusivo MBA da direção comunista.
Todos os futuros governadores e secretários-gerais do partido nas Províncias têm de estudar lá antes de assumir o cargo. Os prefeitos das 12 maiores cidades chinesas também, bem como presidentes de estatais, futuros ministros, secretários e seus principais assessores.
Há escolas do partido por todo o país, que antes serviam para doutrinar os novos membros, mas que hoje se dedicam a aulas mais práticas de gerenciamento, macroeconomia e até recursos humanos. Mas à Escola do Comitê Central só se chega quando já se está na elite do partido -e ainda assim há uma longa lista de espera.
Há cursos intensivos de dois a seis meses e módulos que podem chegar a dois anos. Na maior parte dos casos, o estudante precisa abandonar o cargo nacional, provincial ou municipal que ocupa para se dedicar apenas ao treinamento.
Para ler na íntegra, http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs2709200906.htm
Escrito por Raul Juste Lores às 11h26
Uma visita ao Oiticica da China
A censura sempre complicou a vida dos artistas na China. Nos últimos anos, o dinheiro fácil, em um mercado que se tornou visado por colecionadores do mundo inteiro, criou uma geração de artistas que só se copiam, se repetem, e que adoram produzir suvenires para ocidental comprar. Nesse cenário viciado, o artista/arquiteto/designer/provocador Ai Weiwei é revolucionário. Ele é uma espécie de Helio Oiticica chinês, que tem exposições atualmente em cartaz em Tóquio e Munique, e é uma lenda na cena das artes em Pequim. Suas críticas ao governo chinês são raridade em uma cena sempre disposta a agradar o Partido.

Ele fez o mapa da China, acima, em madeira encontrada em templos da dinastia Qing demolidos na última década. Sua obra fala de presente e passado chineses, de iconoclastia e reverência, de 3500 anos de história contínua, mas de amnésia e arrivismo da "Nova China". Estive com ele no mês passado e publiquei uma reportagem na Ilustrada, que você pode ler aqui: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1709200907.htm
As duas fotos abaixo são de “Conto de fadas”, instalação-performance na Documenta de Kassel, em 2007. Ai levou 1001 chineses que nunca tinham viajado ao exterior para o evento artístico na Alemanha, acompanhados de 1001 cadeiras no estilo da dinastia Qing.


“Ocidente e Oriente precisam se encontrar, com o medo e a curiosidade que isso implica”, diz Ai. “Acho que os participantes acham que aquela cidade pequena encantada alemã é o Ocidente. Voltaram mais confusos, o que é bom para a imaginação e a fantasia”, brinca.
As galerias da pequena Kassel tiveram seus dias de superpopulação com 1001 chineses de um lado para outro.

Fiz essa foto acima da obra mais recente de Ai, uma longa serpente formada por centenas de mochilas escolares e que dá voltas pelo teto do museu Mori, em Tóquio, onde há uma retrospectiva de sua obra.
“Depois do terremoto de Sichuan, no ano passado, havia milhares de mochilas espalhadas, única lembrança das crianças. E a serpente, para os chineses, sempre indica o perigo que está à espreita”, diz Ai. As chamadas "escolas-tofu" desmoronaram como papel, enquanto construções do Partido Comunista ficaram intactas ao lado. Mais de 5 mil crianças morreram nas salas de aula.

Ai colaborou com os suíços Jacques Herzog e Pierre de Meuron no conceito do Estádio Olímpico de Pequim (os três na foto acima). Ele foi convidado pelos suíços em 2002 para conceber o estádio. No meio tempo, Ai começou a brigar com o governo chinês, fazendo críticas cada vez mais em público, e os suíços deram entrevista ao New York Times dizendo como era difícil trabalhar na China, com mil casos escabrosos. Nenhum dos três foi convidado à inauguração.

Ai me recebe no seu estúdio já tirando fotos de mim e de tudo que acontece ao redor ("é para o meu blog", diz). Cheio de jovens assistentes, outros jornalistas, visitantes estrangeiros e diletantes, o ateliê sempre parece uma festa, apesar da voz baixa e da aparente timidez de Ai. Ele desenhou a maior parte dos ateliês do bairro (foto abaixo do seu estúdio).


Uma foto famosa de Ai Weiwei diante da Cidade Proibida

Outra obra de Ai, foto que tirei em Tóquio. Perólas cultivadas em bacia: ironia quanto ao luxo em excesso e sua banalidade?
abaixo uma entrevista gravada em sua casa-ateliê no bairro de Caochangdi, em Pequim:
No twitter: @rauljustelores
Escrito por Raul Juste Lores às 09h59
Mercedes Sosa e seu famoso fã chinês
Wong Kar Wai, um dos maiores cineastas chineses (nascido em Xangai, mas há décadas em Hong Kong), adora música latina. No comercial acima, que ele dirigiu para a BMW, ele escolheu "Unicornio" da cantora argentina Mercedes Sosa, que morreu no fim de semana.
O comercial tem Clive Owen, Forest Whitaker e Mickey Rourke, além da famosa modelo brasileira Adriana Lima. Wong Kar Wai é fascinado por música latino-americana: "Quizás, quizás, quizás" está em seu longa Amor à flor da pele; "Cucurrucucú Paloma", interpretada pelo Caetano Veloso, está em Happy Together; e "Siboney" está em 2046. À memória de Mercedes Sosa.
No twitter: @rauljustelores
Escrito por Raul Juste Lores às 09h59
A transformação do Comunismo (e closes da Parada)

Balões na praça da Paz Celestial (Tiananmen) ao final da Parada Militar que celebrou os 60 anos de comunismo em 1º de outubro.

Novos tanques camuflados na demonstração de poderio militar chinês _ o orçamento deles aumenta 20% em média por ano

Momento Coreia do Norte 1

Momento Coreia do Norte 2 _ homenagem aos operarios, apesar da invisibilidade de leis trabalhistas na China

Momento personalista, com poster gigante do presidente Hu Jintao

Nenhuma criança sorrindo, como em quase todo o evento _ a celebração do Partido não é festa
Apesar do visual antiquado, há mudanças _ muitas _ no interior do Partido Comunista. Escrevi reportagem a respeito:
Dos nove homens mais poderosos da China, membros do Politburo do Partido Comunista, oito são engenheiros. Apenas um é advogado. O debate político parece mínimo, mas a execução das obras e o planejamento estão em todo lugar na transformação da China dos últimos anos.
Os dois membros mais jovens do Politburo têm doutorado -eles devem se tornar os próximos presidente e primeiro-ministro. Um deles, o atual vice-presidente, Xi Jinping, 56, deve ser o próximo presidente, ainda que não seja o preferido de quem hoje ocupa o cargo, Hu Jintao, prova da tímida democracia interna que começou a crescer na última década.
Para ler mais sobre como são promovidos e punidos os novos líderes do Partido e as facções internas: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs2709200904.htm
No Twitter: @rauljustelores
Escrito por Raul Juste Lores às 06h26
De Pequim 2008 para Rio 2016
Após ter o privilégio de cobrir a Olimpíada de Pequim para a Folha, escrevi sobre Rio 2016 no ano passado:
"Se até a poluída, provinciana e desajeitada Pequim se exibiu bela, moderna e ecológica perante o mundo, fica difícil não torcer por uma Olimpíada no Rio de Janeiro.
Depois de cinco décadas de decadência, o Rio poderia embasbacar o planeta com o que já possui naturalmente. Ibiza, Bangkok e Dubai tremeriam se o Rio voltasse a seu esplendor.
A quantidade de vocações econômicas desperdiçadas pelo Rio é digna de cidades que não precisam mais de dinheiro, nem de empregos.
O Rio já deveria ser a capital mundial da cirurgia plástica e do cuidado com o corpo, com centenas de spas e clínicas internacionais. Miami e várias cidadezinhas suíças faturam muito com isso, sem ter Giseles ou Pitanguys como garotos-propaganda.
Poderia se tornar capital de turismo musical, gay, da melhor idade (ou terceira idade, como preferirem), de afroamericanos, entre tantos outros. Para ler mais, http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz3108200806.htm
Escrito por Raul Juste Lores às 16h37
Povo ausente no aniversário da China
O povo foi barrado da festa dos 60 anos da República Popular da China, ou seja, da chegada dos comunistas ao poder. A parada militar que eu vi hoje de manhã em Pequim foi um espetáculo para VIPs. Poucos. 8 mil militares e 90 mil civis, principalmente escolares, universitários e funcionários públicos, para uma platéia que não chegou a 5 mil pessoas _ figurões do Partido Comunista, embaixadores e jornalistas. E só.
Mesmo que você morasse na avenida onde o desfile militar aconteceu, a ordem era clara: feche as janelas e não fique na varanda (com ameaças sérias caso o morador quisesse desobedecer). Todas ruas e avenidas próximas da avenida da Paz Celestial, palco da parada, foram bloqueadas por centenas de militares e policiais. Sem pedestres ou trânsito, a parada aconteceu para calçadas vazias. Só um trecho com arquibancadas vermelhas em frente à Cidade Proibida foram ocupadas.
Com medo de protestos, a imprensa estatal recomendou ao povo chinês "a assistir ao evento no conforto de sua casa". Pequim parecia uma cidade deserta. E triste. VIPs não são as pessoas mais animadas do mundo, nem no Brasil, nem aqui.
Produtores da estatal CCTV ficavam com placas diante da audiência VIP dizendo que horas eles seriam alvo de close _e para onde olhar, para onde sorrir, se aplaudir ou não. Nem risadas ou o típico "mamãe, estou na TV" tem chance na China de hoje.
Dizem que paradas militares são iguais em todo mundo, mas nas ditaduras comunistas têm um algo a mais. Comunistas são fascinados por Hollywood, por musicais dos anos 40, 50, por aquelas centenas de pessoas movendo braços, pernas e olhinhos sincronizadamente. É só lembrar da falecida União Soviética ou da Coreia do Norte _ está mais para uma versão kitsch e pesadona de Vincent Minelli do que dos filmes de Leni Riefenstahl. Além dos tanques e mísseis, teve estudante vestido de vaquinha e cavalo para falar da agricultura, carros alegóricos de mísseis e foguetes, e jovens com trajes folclóricos das minorias étnicas para falar que tudo anda bem com as minorias na China.
Como a Olimpíada de Pequim, também desenhada para deixar o povo a quilômetros de distância, o evento foi totalmente concebido para a televisão. Impressionar o público doméstico da potência da nova China (com tanques e mísseis novinhos) era a prioridade. Quem estava na plateia, viu de soldados a crianças de 10 anos marcharem com passos robóticos, sem um único sorriso no rosto. Carros alegóricos que representavam as conquistas e avanços da China em 60 anos de comunismo pediam aos gritos pela colaboração e expertise de qualquer carnavalesco do Rio de Janeiro (qualquer um).
Na TV, porém, como os vídeos demonstram, a parada até não foi um sonífero completo. O grande artista chinês Ai Weiwei me falou no mês passado que, com sua exigência de perfeição e paranoia para evitar qualquer erro, esses eventos matam qualquer espontaneidade. "O povo chinês é bem mais divertido do que o Partido Comunista permite", disse. A fúnebre parada só dá razão para Ai.
Apesar dos incontáveis avanços econômicos e sociais que a China tem para apresentar em 60 anos (mas os 40 milhões de mortos e as atrocidades de Mao Tsé-tung ficaram de fora), a celebração infelizmente apresentou uma China antiga, militarista, sem alma. Em 1999, última grande parada militar organizada pelo regime, o povo ainda teve liberdade de se aproximar e ver o desfile. Apesar do crescimento imparável do PIB, na questão de liberdades e censura, o atual governo é de retrocesso.
Antes que alguém me chame de VIP, por estar lá: jornalista estrangeiro nunca é tratado como VIP na China. É sempre uma aventura penosa _ a China ainda é uma ditadura fechada, desacostumada com a crítica e o escrutínio externos.
Pedi minha credencial para cobrir o evento em agosto, mas até ontem às 23h não sabia se poderia ver ou não a parada. As credenciais só foram distribuídas à meia-noite... com a ordem expressa de que teríamos que estar de volta ao Centro de Mídia do governo às 6 da manhã. Metade dos jornalistas credenciados nem ficou sabendo que as credenciais saíram, o que fez a nossa tribuna estar com clarões enormes. Dormi duas horas, mas o barulho dos tanques até que me deixou acordado. Já há mil boatos: que o governo chinês não queria mesmo a imprensa estrangeira por ali com a má vontade habitual; que a desorganização acontece porque tudo é muito centralizado e ninguém decide; ou porque, em termos de relações públicas, o governo chinês ainda está nos anos 50. Como o seu desfile.
Para me seguir no Twitter: @rauljustelores
Foto: Xinhua
Escrito por Raul Juste Lores às 08h40
Proibido empinar pipa
Pequim vive dias de paranoia por conta da parada militar e das celebrações dos 60 anos da chegada ao poder dos comunistas. Há ensaios da parada de 1º de outubro por toda a cidade (principalmente na escola ao lado da minha casa, que começa às 7 da manhã). Escrevi na edição da Folha de ontem sobre os preparativos.
Saiu hoje nova regra para reforçar a segurança das comemorações: é proibido empinar pipas para garantir a segurança nos céus. Há fotos e vídeos imperdíveis sobre treinamento militar:
http://pic.news.sohu.com/911195/912651/912654/group-172586.shtml#m=b&g=172586&p=1387285
http://v.youku.com/v_show/id_XMTE4MTAzMjg0.html
Fotos: China.org
Escrito por Raul Juste Lores às 14h08
Japão e China, rivais íntimos
A relação entre as duas potências asiáticas ainda é de desconfiança, competição velada e até mesmo ódio não superado pelas duas invasões japonesas à China entre o final do século 19 e os anos 30 do século passado.
Mas a economia transformou os dois rivais em íntimos parceiros e os obriga a conversas constantes. O Japão exportava para a China US$ 53 bilhões anuais em 2002, número que saltou para US$ 150 bi em 2008.
"Os livros escolares japoneses continuam a atacar a China ou a ignorar as atrocidades que o Japão cometeu aqui", diz o professor Liu Jianyong, da Universidade Tsinghua, de Pequim. "Fica difícil acreditar em arrependimento."
Já as novelas chinesas, produzidas pela estatal CCTV, não perdem tempo em apresentar os japoneses como bárbaros e cruéis. Há pelo menos 20 novelas por ano com a ocupação japonesa como principal tema.
Para ler na íntegra: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft1209200915.htm
Escrito por Raul Juste Lores às 09h52






